Gloria Steinem, escritora, editora e ativista que se tornou um dos principais nomes do feminismo nos Estados Unidos, morreu nesta quinta-feira, aos 92 anos. Ao longo de décadas de atuação, participou de movimentos pelos direitos civis, protestou contra guerras e se dedicou à defesa dos direitos das mulheres, incluindo o combate à violência doméstica e ao feminicídio. Vídeo: Moradores levantam carro para resgatar ciclista presa após atropelamento nos EUA Entenda: Doador de esperma admite ter 199 filhos e revela que mentia para famílias sobre número de doações Nascida em Ohio e radicada posteriormente em Nova York, Gloria Steinem construiu uma trajetória marcada pela atuação política e pelo jornalismo. Em 1963, esteve na Marcha sobre Washington, onde testemunhou o mais célebre discurso de Martin Luther King. Também protestou contra a Guerra do Vietnã, nos anos 1960, e participou de manifestações contra a Guerra do Golfo, na década de 1990. A escritora Gloria Steinem em 1980, em Nova York Mary Ellen Mark/Divulgação Feminismo e direitos civis Em 2017, aos 83 anos, Gloria afirmou que nenhuma das mobilizações que havia acompanhado ao longo da vida se comparava aos protestos que ocorriam nos Estados Unidos contra o presidente Donald Trump. — Nunca, nunca, nunca na minha vida vi tanto ativismo. Mil vezes mais do que durante a Guerra do Vietnã, do que na luta pelos direitos civis. Hoje a mobilização é enorme — afirmou. Naquele momento, Gloria também criticava o sistema eleitoral americano após a vitória de Trump sobre a democrata Hillary Clinton. Para ela, o resultado permitia que uma parcela minoritária da população tivesse influência desproporcional sobre o país. — A maior parte do país não acredita que uma pessoa seja superior a outra, mas um terço acredita. Estamos representados por esse pedaço do país, graças a um sistema em que um estado tem muito mais poder do que o outro — disse. Sobre o cenário político da época, acrescentou: — Agora, os EUA estão numa situação muito perigosa. Mas não sei se o perigo deveria acabar com a esperança. Não conseguiremos derrotar o colégio eleitoral, mas talvez consigamos tirar o presidente. Gloria também considerava que a eleição de Trump havia exposto de maneira mais evidente o racismo nos Estados Unidos.
Ela relatou que, antes daquele momento, muitas pessoas não acreditavam quando ela falava sobre a existência de grupos radicais de direita em diferentes estados, que defendiam a chamada “nação branca”. Depois de protestos e contraprotestos protagonizados por grupos extremistas na Virgínia, afirmou: — Agora, elas acreditam. A ativista também classificava Trump como perigoso e criticava seu comportamento. — Não preciso te explicar o quão perigoso é o presidente, como indivíduo, ser não só um racista, uma pessoa que semeia a discórdia, um homem de negócios que já seria rico se apenas investisse o dinheiro que herdou, mas também um narcisista que claramente não tolera críticas. A luta contra a violência contra as mulheres A atuação de Gloria Steinem pelos direitos das mulheres esteve ligada à sua percepção sobre o racismo e outras formas de desigualdade.
Em seu livro “Minha vida na estrada”, publicado originalmente nos Estados Unidos em 2015 e lançado no Brasil pela Bertrand Brasil, ela relatou como a Marcha sobre Washington, em 1963, ajudou a ampliar sua percepção sobre a relação entre raça, gênero e controle sobre o corpo feminino. "Os paralelos entre raça e casta — e como o corpo das mulheres era usado para perpetuar as duas coisas. Prisões diferentes, a mesma chave", escreveu. Naquele momento, a autora passou a viajar pelos Estados Unidos fazendo discursos em defesa dos direitos civis, especialmente dos direitos das mulheres. Em 1972, fundou a revista feminista “Ms.”, da qual foi editora durante 15 anos. Para Gloria, o combate à violência doméstica e ao feminicídio era uma das principais causas do feminismo. Ela comparava o número de mulheres assassinadas por companheiros ao de americanos mortos nos ataques de 11 de Setembro de 2001 e nas guerras do Iraque e do Afeganistão. — Estatisticamente, desde o 11 de Setembro (de 2001), mais mulheres foram assassinadas por seus maridos e namorados do que americanos morreram nos ataques às torres e em duas guerras no Iraque e no Afeganistão, então obviamente a violência doméstica é uma prioridade alta — afirmou. Ela também chamava atenção para a dimensão mundial da violência contra as mulheres. — Sabemos que a violência doméstica está no mundo todo, as Nações Unidas podem nos dizer isso, da violência do feminicídio à violência sexual, e pela primeira vez há menos mulheres do que homens no mundo.
O Globo