Moradores fogem de Teerã após ataques dos EUA e Israel; insegurança toma conta da região diante de retaliações do Irã
Muitos iranianos deixaram a capital Teerã após os ataques lançados pelos Estados Unidos e por Israel na manhã deste sábado. As autoridades da República Islâmica chegaram a enviar mensagens de texto à população incentivando cidadãos a deixarem a capital iraniana. A insegurança e o medo se espalharam para outros países da região, atingidos por ataques do Irã em retaliação.
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"Em vista das operações conjuntas lançadas pelos Estados Unidos e o regime sionista contra Teerã e outras cidades importantes, se possível e mantendo a calma, dirijam-se a outras cidades", dizem as mensagens de texto recebidas pelos residentes e vistas por jornalistas da AFP.
Num vídeo publicado pela rede Al Jazeera, um repórter anda pelas ruas de Teerãm mostrando a situação da capital iraniana durante os bombardeios. Ao fundo, é possível ouvir barulhos sequenciais de explosões. Enquanto imagens de edifícios em chamas pela cidade aparecem na tela, o jornalista descreve a situação como "muito crítica" e conta que iranianos temem uma escalada maior dos ataques pelo país.
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AFP
Todas as universidades do país foram fechadas por ordem do governo. Imagens da AFP mostram milhares de iranianos reunidos nas rodovias para deixar Teerã, formando grandes congestionamentos nas vias que servem como rotas de saída da cidade. A emissora estatal IRIB informou que algumas rotas ao norte e ao sul da capital foram transformadas em vias de sentido único devido ao tráfego intenso, enquanto outras foram completamente bloqueadas.
Enquanto isso, dezenas de apoiadores do governo iraniano, em motocicletas, desfilaram no sábado por uma avenida de Teerã, tocando música marcial e agitando a bandeira da República Islâmica, informaram jornalistas da AFP. O comboio de cerca de 50 pessoas percorreu a extensa Avenida Valiasr, normalmente movimentada, mas praticamente deserta neste sábado após a sequência de ataques aéreos contra o país persa.
Manifestantes se reúnem com bandeiras nacionais iranianas durante um protesto em apoio ao governo e contra os ataques dos EUA e de Israel em frente a uma mesquita em Teerã, em 28 de fevereiro de 2026.
ATTA KENARE / AFP
A Guarda Revolucionária do Irã afirmou que o Estreito de Ormuz, uma via navegável vital para o transporte de petróleo e gás, está inseguro devido aos ataques dos EUA e de Israel e, portanto, foi fechado para navios no sábado, informou a mídia local.
"A Guarda Revolucionária alertou vários navios de que, devido à atmosfera de insegurança ao redor do estreito por causa da agressão militar dos EUA e de Israel e das respostas do Irã, não é seguro passar pelo estreito neste momento", informou a agência de notícias Tasnim. "Com a suspensão da passagem de navios e petroleiros pelo Estreito de Ormuz, o estreito foi basicamente fechado."
Figuras políticas linha-dura iranianas ameaçaram fechar o estreito em caso de um ataque dos EUA, mas nenhuma decisão oficial foi tomada até o momento.
Israelenses seguem protocolos
Em Israel, o silêncio que fazia parte do cotidiano desde o início do cessar-fogo na Faixa de Gaza, assinado em outubro do ano passado, foi interrompido pelas sirenes de alerta pouco depois das 8h (horário local). O barulho que prepara as pessoas para um possível ataque fez com que israelenses pulassem da cama e corressem para abrigos.
Apesar do aviso, segundo a imprensa israelense, o estabelecimento de Defesa de Israel havia ativado as sirenes para alertar as pessoas sobre o início da campanha de ataques contra o Irã e a fim de prepará-las para a ameaça esperada de mísseis — como fez no início da guerra de 12 dias de junho de 2025.
O Times of Israel publicou que o serviço de ambulância Magen David Adom disse que um homem na casa dos 50 anos ficou levemente ferido no norte de Israel durante os ataques depois de cair em um buraco criado por fragmentos de mísseis. Outras pessoas também receberam tratamento por terem se machucado ao cair enquanto corriam para se abrigar ou por ansiedade aguda com a situação.
O Comando da Frente Doméstica — uma unidade das Forças Armadas israelenses responsável por proteger a população civil, gerenciar emergências e coordenar buscas e resgates — anunciou que grandes reuniões de pessoas foram proibidas no país.
Enquanto alguns israelenses se amontoavam em diversos abrigos pelo país, moradores de várias cidades, incluindo Givatayim, Herziliya, Holon, Hadera e Givat Olga, reclamaram de abrigos antibombas públicos trancados, de acordo com relatos divulgados pela imprensa israelense.
Segundo as autoridades locais, a instrução do Comando da Frente Interna para abrir os abrigos só chegou na manhã deste sábado, o que impediu que muitos municípios tivessem tempo de abri-los antes que os alarmes soassem.
O Aeroporto Ben Gurion, principal aeroporto internacional do país, também anunciou que interromperia as operações até pelo menos segunda-feira, deixando inúmeros israelenses presos no exterior e estrangeiros presos em Israel, já que a situação do espaço aéreo permanece incerta. Hospitais e unidades de saúde entraram no modo de emergência, movendo pacientes para complexos subterrâneos.
Insegurança regional
Uma série de ataques iranianos — em resposta aos EUA e Israel — também provocou caos em outros países no Golfo Pérsico, destruindo a imagem de tranquilidade tão valorizada pelos governantes ricos desta região petrolífera. Mísseis riscaram o céu límpido do deserto enquanto colunas de fumaça subiam das bases americanas em Manama, capital do Bahrein, e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos (EAU), e poderosas explosões sacudiam as janelas dos arranha-céus de Dubai.
Duas testemunhas viram uma explosão na famosa ilha artificial de Dubai, The Palm, onde as autoridades relataram quatro feridos. Uma testemunha disse ter visto uma coluna de fumaça preta subindo de um hotel na ilha e ouvido ambulâncias correndo para o local. No Catar, dezenas de pessoas fugiram em pânico quando um míssil caiu em um bairro residencial, explodindo em uma bola de fogo ao atingir a rua.
Em Abu Dhabi, capital dos EAU, jogadores de golfe que desfrutavam de uma partida tranquila ficaram atônitos ao ver dezenas de projéteis riscando o céu. As monarquias do Golfo têm se esforçado para se manterem fora dos conflitos do Oriente Médio, confiando em sua estabilidade para atrair negócios, comércio e turismo.
Esses aliados fiéis dos EUA também cultivam cuidadosamente seu relacionamento com o Irã, seu poderoso vizinho xiita. A Arábia Saudita, uma potência rival, restabeleceu relações com Teerã em 2023, após uma ruptura de sete anos.
Dada a sua reputação de calma, os ataques repentinos de sábado contra bases militares americanas causaram grande comoção entre as diversas populações do Golfo, em grande parte compostas por expatriados.
Na capital do Bahrein, Manama, os moradores foram evacuados às pressas do distrito de Juffair, onde fica a base da Quinta Frota da Marinha dos EUA, atingida durante o ataque.
— Quando ouvimos os sons, gritamos de medo — disse Jana Hassan, uma estudante de 15 anos que visitava uma amiga na região. — Não sabíamos o que fazer... Nunca vou esquecer o som daquelas explosões.
Em Dubai, o centro comercial do Oriente Médio, lar do arranha-céu mais alto do mundo, o Burj Khalifa, os moradores olhavam fixamente para o céu enquanto mísseis o cruzavam.
— Foi um estrondo alto e depois uma explosão — disse à AFP um morador, que pediu para não ser identificado.
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Caos em Teerã
O caos e a incerteza se instalaram na capital iraniana à medida que detonações atingiam a cidade densamente povoada, segundo relatos de testemunhas ouvidas pelo The New York Times.
Ali, um empresário que vive na capital iraniana, contou por mensagem de texto que estava no escritório com diversos funcionários quando ouviram duas explosões, seguidas pelo sobrevoo de caças. Segundo ele, empregados saíram correndo e gritando do prédio. Ele, assim como outros moradores, pediu para não ter o nome completo divulgado por temer pela própria segurança.
No bairro arborizado e de alto padrão de Mirdamad, o morador Hamidreza Zand relatou ter visto ao menos dez caças sobrevoando a região enquanto pessoas corriam para as ruas e alguns motoristas abandonavam carros em meio ao trânsito congestionado. Ao fundo, sirenes de ambulâncias ecoavam enquanto outros residentes tentavam buscar seus filhos nas escolas.
“Corri para a escola para buscar minha filha no ensino fundamental. As meninas estavam escondidas debaixo da escada e chorando”, disse Ali Zeinalipoor, contatado por um repórter por meio da rede social Clubhouse. “A diretora não sabia o que tinha acontecido — todos estavam com muito medo.”
Do telhado de seu apartamento no bairro de Velenjak, no norte de Teerã, Golshan Fathi afirmou ter visto uma segunda leva de aviões de combate.
“As pessoas estão no telhado olhando para o céu e apontando para baixo. É possível ouvir mulheres gritando. Alguns dos meus vizinhos estão correndo para seus carros”, disse. “Parece que estamos em um filme.”
Na região de Pasdaran, onde fica um grande complexo da Guarda Revolucionária iraniana, moradores relataram múltiplas explosões que chegaram a estremecer janelas.
“Meus filhos estão chorando e assustados, estamos todos encolhidos no banheiro, não sabemos o que fazer. Isso é aterrorizante”, escreveu por mensagem Esfandiar, engenheiro que vive na área.
À medida que surgiam relatos de explosões em outras cidades do país, as comunicações começaram a falhar. Uma moradora chamada Mahsa disse que deixava Pasdaran sem conseguir avisar familiares para onde estava indo.
Quando Israel lançou ataques surpresa contra o Irã em junho passado, os alvos foram principalmente instalações militares e nucleares, além de operações em Teerã que resultaram na morte de integrantes do alto comando militar. Já os bombardeios deste sábado pareceram muito mais amplos, incluindo alvos políticos como o Ministério da Inteligência, o Judiciário e o complexo fechado de Pasteur, onde normalmente residem o presidente e o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, segundo moradores e veículos locais.
Os ataques ocorrem em um momento delicado para o país, cujo governo promoveu no mês passado uma repressão violenta para conter protestos nacionais que exigiam o fim do regime clerical.
Nem todos os iranianos, porém, reagiram com indignação às colunas de fumaça que se erguiam após as explosões. Arian, morador do distrito de Ekteban, a oeste da capital, afirmou que alguns parentes comemoraram os bombardeios. Segundo ele, era possível ouvir pessoas do lado de fora do prédio gritando “Vida longa ao xá”, em referência ao monarca deposto na revolução de 1979 que levou a República Islâmica ao poder.
Enquanto aviões de guerra lançavam ataques pelo país, o presidente Donald Trump divulgou um vídeo dirigido aos iranianos afirmando que “a hora da sua liberdade está próxima” e pedindo que se levantassem contra o governo assim que os bombardeios cessassem. Alguns iranianos ironizaram o apelo.
“A única coisa em que estamos pensando agora é em chegar a um lugar seguro”, afirmou Laleh, advogada e mãe de dois filhos, em entrevista por telefone. “Ninguém está pensando em protestar neste momento.”
(Com AFP e NYT)
