“Moro foi humilhado pelo bolsonarismo e se dobrou a eles”, diz Joice Hasselmann

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – Autora de uma das biografias mais vendidas sobre Sergio Moro durante o auge da Operação Lava Jato, a jornalista e ex-deputada federal Joice Hasselmann avaliou com dureza a trajetória política do ex-ministro da Justiça e governador eleito do Paraná. Para Joice, o magistrado que já personificou as esperanças do combate à corrupção no país sucumbiu à lógica da conveniência e aceitou a humilhação pública imposta pelo clã Bolsonaro em troca de cargos e proteção contra a perda de mandato.

A ex-líder do governo relembrou os episódios que culminaram na demissão ruidosa de Moro em 2020 e confrontou a postura combativa do passado com a reconciliação operada pelo senador nos anos seguintes, definindo o movimento como um dos casos mais evidentes de desidratação moral da recente política brasileira.

Do pedestal de herói à desilusão nos bastidores Joice recordou o momento em que escreveu o livro que ajudou a transformar o então juiz de Curitiba em símbolo nacional.

Ela relata que a crença sincera na integridade do magistrado foi abalada conforme os bastidores do poder revelaram as limitações e contradições do projeto lavajatista. “Quando escrevi a biografia dele, para mim o Moro era um herói.

A editora me procurou dizendo que precisava de uma mulher corajosa escrevendo sobre um homem corajoso. Fiz o livro em 28 dias, virou um sucesso nacional.

Eu não sabia o que estava por trás de tudo aquilo. Hoje tenho outra visão sobre os métodos da época, mas vê-lo se rebaixar ao bolsonarismo foi algo muito pior.”

A ex-deputada ressaltou que a decepção com a atuação jurídica de Moro foi superada pelo impacto de sua transformação em peça descartável do tabuleiro palaciano. A expulsão do governo e o cerco das investigações

A saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça, em abril de 2020, foi marcada por acusações explícitas de interferência indevida de Jair Bolsonaro na cúpula da Polícia Federal para blindar aliados e familiares — em especial investigações que miravam os negócios e movimentações financeiras de Flávio Bolsonaro.

“O Moro saiu humilhado do governo, totalmente humilhado e escurraçado. O Jair foi muito claro naquele episódio: se não dava para trocar o delegado, trocava o superintendente; se não dava para trocar o superintendente, trocava o ministro.

Ele tentou resistir por alguns dias, denunciou a interferência, entregou conversas de celular e saiu como o inimigo número um do Planalto.” Segundo Joice, a resposta da militância bolsonarista à época seguiu a cartilha padrão:

Destruição Imediata da Imagem: De superministro intocável, Moro passou a ser rotulado de traidor e comunista pelas redes coordenadas do governo em questão de horas. Exposição Pública: Ataques orquestrados atingiram a reputação profissional do ex-juiz e visaram isolá-lo de qualquer interlocução no meio jurídico e empresarial.

Humilhação Aberta: A cúpula governista zombou reiteradamente de sua saída, transformando a demissão em um recado explícito de subordinação funcional. O preço do recuo: mandato em troca de silêncio

O ponto mais crítico da análise de Hasselmann foca a reaproximação de Moro com o bolsonarismo a partir das eleições seguintes, quando o ex-juiz voltou a subir nos palanques da família e a posar ao lado de figuras que antes apontava como entraves ao combate aos desvios de recursos públicos.

“O Moro saiu comigo denunciando a corrupção, dizendo que o presidente mandou parar de investigar. E de repente estava abraçado novamente com o clã.

Por quê? Porque o preço do Moro foi um mandato. Ele teve medo de ser preso, teve medo de ficar sem foro e sem relevância.

O preço dele foi uma cadeira no Senado e a promessa de apoio eleitoral.” Para a ex-parlamentar, a submissão voluntária de um homem que deteve tamanho prestígio público reflete a força destrutiva da cooptação política quando associada ao receio de retaliação:

“Quando vejo que ele se humilhou a esse ponto, eu não sinto nem raiva, tenho pena. Ele se dobrou para sobreviver.

Foi jogado na lama, xingado de tudo quanto é nome e depois voltou rastejando para pedir voto de quem o chamou de traidor. Essa é a capitulação mais triste da política recente.”

O padrão da subserviência Joice conclui que o caso de Sergio Moro serve de lição definitiva sobre a dinâmica interna do grupo: ninguém constrói um caminho autônomo ao lado dos Bolsonaro sem aceitar a tutela irrestrita e o esquecimento de qualquer princípio pregado no passado.

“O bolsonarismo exige a espinha curvada. Se você tem orgulho, dignidade ou coerência, você é destruído.

Se você não aguenta a pressão e quer uma boquinha, você abaixa a cabeça, finge que nunca ouviu nada, esquece a Lava Jato e posa para a foto. Foi isso o que o Moro escolheu fazer.”

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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