Vídeos sobre aplicações de testosterona, rotinas hormonais e “protocolos” para ganhar massa muscular rapidamente deixaram de circular apenas em fóruns escondidos da internet ou conversas reservadas de academia. Nos últimos anos, esse tipo de conteúdo ganhou as redes sociais, impulsionado pela explosão do universo fitness on-line e pela transformação do corpo em ativo digital. A morte do influenciador e fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, há uma semana, voltou a lançar luz sobre esse ambiente em que substâncias controladas são discutidas com naturalidade crescente diante de milhões de pessoas, especialmente homens jovens, e que ajuda a manter a engrenagem de um perigoso mercado clandestino.
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O gerente de operações Rafael Schiavon, praticante de musculação há cerca de 15 anos, aprendeu sobre hormônios pela internet, após decidir iniciar o uso de anabolizantes, em 2023. O primeiro contato com informações sobre “ciclos hormonais” veio das redes sociais e de vídeos de influenciadores.
O fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, morto em decorrência de cardiomiopatia hipertrófica
Reprodução: Instagram
— Então, como fazer, o que usar… Foi com vídeos no YouTube que eu aprendi. A informação está muito disseminada — contou, pontuando que, apesar de não serem regularizados, os anabolizantes eram fáceis de conseguir.
O relato ajuda a explicar a mudança no universo fitness digital. Hoje, basta consumir conteúdo de musculação por alguns dias para começar a receber vídeos sobre testosterona, “ciclos”, definição muscular extrema e protocolos hormonais.
O fenômeno acompanha a ascensão do próprio fisiculturismo nas plataformas. O esporte, que durante décadas ocupou espaço relativamente restrito, aproximou-se da cultura pop da internet e ganhou alcance entre jovens interessados em estética e performance. Esse crescimento abriu espaço para a expansão de um mercado ilegal de hormônios, abastecido por vendas em aplicativos de mensagens, laboratórios irregulares e produtos sem controle sanitário.
O personal trainer Tiago Bezerra, proprietário da Body Fit Academia, afirma que a popularização do esporte criou um padrão inalcançável para pessoas comuns:
— As pessoas tentam se comparar com atletas que têm patrocínio e médicos acompanhando. E mesmo esses atletas estão morrendo.
Do sigilo ao podcast
Se durante muitos anos havia sigilo e constrangimento em admitir o uso de esteroides anabolizantes, o cenário mudou. O assunto passou a aparecer em cortes de podcast, vídeos curtos, transmissões ao vivo e memes compartilhados diariamente nas redes. Termos antes restritos ao meio bodybuilding passaram a integrar a linguagem de jovens frequentadores de academia: “ciclo”, “blast”, “cruise”, “shape”, “cutting”, “bulking” e “TRT”.
— Antes havia preconceito; o pessoal escondia o que usava. Agora, as pessoas fazem questão de dizer que estão usando e mostram só o lado positivo das coisas — afirma Bezerra, pontuando que dificilmente os efeitos colaterais da “hormonização” são mencionados.
Em plataformas como YouTube, TikTok, Instagram e Reddit, influenciadores discutem testosterona, hormônio do crescimento e combinações de drogas com naturalidade semelhante à usada para falar de suplementação alimentar. Debates que somam milhões de visualizações revelam um modus operandi que envolve o uso de hormônios e medicamentos variados para controlar os efeitos colaterais das substâncias. Renato Cariani, um dos influenciadores fitness mais conhecidos do país, participou de uma dessas discussões, em que hormônios para cavalo e experimentação de anabolizantes são tratados como rotina.
Ao GLOBO, Cariani justificou que seu papel, como profissional de saúde, não é esconder a informação, mas compartilhar os efeitos e os riscos dos medicamentos. Formado em Química e Educação Física, ele reconhece que, no debate — principalmente entre os mais jovens —, a saúde fica em segundo plano.
— Os jovens querem usar, acima de tudo, para acelerar um processo que leva tempo, que é a construção de massa muscular. Infelizmente, eles não estão preocupados com a saúde. O meu papel como profissional não é esconder essa informação; pelo contrário, é falar, alertar e explicar.
Ele concorda, no entanto, que há uma “glorificação” do uso de anabolizantes, principalmente entre atletas do fisiculturismo.
— Sou influenciador fitness, não de fisiculturismo. E sei que, em todos os esportes, existem atletas usando doping. Mas o único esporte em que o atleta acha legal divulgar, falar, ter patrocínio e explanar é o fisiculturismo — afirma.
A fala do também influenciador Felipe Alves, com 7 milhões de seguidores no Instagram, reforça essa percepção: “A substância vira meme. É brincadeirinha, é piada. É falado de uma forma engraçadinha, ‘protocolozinho’”, disse em vídeo no qual comenta a morte de Gabriel Ganley. O atestado de óbito do jovem atleta, encontrado morto em seu apartamento, aponta cardiomiopatia hipertrófica, condição genética potencializada pelo uso de anabolizantes.
Mercado paralelo
Entre os produtos mais citados por jovens ouvidos pelo GLOBO, uma marca se repete em vídeos e legendas nas redes sociais: a paraguaia Landerlan, que se tornou sinônimo de ciclos hormonais no Brasil. Seu catálogo extenso, que vai de diferentes versões de testosterona — como enantato, cipionato e durateston — a outros esteroides anabolizantes, é descrito com familiaridade por jovens que querem “crescer” mais rápido.
Boa parte desses produtos não deveria circular livremente no país, já que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) restringe a comercialização e a importação de itens da marca no Brasil. Na prática, porém, a fronteira com o Paraguai e a proliferação de grupos em aplicativos de mensagens transformam a aquisição desses produtos em algo trivial.
A Landerlan também opera por meio de farmácias de manipulação legalizadas em território nacional, o que cria uma zona cinzenta: parte dos compostos tem respaldo legal quando prescrita por médicos para indicações específicas; outra parte circula à margem da lei. Para os usuários que exibem seus “protocolos” nas redes, essa distinção raramente é mencionada.
De acordo com o personal trainer Tiago Bezerra, devido às restrições dos órgãos reguladores e ao custo dos produtos importados, grande parte desses anabolizantes é fabricada em laboratórios clandestinos, sem o devido controle.
CFM proíbe uso estético
Em abril de 2023, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou uma resolução que proíbe a prescrição de esteroides anabolizantes com finalidade estética, para ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo. A norma vale tanto para atletas amadores quanto profissionais. A justificativa é a ausência de estudos clínicos de boa qualidade metodológica que comprovem que os benefícios superam os riscos, considerados graves.
A lista de efeitos adversos documentados pelo CFM inclui hipertrofia cardíaca, hipertensão arterial, infarto agudo do miocárdio, hepatite medicamentosa, insuficiência hepática aguda, depressão, dependência química e outras condições.
O conselho admite a prescrição de hormônios apenas em casos específicos e clinicamente comprovados, como hipogonadismo, puberdade tardia e terapia hormonal cruzada em pessoas transgênero. Qualquer outra indicação — incluindo a difundida “otimização hormonal” para homens saudáveis que desejam ganhar massa muscular — é vedada.
É nesse cenário que prosperam os “coaches” sem formação médica, cujos métodos passaram a ser debatidos após a morte de Ganley. Eles montam ciclos hormonais completos para clientes sem respaldo legal ou científico.
