Morre aos 81 anos o cientista político José Álvaro Moisés

 

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Morreu nesta sexta-feira o cientista político José Álvaro Moisés, professor titular aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e um dos maiores expoentes no Brasil dos estudos sobre qualidade da democracia. Aos 81 anos, o professor se afogou na praia de Itamambuca, em Ubatuba (SP).

José Álvaro era professor sênior no Instituto de Estudos Avançados da USP e foi professor titular do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da mesma universidade.

Referência na pesquisa e no ensino da Ciência Política, o professor foi um dos intelectuais que participaram da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), do qual se distanciou nas últimas décadas. Foi também entusiasta da social-democracia e do PSDB, partido do qual também marcou distância nos últimos anos. Amigo íntimo e pupilo do ex-ministro da Cultura e cientista político Francisco Weffort, morto em 2021, José Álvaro Moisés foi secretário de Apoio à Cultura (1995-1998) e de Audiovisual (1999-2002) do Ministério da Cultura na gestão de Weffort, no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Moisés é lembrado por colegas, amigos e familiares como brilhante, generoso e pluralista. Dedicado à divulgação da ciência política, o professor era colaborador frequente da imprensa, tendo escrito artigos e dado numerosas entrevistas nas quais analisava as conjunturas e crises políticas no Brasil desde a redemocratização.

Em nota, o chefe do Departamento de Ciência Política da USP, Rafael Duarte Villa, lamentou a morte do professor e afirmou que sua partida "deixa um vácuo pessoal, intelectual e institucional difícil de preencher".

"É com imensa tristeza que recebemos a notícia do falecimento do professor José Álvaro Moisés, que tão enorme legado deixa ao Departamento de Ciência Política da USP, à FFLCH, e à ciência política brasileira em geral".

Duarte Villa ressalta a atividade intelectual engajada de Moisés "e suas reflexões sobre o futuro da democracia brasileira, direitos humanos e cultura política, áreas nas quais dirigia fóruns como o de Formulação dos Direitos e o Fórum da Democracia".

"Ele foi fundamental na organização do DCP-USP nos anos oitenta, da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e da International Political Science Association. (IPSA)".

A nota ressalta que o professor "era um incansável construtor de instituições". Fundou o Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP e coordenava o grupo de pesquisa da Qualidade da Democracia do Instituto de Estudos Avançados da USP.

"Um dos fundadores dos Estudos da Cultura Política no país, o Moisés era um apaixonado da democracia brasileira à qual dedicou todas suas reflexões e esforço intelectual nas últimas três décadas legando obras como 'Crises da Democracia: o Papel do Congresso, dos deputados e dos partidos', 'Bulding democracies. Challenges, crises and response to rule of law, Access to justice and political representation'; 'A desconfiança política e os seus Impactos na qualidade da democracia'; 'Democracia e desconfiança. Por que os cidadãos desconfiam das Instituições públicas'".

Amiga de Moisés e ex-presidente da International Political Science Association, a pesquisadora Lourdes Sola afirmou ao GLOBO que o professor preparava um livro em homenagem a Weffort, com lançamento previsto para este ano.

— É uma perda enorme, nossa relação era de irmãos. Conheci Moisés em 1968, quando ele era aluno e eu uma jovem professora na FFLCH. A faculdade foi invadida pelos militares e nos conhecemos nos protestos contra a repressão. Desde então, fomos amigos e trabalhamos juntos muitas vezes. Moisés sempre foi um ícone da integridade, da ética e do pluralismo na ciência política, sempre abraçou o pluralismo e aceitou a diversidade de interpretações, nunca se erigiu como cânone — ressalta Lourdes Sola.

Ex-aluno de Moisés e diretor-geral da Fundação Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Fausto também destacou o legado do professor.

— Acho importante destacar, em especial, o fato de que ele, junto com Weffort, esteve entre os intelectuais de esquerda, originalmente ligados ao PT, que mais contribuíram para dar valor à democracia como uma conquista civilizatória — afirmou.

Moisés formou-se em Ciências Sociais pela USP em 1970, e já em sua graduação participou de atos de protesto e resistência à ditadura militar. Após se formar, foi pesquisador do Cebrap, centro de referência nas ciências sociais do Brasil, onde foi assistente de Weffort nima pesquisa sobre sindicalismo e populismo no Brasil. Os estudos realizados deram origem à sua dissertação de mestrado em Política e Governo na Universidade de Essex, no Reino Unido, em 1972.

Em 1974, Moisés ingressou como professor na USP e, em 1978, concluiu seu doutorado em Ciência Política, sob orientação de Weffort.

Ao longo de sua carreira como docente, José Álvaro Moisés foi ainda professor visitante da prestigiada Universidade de Oxford, no Reino Unido, entre 1991 e 1992.

Além de docente, o cientista político foi também jornalista nos anos 1960 e 1970. Foi repórter especial editor e redator no jornal Folha de S.Paulo em duas passagens, entre 1966 e 1971 e entre 1974 e 1975.