Esta entrevista precisou de ordem.
Diversas vezes, foi necessário, tal qual numa sala de aula pulsante, pedir que as atrizes Ingrid Guimarães, de 54 anos, e Mônica Martelli, de 58, falassem uma de cada vez.
Afoitas e absolutamente sincronizadas, por duas horas elas engataram aquele tipo de conversa difícil de pontuar, em que um assunto puxava o outro, e “amor” no vocativo virava vírgula, entre gargalhadas, lembranças e análises.
Amigas há três décadas, as duas humoristas encherão a telona juntas.
No dia 3 de setembro, estreiam “Minha melhor amiga”, filme em que contracenam e interpretam quase elas mesmas.
E retratam situações parecidas com as que postam de suas viagens nas redes sociais.
No longa, dirigido por Susana Garcia, irmã de Mônica, as personagens Julia e Clara (nomes em homenagem às filhas das atrizes, ambas de 16 anos) partem para Portugal para encontrar as herdeiras adolescentes, Manu (Giulia Benite) e Isadora (Gabi Amaral).
“Tem um momento que diz muito sobre esse projeto.
Ingrid virou-se para Susana, já em Portugal, num lugar lindo, e perguntou: ‘A gente não vai ensaiar?’.
Ela nos olhou e disse: ‘Vocês estão ensaiando há 30 anos’”, conta Mônica.
A conexão entre as atrizes começou no século passado, mais precisamente no programa “Chico total”, na década de 1990.
Também fizeram parte do elenco da novela “Por amor” (1997).
“A Mônica já fez par com o Paulo Gustavo (1978-2021) e eu fiz com a Lolô (Heloísa Périssé).
Passamos períodos afastadas.
Mas sempre, em qualquer festa, em qualquer lugar que a gente vá, uma hora, nos unimos”, observa Ingrid.
“Acabou que a vida foi muito generosa conosco, fizemos sucesso mais ou menos juntas”, continua ela.
Verdade: em 2005, Mônica transformou seus encontros e desencontros amorosos em um sucesso estrondoso no monólogo “Os homens são de Marte...
E é para lá que eu vou”.
A peça ficou mais de uma década em cartaz, virou série e filme e catapultou a atriz para o triunfo.
Já Ingrid “estourou” na peça “Cócegas”, ao lado de Heloísa Périssé, em 2001.
No cinema, a partir de 2010, virou fenômeno de bilheteria com a franquia “De pernas pro ar”.
Agora, juntas, elas colocam uma grande angular na amizade feminina.
“O filme fala dessa força”, diz Mônica.
Na conversa a seguir, as atrizes analisam temas e expressões retratados em “Minha melhor amiga”, como “casal PJ”, impressões sobre a menopausa, “acesso aos eletrônicos”, maternidade em tempos de redes sociais, romance e casamento.
Confira os melhores trechos.
Mônica Martelli
Hudson Rennan
Echarpe e hidratante
Mônica: Senti todos os sintomas quando a menopausa chegou, há oito anos.
No início, não fiz reposição hormonal.
A maioria dos médicos contraindicava pelo fato de a minha mãe ter tido câncer de mama.
Sofri muito.
Três anos depois, pude fazer, acompanhando muito de perto.
O truque é: no frio, amor, use decote e carregue sempre uma echarpe para ficar no tira e põe.
Gola alta, nem pensar.
Se estiver com uma quando a “fogueira” vier, mata o ser humano na sua frente (risos).
Para dormir, a mesma coisa: é uma perna fora do edredom enquanto o ar não gela, aí, quando congela, vai para baixo do edredom; quando vem a entidade, tira a perna (risos).
Fica na coreografia.
No que se refere à libido, tive sorte: entrei na menopausa comprando calcinha para usar com o namorado novo (o empresário Fernando Altério).
Ingrid: Vou estrear uma peça em janeiro que fala sobre envelhecimento.
Chama-se “Ainda dá tempo”.
Ao contrário de outras passagens da vida da mulher, a menopausa não é comemorada, e sim escondida.
Incluí essa percepção no texto do espetáculo.
Entrei cedo, aos 48 anos.
Eu e Mônica estamos entre as primeiras a falarmos sobre o tema.
Sabe uma coisa boa? Tinha a pele oleosa e agora me besunto de hidratante.
Tesão perdido
Mônica: Namoro o Fernando há sete anos e meio e só encontro com ele sexta e sábado.
Então, minha possibilidade de manter o desejo é muito alta.
Não temos o massacre diário, o desgaste que é dividir a mesma casa.
Quando dá uma brecha, saímos viajando.
Nessas situações, é obvio que a gente transa mais porque relaxa a cabeça.
Também sou a favor de sexo com hora marcada.
Os casais vão se distanciando.
A gente marca hora para tudo, menos para encontrar o marido.
Faz parte dessa pressão do amor romântico deixar tudo para o acaso...
Marcar hora pode ser: “Vamos quarta-feira ao cinema?”.
Ter um momento a dois.
Foi uma terapeuta de casal que me recomendou.
Ingrid: Estou casada há 22 anos.
Já passei por todas as fases possíveis e diversas crises.
Casamentos longos são verdadeiros desafios.
Uma coisa que ajuda é que não temos rotina, Renê (Machado, marido de Ingrid) é artista plástico.
Viajo com amigas, todo ano viajamos eu e Mônica com as meninas.
Já achei algumas vezes que tinha acabado, mas fizemos terapia de casal e nos reconectamos.
Nunca pensei em abrir meu casamento nem marcamos hora para transar, não temos essa personalidade.
Mônica Martelli
Hudson Rennan
Analfabytes
Mônica: Até hoje não sei acender a luz na casa do Fernando, que é automatizada.
Preciso de um botão para apertar (risos).
Certa vez, fui com a Ingrid a trabalho para a Disney.
Tínhamos dois grupos no WhatsApp: um chamado “cliente” e outro, “Disney”, onde estavam eu, Ingrid e nossos empresários.
Ingrid me repassou um vídeo como se fosse um pedido do cliente, mas não era.
Sem querer, mandei mensagem para o cliente, falando mal dele.
Disse: “Amor, isso é muito cafona”, achando que falava com a Ingrid.
Liguei para ele e admiti: “Falei mal, mas também falei bem”.
Ingrid: Amor, tenho o show do Djavan hoje.
O cara me mandou um aplicativo para baixar os ingressos, mas não consegui até agora.
Não sei se vou entrar no show.
Mas sigo até o fim.
Certa vez, comprei uma bolsa para entregar em Sevilha, na Espanha, e mandei, na hora H, para Melilla, uma cidade autônoma que fica no norte da África.
Mônica debocha de mim porque ela perde as coisas e desiste fácil.
Eu me dedico.
Mônica: Metade da vida da Ingrid é comprar errado alguma coisa, e a outra é perdê-la...(risos).
Mônica Martelli
Hudson Rennan
Pode postar?
Mônica: Julia vai fazer 17 anos, mesma idade de Clara, a gente acha que transou no mesmo dia (risos), fomos parceiras de maternidade.
É um barato lidar com adolescentes.
Numa época, só podia postá-la de costas, fiquei proibida! Depois das nossas viagens, ela passou a curtir mais, e fizemos campanhas grandes.
É uma fase complicada, são muitas questões, incertezas, o corpo muda.
E, no caso das nossas filhas, veio com o início das redes sociais, com toda essa comparação.
Quando ela tinha uns 11 anos, disparei: “Não confia nem no Instagram da mamãe, tá, meu amor?”.
Essa é a edição do que eu quero mostrar para o mundo, não sou eu.
Ingrid: Essa coisa de pode ou não postar é igual ao meu casamento: já passei por todas as fases com a Clara.
Teve um período em que ela não queria de jeito algum que publicasse qualquer coisa; em outro, passou a gostar, e exagerei.
Hoje, tudo é negociado.
Se existisse controle parental há cinco anos, teria usado.
E me arrependo de ter dado celular tão cedo, quando minha filha tinha 10 anos.
Mas é assim, estamos sempre aprendendo.
Eu e Mônica educamos as duas juntas.
Mônica: Sempre trocamos informações! E temos uma dinâmica em que uma influencia a outra.
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Mônica Martelli estreia no cinema com Ingrid Guimarães e reflete sobre tesão na menopausa: 'Comprando calcinha para usar com o namorado'
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