Duas grandes montadoras estatais chinesas estão avaliando se unirem num momento de esforços de Pequim para conter o excesso de capacidade produtiva.
O Guangzhou Automobile (GAC) Group informou na segunda-feira que fechou um acordo de aquisição de participação acionária com o First Automotive Works (FAW) Group, abrindo caminho para que este último se torne seu segundo maior acionista, com "influência estratégica".
O acordo visa "otimizar" e "integrar" os recursos industriais das duas montadoras estatais, afirmou o GAC Group em comunicado à Bolsa de Valores de Xangai.
Nos termos do acordo de intenções assinado na segunda-feira, o GAC Group adquirirá parte da participação acionária em uma “joint venture” de fabricação de automóveis detida pelo FAW e captará recursos por meio da emissão de ações classe A.
A transação também envolverá uma empresa listada no exterior e uma operação entre partes relacionadas, segundo o comunicado, que não forneceu mais detalhes.
As ações do GAC tiveram sua negociação suspensa em Hong Kong e Xangai mais cedo naquele dia. Após o anúncio, suas ações classe A listadas em Xangai permanecerão suspensas por um período não superior a 10 pregões.
Fundado em 1953 e sediado em Changchun, o FAW Group é controlado pela Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais. Sua marca de luxo, Hongqi, tem sido utilizada como carro oficial por sucessivos líderes chineses, incluindo o presidente Xi Jinping.
Uma transferência de participação entre as duas principais montadoras chinesas pode sinalizar uma nova fase de consolidação na indústria automobilística do país, marcada por uma concorrência feroz.
As montadoras estatais chinesas — que, na era dos carros a gasolina, dependiam de suas “joint ventures” com marcas estrangeiras tradicionais como fontes de lucro — agora enfrentam grandes prejuízos com o “boom” de veículos elétricos impulsionado por subsídios.
Em comparação com a agilidade das “startups” locais de veículos elétricos e seu ritmo acelerado de inovação, a lenta transição das montadoras estatais para esse segmento prejudicou seus resultados financeiros, levando-as ao vermelho. O prejuízo líquido do GAC Group no primeiro semestre aumentou 76% em relação ao ano anterior, atingindo 4,5 bilhões de yuans (US$ 670 milhões).
O governo municipal de Guangzhou controla cerca de dois terços da montadora por meio de várias empresas de investimento. A Baic Motor, uma “joint venture” chinesa parceira da Mercedes-Benz e controlada pelo governo da cidade de Pequim, registrou um prejuízo líquido de 1,59 bilhão de yuans no semestre, em comparação com um lucro de 360 milhões de yuans no ano anterior.
Não estão disponíveis dados financeiros completos do FAW Group, uma vez que o grupo listou apenas parte de seus ativos em bolsa, embora sua divisão de caminhões tenha registrado um aumento de 1.459% no lucro no primeiro semestre do ano. O grupo adquiriu uma participação de 5% na Leapmotor, uma “startup” chinesa de veículos elétricos, por 3,74 bilhões de yuans em dezembro. As duas empresas fecharam um acordo no mês passado para explorar uma colaboração "aprofundada" em áreas como cooperação de capital, direção assistida e inteligente, e finanças.
Na China, o GAC Group e o FAW Group são parceiros da japonesa Toyota. As vendas do primeiro semestre caíram 6,3% em relação ao ano anterior na “joint venture” GAC-Toyota e 27,4% na FAW-Toyota. O FAW Group também opera “joint ventures” com a Volkswagen na China.
O excesso de capacidade e uma guerra de preços prolongada levam alguns analistas a prever uma consolidação que poderá remodelar o cenário competitivo da China.
"Acreditamos que a tendência de desempenho divergente deve eventualmente levar à consolidação do mercado, com as montadoras de primeira linha ganhando participação de mercado mais rapidamente", escreveram analistas do Citi em um relatório no início deste mês, destacando a Baic Motor e o GAC Group entre as seis montadoras chinesas que registraram prejuízo no segundo trimestre.
A participação de mercado das cinco principais marcas chinesas de veículos elétricos subiu 1,4 ponto percentual em julho, atingindo 53,5% em relação ao mês anterior, segundo o Citi.
Na semana passada, o principal órgão de planejamento econômico da China sinalizou apoio a fusões entre grandes grupos automotivos para consolidar "efetivamente" os recursos de produção e evitar a concorrência "homogênea", afirmou uma autoridade da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma em uma entrevista coletiva.
No entanto, algumas tentativas anteriores enfrentaram forte resistência. No ano passado, uma proposta de fusão entre as montadoras estatais Dongfeng Motor e Changan Automobile fracassou devido a preocupações do governo sobre o impacto potencial no emprego local, segundo pessoas a par do assunto.
As ações do GAC Group listadas em Hong Kong subiram 8,6% na segunda-feira antes da suspensão da negociação.
Valor