Morte de Ali Khamenei não deve mudar rumo do regime iraniano, avalia professor da Unifesp
A confirmação da morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, marca um dos episódios mais graves da escalada militar no Oriente Médio. Para João Amorim, professor de Direito Internacional da Unifesp, o impacto simbólico é enorme, mas os efeitos práticos sobre o regime iraniano e sobre o conflito tendem a ser limitados no curto prazo.
Em entrevista ao Show da Notícia, Amorim afirmou que, caso a morte seja confirmada — já que há uma “guerra de versões” em curso —, o vácuo de poder não deve significar o colapso do regime nem uma guinada automática na política externa do país.
“O Irã tem uma estrutura governamental extremamente complexa. Não é um sistema personalista em que a queda do líder derruba o regime inteiro”, explicou.
Segundo ele, o líder supremo ocupa o topo de uma engrenagem que inclui o Conselho de Guardiães, a Assembleia de Peritos, o presidente da República e a Guarda Revolucionária. Hoje, o chefe do Executivo é Massoud Pezeshkian. A sucessão, portanto, tende a ocorrer dentro do próprio sistema.
Relembre a trajetória de Ali Khamenei, líder supremo do Irã por mais de três décadas
Sucessão já estaria encaminhada
Amorim lembra que, após ataques anteriores às instalações nucleares iranianas, Khamenei teria organizado um plano de sucessão com nomes previamente aprovados pelo Conselho de Peritos. Entre as especulações estão Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo, e Hassan Khomeini, neto de Ruhollah Khomeini.
Mesmo que um nome considerado mais moderado seja escolhido, o professor avalia que isso não significaria alinhamento automático com o Ocidente.
“O descontentamento de parte da população iraniana com o regime não significa que exista apoio a uma intervenção americana. O Irã tem uma identidade histórica e cultural muito forte e tende a rejeitar interferências externas”, afirmou.
Escalada militar e risco de ampliação do conflito
Para o especialista, o ataque dos Estados Unidos já era considerado iminente, diante da movimentação militar recente na região. Ele aponta que o conflito pode ultrapassar ataques pontuais e ganhar dimensões mais amplas, sobretudo porque o Irã dispõe de capacidade bélica própria, incluindo mísseis de longo alcance.
Amorim alerta que os contra-ataques iranianos a Israel e a países que firmaram os Acordos de Abraão ampliam o risco de regionalização da guerra.
“Estamos diante de um barril de pólvora. Não sabemos se será uma escalada de dias ou um conflito mais longo, com consequências políticas e econômicas globais”, disse.
Questionado sobre os efeitos da morte de Khamenei para Estados Unidos e Israel, o professor pondera que tudo dependerá do perfil do sucessor. Um líder mais moderado poderia reduzir a virulência do discurso e abrir espaço para distensão diplomática. Por outro lado, uma liderança mais dura poderia agravar o confronto.
Para o professor, o impasse central segue sendo econômico. O Irã exige o alívio das sanções que pesam sobre sua economia há décadas, intensificadas desde que foi incluído no chamado “eixo do mal”, no início dos anos 2000.
“Enquanto houver essa política de isolamento e sufocamento econômico, as tensões dificilmente serão desescaladas”, afirmou.
