Vias fechadas por causa do show do BTS Rodrigo Rodrigues/g1
Moradores do entorno do estádio do Morumbi, na Zona Sul de São Paulo, questionam as restrições de acesso às próprias residências durante a realização dos quatro shows do grupo sul-coreano BTS, a partir desta sexta-feira (30). As medidas foram estabelecidas pela produtora Live Nation em acordo com a Prefeitura de São Paulo.
Segundo os moradores, a Live Nation exige um cadastro prévio para autorizar a entrada e a saída das residências durante os eventos. O procedimento inclui o fornecimento de dados pessoais e informações sobre os imóveis.
Ao menos 12 pontos de controle de acesso foram instalados nas imediações do estádio (veja os locais abaixo). Para atravessar os bloqueios, tanto a pé quanto de carro, os moradores precisam realizar um cadastro no site da produtora e obter um QR Code e, no caso dos veículos, um adesivo de identificação.
O cadastro disponibilizado pela Live Nation solicita nome completo, CPF, número do IPTU e comprovante de residência. Segundo as regras publicadas no site, o acesso é limitado a seis pessoas por imóvel, com direito a duas entradas ou saídas por pessoa a cada dia.
Além do QR Code, os moradores devem apresentar um documento de identificação com foto para atravessar os bloqueios. As restrições estão previstas para durar 72 horas, até a madrugada de segunda-feira (2).
“É um absurdo essa restrição do nosso direito de ir e vir. Antes, a gente só apresentava um comprovante de endereço que a CET nos deixava passar.
Não consegui retirar o adesivo no local que eles indicavam para ir buscar, porque batemos lá fora do horário e ninguém nos atendeu. Sem contar o absurdo que é limitar as pessoas a acessar suas casas apenas duas vezes por dia.
Quem é que vai fazer o supermercado na minha casa, resolver os problemas com as crianças? Surreal tudo isso”, reclama a produtora cultural Thais Aguiar, que mora há mais de dez anos no local. Exigência de Live Nation para efetuação de cadastro dos moradores no entorno do estádio do Morumbi.
Reprodução/Live Nation O administrador Pedro Chaim, que mora na região desde 1994, afirma que tentou realizar o cadastro, mas não conseguiu porque o site da Live Nation não reconheceu o número do IPTU de seu apartamento.
Ele questiona a burocracia para entrar e sair de casa, as restrições à circulação dos moradores pelo bairro e a necessidade de fornecer dados pessoais a uma empresa privada. “Eu tenho o direito de entrar e sair da minha casa 100 vezes por dia, se for o caso.
Sem contar que não quero entregar meus dados pessoais para uma empresa particular que mais tarde vai vendê-los ou negociar com outras empresas. É uma medida inconstitucional e me recuso a fazer parte disso”, afirmou.
Morador da Rua Pedro Gomes Cardim, Chaim também destaca que a região concentra muitas residências de idosos, que costumam sair de casa para atividades cotidianas, como caminhar ou ir à padaria. “Tem muita gente de 70, 80 anos que não tem nem celular.
Eles todo dia tem que entrar em um app para pegar um QRCode diferente cada dia e tem que ficar preso dentro de casa o dia todo? Não faz nenhum sentido a prefeitura ter concordado com isso”, declarou. O g1 procurou a Prefeitura de SP e a Live Nation para comentarem as restrições, mas ainda não obteve retorno.
Acordo com associação A reportagem apurou que, além da concordância da gestão Nunes, os novos procedimentos da Live Nation foram acordados com a associação de bairro local, a AME Morumbi, que inclusive ajudou no cadastro de moradores e distribuição dos adesivos de acesso.
Um dos diretores, que conversou com a reportagem na condição de anonimato, disse que a intenção foi organizar o entorno e impedir aglomeração de quem não tem ingresso no entorno do estádio. “Eles nos informaram que o show do BTS é uma apresentação calçada onde, fãs que não tem ingresso se concentram na porta do estádio, causando aglomeração que impede socorro de vítimas que passam mal, apoio em eventuais tumultos e prejudicam a organização do evento como um todo”, afirmou.
“No caso do meu trecho aqui, a coisa tá funcionando porque fizemos um mutirão para ajudar as pessoas a se cadastrarem. Há menos flanelinhas e ambulantes e só entra quem é do bairro ou tem ingresso.
Organizou uma situação que há trinta anos tira o nosso sossego”, disse a fonte. Oficialmente, a AME Morumbi informa que “sua participação decorreu da necessidade de estudar os bloqueios necessários para evitar o ‘show calçada’ pelos fãs; consistiu em colaborar com a organização do evento, disponibilizando espaço físico e colaboradores para que a LiveNation, responsável pela organização dos shows, após a aprovação dos órgãos públicos, realizasse o cadastramento dos moradores e comerciantes do entorno, bem como a distribuição dos selos de identificação de veículos e QR Codes de acesso”.
“Entendemos que a iniciativa foi positiva e teve como objetivo facilitar o atendimento e alcançar o maior número possível de moradores e comerciantes da região, mediante a aprovação dos órgãos públicos, contribuindo para a distribuição do maior número de selos e QR Code para minimizar os impactos dos eventos na rotina da comunidade”, afirma a entidade.
“Em determinados trechos do entorno, no primeiro dia do show (28/10/2026) as medidas adotadas mostraram-se eficazes. Segundo consultas realizadas junto aos moradores das áreas roxa e azul, a grande maioria manifestou satisfação com os bloqueios e controles de acesso, destacando a redução da presença de flanelinhas e ambulantes, além da atuação da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e da Polícia Militar, que proporcionou maior sensação de segurança nas ruas”, declarou.
“A AME Morumbi reafirma seu compromisso com o bem-estar e a segurança da comunidade e espera continuar colaborando com as autoridades públicas e demais envolvidos na busca de soluções que conciliem a realização de grandes eventos com a tranquilidade dos moradores do entorno”, afirmou a nota.
G1