Morte de jovem de 23 anos durante treino subaquático é investigada na Argentina e gera debate na comunidade de mergulho recreativo

 

Fonte:


A investigação judicial sobre a morte de Sofía Devries, a jovem de 23 anos que morreu durante um exercício de mergulho em Puerto Madryn, na Patagônia argentina, está em andamento, com a análise de depoimentos de participantes do mergulho, bem como o estudo de manuais técnicos e normas de segurança que regem a atividade. O caso teve grande repercussão na Argentina e gerou um debate na comunidade de mergulho recreativo sobre as condições em que os treinamentos são realizados e a conduta dos instrutores em situações críticas subaquáticas.

Na Austrália: Turista canadense encontrada morta em praia se afogou após ser atacada por dingo

GPS e laser: O que são as bombas gravitacionais de precisão que os EUA dizem poder usar contra o Irã

O corpo da jovem foi encontrado na quarta-feira, 18 de fevereiro, por autoridades locais, nas águas do Golfo Novo, próximo à costa de Punta Cuevas, após 48 horas de buscas. Fontes judiciais indicam que o grupo que Sofía integrava no momento da tragédia havia concluído o curso "Open Water Diver" no dia anterior, uma certificação básica que permite aos mergulhadores descerem a uma profundidade de 18 metros. No dia seguinte, Sofía decidiu fazer, juntamente com outros membros do grupo, um segundo curso. Nele, eles conseguiriam chegar a 30 metros.

As buscas pelo corpo da jovem duraram 48 horas

Maxi Jonas via La Nación

O que aconteceu no momento da tragédia?

Os depoimentos coletados após a morte da jovem começaram a reconstruir a sequência do mergulho. Segundo as declarações iniciais, o grupo era composto por quatro pessoas que desciam acompanhadas por instrutores. Um dos participantes — que se acredita ser o parceiro da jovem — teve dificuldade em descer devido a problemas para equalizar a pressão nos ouvidos, uma manobra de rotina realizada por mergulhadores durante a descida.

— Ele estava com dificuldade para descer porque estava com dificuldade para equalizar. É uma manobra que é feita a cada poucos metros, e ele estava achando difícil — afirmaram os investigadores.

Naquele momento, Sofía já estava em uma profundidade maior com um instrutor da escola Freediving Patagonia identificado como Alejandro Andrés, que agora é o foco de parte da análise jurídica. Entretanto isso, os outros membros do grupo também começaram a subir.

Nesse momento, o instrutor de Sofía sinalizou que estava com um problema no colete equilibrador e precisava subir à superfície. Quando ele começou a subir, a jovem permaneceu no fundo. Segundo depoimentos colhidos pela Procuradoria, ela entrou em pânico.

Saiba mais: Ao exigir rendição incondicional, Trump quer transferir responsabilidade pelo fim da guerra ao Irã, dizem analistas

— Ela começou a se desesperar, teve uma crise e removeu o regulador para tentar respirar — explicaram fontes próximas ao caso.

O instrutor tentou ajudá-la. Primeiro, ofereceu-lhe o próprio regulador e, em seguida, tentou inflar o colete equilibrador (BCD) dela para que ambos pudessem subir à superfície. No entanto, durante a manobra, a jovem teria soltado o colete. Com o próprio BCD inflado, o parceiro subiu e ficou impossibilitado de descer para ajudá-la.

A suposta responsabilidade do instrutor e o debate na comunidade de mergulho recreativo

Um dos pontos centrais da investigação é determinar se o instrutor agiu de acordo com os protocolos de segurança estabelecidos para esse tipo de prática. A discussão técnica gira em torno de saber se, ao detectar um problema com seu próprio equipamento, ele deveria ter ordenado que todo o grupo subisse junto com ele, em vez de subir sozinho à superfície.

— O que se investiga é se, ao ter esse problema, ele deveria ter dito ‘subimos todos’ e não deixá-la lá embaixo. Essa é a discussão técnica — indicaram fontes judiciais.

Para avançar nessa avaliação, o Ministério Público solicitou os manuais oficiais da Associação Profissional de Instrutores de Mergulho (PADI) e também as normas vigentes da Prefeitura Naval relacionadas a atividades de mergulho.

'Somos nós que estamos pagando o preço da guerra': civis relatam medo, fuga às pressas e vidas interrompidas no Oriente Médio

Os investigadores buscam determinar se existe uma regra explícita que obrigue o instrutor a não abandonar os mergulhadores durante uma imersão, ou se a situação poderia ser considerada parte dos riscos próprios de uma atividade classificada como esporte radical.

— Todos opinam que ele não deveria tê-la deixado sozinha, mas o que está sendo analisado é se essa obrigação está escrita em alguma norma e se, mesmo estando lá embaixo, o desfecho poderia ter sido evitado — explicaram os investigadores.

Enquanto isso, o caso continua na fase de coleta de provas e análise técnica para estabelecer se houve responsabilidades penais ou administrativas pela morte da jovem.

O depoimento do dono da agência de mergulho

Em meio à comoção gerada pelo caso, o responsável pela escola de mergulho Freediving Patagonia, Alejandro Andrés, decidiu se pronunciar publicamente pela primeira vez e publicou uma mensagem nas redes sociais expressando o impacto pessoal que a tragédia lhe causou.

“O que aconteceu será algo que, pessoalmente, vai me atormentar pelo resto dos meus dias”, afirmou o instrutor, explicando que permaneceu incomunicável por vários dias porque seus dispositivos ficaram sob custódia judicial no âmbito da investigação.

Andrés afirmou que não dará detalhes sobre o ocorrido durante a imersão. “Não vou falar sobre o que aconteceu nem julgar ninguém; disso se encarregará o juiz do caso”, disse.

Veja: Megatúnel de 17 quilômetros e R$ 45 bilhões de investimento vai ligar Alemanha e Dinamarca

O empresário também descreveu o impacto emocional que o episódio lhe causou. “Tenho constantemente imagens do que aconteceu, dos minutos que se passaram, do que todos nós que estávamos no local vivemos, que me perseguirão para sempre”.

Além disso, afirmou que nunca havia passado por uma situação semelhante em sua carreira dentro de um esporte que ele reconhece como de risco. “Nunca me aconteceu algo assim. Vou tentar reencontrar a alegria de fazer isso e vamos continuar ensinando, mostrando às pessoas o quão bonito é o trabalho na água”, expressou.

Apesar da repercussão nacional que o caso teve, ele confirmou que continuará com a atividade. “Tenho minha filha e tenho este negócio que levei 15 anos para construir. Tomei a decisão de abrir as portas e recomeçar”, indicou.

Por fim, adiantou que a empresa realizará uma revisão interna de seus procedimentos após o ocorrido. Enquanto isso, a investigação penal continua, e será a Justiça que determinará com precisão o que aconteceu durante a imersão no Golfo Novo e se existiram responsabilidades em uma tragédia que voltou a colocar o foco na segurança do mergulho recreativo na região.