Mortes de autoridades dos EUA em acidente no México expõem atuação da CIA, e Sheinbaum ordena investigação

 

Fonte:


A presidente do México, Claudia Sheinbaum, ordenou na terça-feira uma investigação sobre o papel desempenhado por dois funcionários dos Estados Unidos que, segundo relatos à imprensa, trabalhavam para a CIA em uma operação antidrogas no estado de Chihuahua, no norte do país. Os dois morreram em um acidente de carro no fim de semana, ao lado de outros dois investigadores mexicanos, após uma ação para destruir laboratórios clandestinos de drogas. De acordo com autoridades locais, o veículo saiu da pista, caiu em um barranco e explodiu na manhã de domingo.

Em janeiro: EUA pressionam México a permitir entrada de militares americanos para combater cartéis de drogas

Aliança pragmática: Com diplomacia e combate ao narcotráfico, México dribla ofensiva de Trump no Caribe

Versões divergentes, no entanto, foram apresentadas por autoridades dos dois países. Inicialmente, o embaixador dos EUA no México, Ronald Johnson, afirmou que os americanos eram “funcionários da embaixada”, versão endossada pelo procurador-geral do estado de Chihuahua, César Jáuregui. Segundo ele, ambos eram “oficiais instrutores” que realizavam o “trabalho de treinamento como parte do intercâmbio geral e normal” do país “com as autoridades americanas”.

A embaixada dos EUA, por sua vez, se recusou a identificar os indivíduos ou a entidade do governo para a qual trabalhavam, embora tenha afirmado que os dois estavam “apoiando os esforços das autoridades do estado de Chihuahua para combater as operações dos cartéis”. O Departamento de Estado americano e a CIA também se recusaram a comentar, enquanto Sheinbaum afirmou, na segunda-feira, que nem ela e nem integrantes de alto escalão da equipe federal de segurança foram informados sobre qualquer operação conjunta entre EUA e México.

A líder mexicana, que tem enfrentado pressão de seu homólogo americano, o presidente Donald Trump, para fazer mais a fim de conter o fluxo de drogas do México para os EUA, tem sido enfática ao dizer que autoridades estrangeiras só podem atuar em solo mexicano se houver autorização prévia em nível federal, insistindo que a soberania de seu país não pode ser violada. Sheinbaum afirmou que seu governo precisava “entender as circunstâncias em que” o caso aconteceu e, depois, “avaliar as implicações legais”.

Relembre: Exército dos EUA iniciou treinamento para possível ação contra cartéis no México

Segundo ela, membros de seu governo pediram informações tanto à embaixada dos EUA quanto às autoridades do estado de Chihuahua para determinar se a operação pode ter violado a lei de segurança nacional do México. A presidente ressaltou que, embora sua administração trabalhe com Washington, incluindo no compartilhamento de inteligência, “não há operações conjuntas em terra ou no ar”. A falta de clareza, no entanto, reacendeu o debate sobre a extensão do envolvimento americano nas operações de segurança do país.

Trump tem adotado uma postura mais agressiva em relação à América Latina, capturando o presidente da Venezuela, bloqueando remessas de petróleo para Cuba e lançando operações militares conjuntas no Equador, país também marcado pela violência criminal. Sobre vizinho mexicano, o líder republicano tem reiteradamente se oferecido para agir contra cartéis, uma intervenção que Sheinbaum classifica como “desnecessária”. O tema é sensível para ela, que busca manter equilíbrio com o governo Trump — preservando a relação bilateral para evitar ameaças de intervenção contra cartéis e possíveis tarifas comerciais, ao mesmo tempo em que enfatiza a soberania mexicana.

No ano passado, Sheinbaum afirmou que os Estados Unidos realizaram voos de vigilância com drones a pedido do México, após declarações públicas contraditórias sobre o tema. Outra controvérsia recente ocorreu em janeiro, com a detenção do ex-atleta canadense Ryan Wedding, um dos fugitivos mais procurados pelos EUA sob acusação de narcotráfico. Autoridades mexicanas disseram que ele se entregou na embaixada americana, enquanto autoridades dos EUA afirmaram que a captura foi resultado de uma operação binacional.

Em ligação com Trump: Presidente do México rejeita a presença de tropas americanas em seu país

Em setembro, uma investigação da Reuters concluiu que a CIA vinha conduzindo operações encobertas no México há anos para rastrear os traficantes mais procurados do país. A apuração também constatou que a agência trabalhava de perto com unidades especiais de caça ao narcotráfico dentro das Forças Armadas mexicanas. Com a aprovação do governo, a CIA forneceu a unidades selecionadas do México treinamento, equipamentos e apoio financeiro para operações, incluindo viagens.

Pelo menos duas unidades militares avaliadas pela CIA estão atualmente ativas, incluindo o grupo do Exército mexicano que capturou Ovidio Guzmán-López — filho do narcotraficante Joaquín “El Chapo” Guzmán e um dos líderes do Cartel de Sinaloa — e uma unidade especializada de inteligência da Marinha mexicana, informou a Reuters.

— Há um aumento de operações ocultas dos Estados Unidos no México sob Trump — disse à Associated Press o analista de segurança David Saucedo. — Elas são ocultas porque o governo mexicano sustenta o discurso de que não pode permitir a presença de agentes americanos armados, o que seria uma violação da soberania. O governo mexicano sempre tentou esconder essa colaboração.