Monumento de Nossa Senhora Auxiliadora, em Niterói, será restaurado
Erguido no alto de um outeiro em Santa Rosa, o Monumento de Nossa Senhora Auxiliadora, inaugurado em 8 de dezembro de 1900, vai passar por um processo de restauração após mais de uma década fechado à visitação. A intervenção, conduzida pela prefeitura em parceria com a congregação dos Salesianos, pretende recuperar não apenas a estrutura física da obra, mas também seu valor histórico, cultural e simbólico para a cidade.
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A origem do monumento remonta a 1896, quando o padre Luís Zanchetta, então diretor do Colégio Salesiano, visitou o local e se impressionou com a paisagem voltada para a Baía de Guanabara. A partir daí, surgiu a ideia de erguer uma homenagem a Nossa Senhora Auxiliadora, padroeira da congregação fundada por Dom Bosco. O projeto foi desenvolvido pelo arquiteto Domingos Delpiano, integrante do grupo que chegou a Niterói ainda no século XIX e responsável também pela concepção do santuário dedicado à padroeira. O monumento chegou a contar com um bondinho, construído em 1906, para facilitar o acesso de fiéis e visitantes.
De acordo com o padre Márcio Montandon Marçal, atual diretor-geral dos Colégios Salesianos, o monumento foi inspirando no farol de Bolonha, na Itália, local de partida dos primeiros religiosos da ordem que vieram para o Brasil. A ideia era que a santa pudesse iluminar quem a avistasse da Baía de Guanabara. Além do valor arquitetônico, carrega uma dimensão simbólica que atravessa a Baía de Guanabara. Anos antes da construção do Cristo Redentor, já existia a concepção de que a imagem de Cristo, posteriormente erguida no Corcovado, estaria voltada em direção à sua mãe, em Niterói. A ideia estabelece um diálogo visual e espiritual entre os dois marcos, conectando as cidades por meio de um eixo religioso e paisagístico.
Foto mostra o bonde em atividade, seis anos após a inauguração
Divulgação/Acervo Salesianos
— O Cristo foi propositalmente virado, como se a mãe olhasse para o filho. É algo de uma espiritualidade muito forte. O nosso monumento tem uma ligação com a formação da cidade de Niterói. E esse resgate ultrapassa o sentido do que a nossa congregação pode conceber — diz o padre.
Mão de obra local
O subprefeito da Administração Regional de Icaraí, Raphael Costa, adianta que nesse momento o local está passando pela primeira etapa, que consiste no levantamento histórico e na análise do desgaste sofrido no entorno do monumento. A intenção é utilizar mão de obra dos moradores das comunidades do entorno, como Zulu e Viradouro, na intervenção física, que está prevista para começar até o início de 2027.
— É um processo complexo e que envolve muitos atores. Temos uma parceria com a Unesco, então todo esse processo de restauro vai ser acompanhado de perto por especialistas internacionais. Queremos usar os mesmos moldes de outros monumento que foram restaurados na cidade, como a Ilha da Boa Viagem. Planejamos colocar totens explicativos, mostrando não só a história, mas todo o processo de recuperação. Vamos também realizar melhorias nos acessos, tanto pelas escadas como pela estrada. A intenção é abrir o local para visitação pública. Ser um ponto de romaria, mas também de valor turístico — frisa.
Cerimônia no evento de inauguração da imagem de Nossa Senhora
Divulgação/Acervo Salesianos
Ainda de acordo com Costa, há conversas com as arquidioceses de Niterói e do Rio de Janeiro com o objetivo de instalar binóculos de observação na santa e no Cristo, para ressaltar esse diálogo entre os dois monumentos.
Padre Márcio lembra ainda que o acervo salesiano sobre a construção do farol da santa mostra que foram utilizados cerca de 300 mil tijolos na estrutura, transportados, em parte, pelos próprios alunos. O monumento foi erguido sobre uma base rochosa, com argamassa especial que combina cal, areia, cimento e terra romana, formando um bloco compacto e resistente. Em estilo bossan — uma fusão de elementos góticos e árabes —, a obra se destaca pela coluna de 28 metros de altura, encimada por uma estátua de cobre de seis metros, produzida em Milão pelos artistas Giudici e Del Bo. A imagem, que pesa cerca de duas toneladas, é coroada por uma auréola com 12 estrelas.
Apesar de estar localizado em terreno pertencente à Igreja, o monumento é tombado como patrimônio histórico, o que permite a atuação do poder público no processo de restauração. Segundo o subprefeito, a iniciativa integra uma estratégia mais ampla de valorização do patrimônio e de estímulo ao turismo.
— O monumento está na memória afetiva da cidade. Muitas pessoas visitaram o local na infância ou em atividades escolares. A proposta é não apenas restaurar a estrutura, mas resgatar essa relação com a população e estimular a retomada da visitação — afirma.
O processo de restauração será dividido em etapas técnicas. A primeira envolve o levantamento historiográfico, com a catalogação de documentos, registros e arquivos mantidos pela Igreja, para garantir que a intervenção respeite as características originais da obra. Em seguida, será realizado um diagnóstico estrutural detalhado, com análise das condições de conservação, identificação de danos e definição das necessidades de intervenção.
A terceira fase prevê a elaboração do projeto executivo, que vai orientar todas as ações de restauro, desde a recuperação da estrutura até os acabamentos. Só então terá início a execução da obra, considerada complexa por envolver múltiplos aspectos, como conservação de materiais, estabilidade estrutural e preservação estética. Fechado há pelo menos dez anos, o espaço atualmente recebe o público apenas em ocasiões específicas, como a tradicional peregrinação realizada no dia 3 de maio, com a realização de missa e procissão em honra à santa.
A expectativa é que, após a conclusão das obras, o monumento volte a funcionar de forma permanente, com visitas guiadas, integração a roteiros turísticos e realização de eventos religiosos e culturais.
— Precisamos aproveitar essa vista belíssima, esse clima. E quem sabe teremos um café aqui. Penso em iniciativas parecidas com o que acontece no Rio, com o Cristo Redentor. Somos favoráveis a parcerias com o poder municipal e também com a iniciativa privada. A ordem sozinha infelizmente não tem condições de administrar tudo — diz o padre.
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