Estudo com quatro décadas de imagens de satélite revela aumento da cobertura vegetal em 88% das áreas alpinas analisadas e alerta para riscos à biodiversidade As montanhas do nordeste dos Estados Unidos e do Canadá estão ficando mais verdes, segundo uma pesquisa que analisou quatro décadas de imagens de satélite.
O estudo identificou expansão da vegetação em 88% da área alpina investigada, revelando transformações em ecossistemas que dependem de temperaturas baixas, ventos intensos e espaços abertos. As regiões alpinas aparecem acima do limite natural de crescimento das árvores, onde temperaturas baixas, ventos fortes e solos pouco desenvolvidos dificultam a sobrevivência de plantas maiores.
No nordeste da América do Norte, esses ambientes ocupam áreas relativamente pequenas, distribuídas entre as montanhas Adirondack, nos Estados Unidos, e a península de Gaspé, no Canadá. Durante décadas, essas paisagens permaneceram dominadas por gramíneas resistentes, pequenas plantas herbáceas, arbustos baixos e afloramentos rochosos.
Entretanto, o aquecimento climático está modificando as condições ambientais. Temperaturas mais elevadas podem favorecer espécies de crescimento rápido, alterando gradualmente a composição vegetal e reduzindo o espaço disponível para organismos especializados em ambientes frios.
Os pesquisadores identificaram aumento significativo da vegetação em 69% das zonas alpinas analisadas, correspondentes a aproximadamente 88% de toda a área estudada. A transformação ocorreu principalmente dentro dos ambientes alpinos, demonstrando que o fenômeno não depende exclusivamente do avanço das árvores sobre regiões anteriormente abertas.
As mudanças foram particularmente evidentes na cadeia Presidential Range, em New Hampshire, e no monte Katahdin, no Maine. Nesses locais, áreas protegidas dos ventos apresentaram crescimento vegetal mais intenso, enquanto encostas expostas conservaram características alpinas tradicionais.
Os resultados mostram como condições locais podem determinar a velocidade das transformações. O aumento da temperatura pode prolongar o período anual favorável ao crescimento vegetal.
Espécies anteriormente limitadas pelo frio encontram condições menos restritivas, enquanto arbustos passam a competir com plantas pequenas e especializadas. Esse processo, conhecido como arbustização, pode transformar gradualmente a estrutura de comunidades vegetais alpinas.
Entretanto, o vento desempenha um papel decisivo nessa transformação. Nas encostas expostas, rajadas intensas continuam dificultando o estabelecimento de plantas maiores.
Áreas protegidas oferecem condições mais favoráveis ao crescimento. A cobertura de neve, a orientação das encostas e a disponibilidade de nutrientes também contribuem para produzir diferenças entre montanhas próximas.
O estudo foi liderado por Jonathan Chipman, do Dartmouth College, em colaboração com Jordon Tourville, ecólogo do Appalachian Mountain Club. Publicado em 15 de setembro de 2026 na revista Ecosphere, o estudo científico original utilizou imagens dos satélites Landsat para investigar tendências de vegetação entre 1984 e 2024.
A equipe analisou centenas de registros orbitais e identificou 35 zonas alpinas suficientemente extensas para permitir medições. Os pesquisadores também desenvolveram procedimentos para reduzir distorções relacionadas à cobertura frequente de nuvens e à disponibilidade desigual de imagens antigas, evitando que diferenças na frequência das observações fossem confundidas com mudanças ambientais reais.
A investigação abrangeu aproximadamente 130 quilômetros quadrados de ambientes alpinos, distribuídos por uma faixa montanhosa de cerca de 800 quilômetros. O crescimento vegetal não aconteceu de maneira uniforme.
Áreas protegidas de ventos fortes apresentaram tendências mais expressivas, enquanto superfícies expostas permaneceram relativamente resistentes à expansão de arbustos. No monte Katahdin, em particular, o aumento da vegetação chamou atenção pela intensidade.
Já na Presidential Range, as diferenças entre encostas demonstraram a importância da orientação do relevo. Os resultados sugerem que o aquecimento atua juntamente com fatores locais, incluindo características do solo e possíveis efeitos históricos da deposição atmosférica de nitrogênio.
Embora o crescimento da vegetação pareça inicialmente positivo, a expansão de espécies competitivas pode ameaçar plantas raras adaptadas às condições alpinas. Muitas dessas espécies dependem de espaços abertos e enfrentam dificuldades para competir com arbustos maiores.
A transformação também pode modificar habitats utilizados por insetos, aves e pequenos mamíferos. O aumento da cobertura verde não significa necessariamente maior biodiversidade.
Os satélites identificam mudanças na atividade e na densidade vegetal, mas não determinam diretamente quais espécies estão substituindo outras. Por isso, os pesquisadores defendem observações de campo complementares e monitoramento contínuo para orientar estratégias de conservação desses ambientes sensíveis às mudanças climáticas.
O Antogonista