Morte de Claudinho, morador de rua de Santa Teresa, comove moradores e amigos como Chico Chico: 'Me deu calça, tênis'

 

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Uma figura boêmia, querida por muitos moradores de Santa Teresa: é assim que amigos definem Claudinho, pessoa em situação de rua que fazia parte do cotidiano do bairro e morreu no último sábado (24). Conhecido por circular pelas rodas nas ruas, conversar com moradores e chamar as crianças pelo nome, ele foi homenageado nas redes sociais pelo cantor Chico Chico, que conviveu com Claudinho desde a infância.

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— Sempre estudei e vivi em Santa Teresa, então ele fazia parte da paisagem do bairro. A história dele sempre foi muito marcante pra mim, porque vinha de uma família que tinha condições, mas, por problemas pessoais, acabou entrando em situação de rua. Isso foi muito cruel — lamenta o músico.

Chico Chico lembra que Claudinho era conhecido pela generosidade e pelas trocas afetivas que mantinha com quem convivia no bairro, apesar da rispidez em alguns momentos, o que o cantor atribui à vida difícil que levava.

— Pra você ter uma ideia, ele já me deu calça, já me deu tênis — recorda, entre risadas.

Claudinho, figura boêmia conhecida em Santa Teresa

Reprodução/@juliaqueiroz.fotografia

Segundo o cantor, o acolhimento vinha também da própria comunidade. Moradores e comerciantes costumavam oferecer comida, roupas e cuidados básicos a Claudinho, criando uma rede informal de apoio. A relação dele com as crianças produzia cenas marcantes no dia a dia em Santa Teresa.

— Ele tinha uma relação muito bonita com elas: chamava pelo nome, parava o trânsito para elas atravessarem a rua. Era realmente algo especial de ver — compartilha.

A notícia da morte gerou comoção entre amigos e frequentadores do bairro, que passaram a relembrar histórias e momentos vividos com Claudinho. Para muitos, ele era mais do que uma presença constante nas ruas: fazia parte da identidade afetiva de Santa Teresa.

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“Claudinho era um amigão. Estava sendo atendida no posto, fragilizada, ferida, ele volta com uma marmita da Nega Tereza (restaurante do bairro) para eu poder almoçar… nunca na vida vou esquecer tamanho gesto de generosidade. Bom retorno ao Orun, meu amigo!”, escreveu uma seguidora na publicação feita por Chico Chico.

Outros depoimentos destacam o cuidado cotidiano e a sensação de proteção que ele oferecia a quem circulava pelo bairro, especialmente à noite.

“Descanse em paz, Claudinho! Obrigada por todas as vezes que me levou até a porta de casa para fazer minha segurança de madrugada, na época em que eu trabalhava divulgando eventos no Rio”, comentou outra usuária.

A relação afetuosa com as crianças e o jeito bem-humorado também apareceram nas homenagens.

“Descanse em paz, Claudinho eterno botafoguense. Sempre generoso, parando o trânsito para eu atravessar com as crianças. E sempre com uma frase que arrancava um sorriso: ‘Tá na hora! Cadê meus sobrinhos?’, ‘Fulano sabe que você está andando por aqui?’”, relembrou uma moradora. “São várias histórias. Com certeza você está no paraíso, não merecia menos que isso”, completou.

De acordo com relatos num grupo de WhatsApp de moradores do bairro, a morte de Claudinho foi informada à família pela assistência social do Instituto Nacional de Infectologia (INI) da Fiocruz. O quadro de saúde dele era delicado, com quadro de desnutrição aguda, tuberculose e uma sepse causada por pneumonia que levou à falência dos rins.

Ainda de acordo com o relato, foi preciso providenciar os documentos necessários para a emissão do atestado de óbito, evitando assim que Claudinho fosse enterrado como indigente. O sepultamento deve ocorrer no Cemitério do Caju, e um grupo de moradores está se cotizando para enviar uma coroa de flores.

— A equipe de assistência social do INI Evandro Chagas da Fiocruz conseguiu uma nova identidade para o Claudinho. Ficou pronta hoje e amanhã irei com o tio dele até lá para a assinatura da declaração de óbito — diz a jornalista Sandra Kakoudai, moradora de Santa Teresa e que conheceu bem o boêmio. — Como acompanho a pauta das pessoas em situação de rua, acabei acolhendo e dando um suporte a ele, junto com outros moradores, quando vimos que a situação de sua saúde estava muito crítica.

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