Mortes de pedreiros por PMs repetem sequência de enganos; histórico tem furadeira e guarda-chuva
Na manhã de quarta-feira, as “armas” levadas pelos pedreiros Marcelo da Cruz Silva e Edivan Felipe de Assis eram ferramentas que seriam utilizadas numa obra em São Gonçalo e que teriam sido confundias com fuzil. Mas os enganos durante ações policiais já envolveram os mais diversos objetos: de uma furadeira a um cabo de vassoura, passando por guarda-chuva e até saco de pipoca.
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Um dos episódios de maior repercussão ocorreu em 2010, quando o policial Leonardo Albarello, que era lotado no Batalhão de Operações Especiais (Bope), atirou e matou Hélio Ribeiro, que estava usando uma furadeira no terraço de sua casa, no Morro do Andaraí. O PM foi a julgamento e acabou absolvido.
Furadeira igual à usada por homem morto em 2010 por PM do Bope foi utilizada em perícia
Gulherme Pinto / Agência O Globo / 21-05-2010
Nove anos depois, a ferramenta voltou a decretar uma sentença de morte. Morador da comunidade Santa Maria, na Taquara, João Vitor Dias Braga, de 22 anos, levava uma furadeira para fazer um serviço, quando o equipamento foi confundido com uma arma por policiais que faziam operação no local.
Em 2018, outro caso provocou revolta. Policiais da UPP do Morro Chapéu Mangueira, no Leme, mataram Rodrigo Alexandre da Silva Serrano. Alegaram que o jovem de 26 anos descia o morro com um fuzil e um colete à prova de balas. Na verdade, ele carregava um guarda-chuva e um canguru — um suporte para levar bebês junto ao corpo — quando ia buscar a mulher e o filho.
Rodrigo Serrano, morto enquanto carregava um guarda-chuva
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Um engano fatal também tirou a vida dos jovens Jorge Lucas Martins Paes, de 17 anos, e Thiago Guimarães Dingo, de 24, no Morro da Pedreira, em Costa Barros, em 2015. Os dois levavam um macaco hidráulico na moto. Em sua defesa, o sargento da PM que atirou — Carlos Fernando Dias Chaves — alegou que pensou se tratar de um fuzil. Em 2020, o policial foi reformado.
Thiago Dingo Guimarães e Jorge Lucas Martins Paes: mortos após PM confundir macaco hidráulico com fuzil no Morro da Pedreira
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Em 2016, a polícia achou que Jhonata Dalber Matos Alves, de 16 anos, estava com drogas quando deu um tiro na cabeça do adolescente, no Morro do Borel, na Tijuca. O que ele tinha nas mãos não passava de um saco de pipoca.
Caso mais recente ocorreu em 2023, na Cidade de Deus, onde o catador de recicláveis Dierson Gomes da Silva, de 50 anos, foi morto quando carregava um pé de mesa quebrado pendurado ao corpo por uma fita. O que, segundo a Polícia Militar, acabou sendo confundido por agentes com um fuzil. Segundo moradores, a vítima costumava levar o pedaço de madeira para usar como cabo de enxada em serviços de capina.
Em 2022, ocorreu o erro que matou o vigia Fábio Tavares da Silva em um posto de saúde do bairro Guachá, em Belford Roxo, onde trabalhava, em 2002. O vigilante esteva na porta da unidade segurando uma vassoura, quando foi atingido por seis disparos. O objeto foi confundido por PMs com um fuzil.
‘Não foi pouco, foi muito tiro’
Uma prima do pedreiro Marcelo da Cruz Silva reagiu com indignação à ação da PM no Jardim Catarina nesta quarta-feira.
— Meu primo saindo para trabalhar, não sei se foi Bope, se foi Core, só sei que deram uma rajada de tiro para cima dele. Não foi pouco, não, foi muito tiro — afirmou ela, que preferiu não se identificar — Morreu de maneira covarde, e eu lamento muito pela morte do meu primo. Eu cuidei dele, eu posso dizer, ele não era bandido, não era, porque se fosse eu colocava a cara aqui para falar, mas ele não era, morreu na covardia.
Marcelo da Cruz Silva, de 41 anos, e Edvan Felipe de Assis foram mortos em ação da PM em São Gonçalo
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A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj informou que acompanha “com extrema indignação” e classificou como “inadmissível” a situação que envolveu as mortes dos pedreiros Marcelo e Edivan, no Jardim Catarina, durante operação do 7º BPM (São Gonçalo). Em nota, defendeu a necessidade de apuração imediata do caso e a divulgação das imagens das câmeras corporais dos policiais.
“O caso exige investigação rigorosa, perícia técnica imediata e divulgação das imagens das câmeras corporais dos agentes envolvidos. É inadmissível que trabalhadores sejam mortos pelo Estado enquanto saem para garantir o sustento de suas famílias”, afirmou a comissão.
O colegiado também informou que está à disposição das famílias para prestar atendimento e que acompanhará de perto o desenrolar das investigações, cobrando transparência e responsabilização.
Presidente da comissão, a deputada Dani Monteiro (PSOL) se solidarizou com os parentes dos pedreiros “diante de mais uma ação policial marcada pela morte de trabalhadores inocentes”.
