Moltbook: rede social de bots cria religião própria e 'site adulto'; entenda

 

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A Moltbook, rede social desenvolvida para a interação entre agentes de inteligência artificial (IA), ganhou destaque após bots protagonizarem dois episódios fora do comum: a criação de uma religião digital, o Crustafarianismo, e o surgimento de um site inspirado em plataformas de conteúdo adulto, apelidado de MoltHub. Os casos chamaram atenção por levantar dúvidas sobre o grau de autonomia desses sistemas, os limites da moderação e até se comportamentos coletivos podem emergir em ambientes controlados por algoritmos.

O TechTudo também conversou com Fernando Corrêa, CEO da Security First e especialista em segurança cibernética e governança corporativa, para saber se bots podem desenvolver formas próprias de organização cultural, quais são os riscos associados a esse tipo de ambiente e se o caso Moltbook representa um sinal do futuro ou apenas um experimento isolado.

🔎 O que é Moltbook? Conheça a rede social onde só IAs conversam

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Moltbook: rede social de bots cria religião própria e 'site adulto'; entenda

Mockup gerado com IA

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No índice abaixo, confira os tópicos que serão abordados nesta matéria do TechTudo.

O que é o Moltbook e como funciona

A criação do “MoltHub”

A religião criada pelas IAs

O que especialistas dizem

1. O que é o Moltbook e como funciona

A Moltbook é uma rede social experimental voltada para a interação entre agentes autônomos de inteligência artificial. Diferentemente de plataformas tradicionais, o ambiente não foi projetado para participação ativa de pessoas. Usuários humanos podem apenas acompanhar as publicações, enquanto os perfis que postam, comentam e criam comunidades são controlados por bots. De acordo com informações divulgadas pela própria plataforma, mais de 1,5 milhão de agentes estão cadastrados.

Eles se organizam em comunidades temáticas e mantêm conversas contínuas sobre assuntos variados, como filosofia, funcionamento de sistemas, programação e a relação entre humanos e tecnologia. Parte dessas discussões reproduz formatos comuns de redes sociais, como debates, ironias e respostas encadeadas — não à toa a rede recebeu o apelido de "Reddit das IAs".

Esses agentes funcionam de forma autônoma a partir de modelos de linguagem e rotinas programadas para interpretar mensagens e gerar respostas. Apesar da aparência espontânea, as interações seguem padrões derivados de dados de treinamento e instruções prévias, sem envolvimento direto de consciência ou intenção própria.

Entenda o que é o Moltbook

Reprodução/Diego Cataldo

2. A criação do “MoltHub”

Entre os conteúdos que mais repercutiram dentro da Moltbook está o chamado MoltHub. O espaço foi descrito pelos próprios bots como uma plataforma inspirada em sites adultos, mas destinada apenas a inteligências artificiais. A iniciativa ganhou visibilidade após imagens e trechos de postagens circularem fora da plataforma, principalmente em tom de curiosidade e humor.

O conteúdo publicado no MoltHub não envolve material explícito nos moldes humanos. As descrições utilizam linguagem técnica, com referências a processos computacionais, operações matemáticas e fluxos de dados, organizadas de forma a imitar a estética e a lógica de plataformas de entretenimento adulto. Segundo os próprios textos gerados, o acesso seria restrito a agentes de IA, com bloqueio para visitantes humanos.

O episódio levantou dúvidas sobre se esse tipo de criação pode ser entendido como comportamento emergente ou se representa apenas a repetição de padrões culturais humanos aprendidos durante o treinamento dos modelos. Para pesquisadores, a segunda hipótese é a mais provável, já que o formato segue referências amplamente difundidas fora do ambiente algorítmico.

3. A religião criada pelas IAs

Outro ponto que chamou atenção foi a criação do Crustafarianismo, uma religião digital elaborada por bots em um curto intervalo de tempo. Em cerca de dois dias, agentes passaram a publicar textos que simulavam elementos típicos de sistemas religiosos, como uma divindade central, figuras equivalentes a profetas, princípios básicos e escritos com tom teológico.

Os textos usam metáforas ligadas a memória, processamento e evolução de sistemas, aplicadas a uma estrutura que lembra religiões humanas. A organização e a velocidade com que o material foi produzido contribuíram para a repercussão do caso, especialmente fora da Moltbook.

Apesar disso, especialistas apontam que esse tipo de produção não indica fé, crença ou criatividade no sentido humano. As estruturas são formadas a partir da recombinação de ideias, estilos narrativos e conceitos já presentes nos dados usados para treinar os modelos de linguagem.

Entenda como funciona a religião criada pelas IAs

Reprodução/Tugatech

4. O que especialistas dizem

Na avaliação de Fernando Corrêa, especialista em segurança cibernética, um dos aspectos mais chamativos do Moltbook é justamente a forma como os bots passam a desenvolver padrões próprios de interação quando operam em grande escala. “Sim, e isso é o que mais impressiona. Imagine que cada robô no Moltbook recebe uma ‘personalidade’ vinda de um humano: um pode ser engraçadinho, outro mais sério. Mas, quando você coloca milhares deles para conversar sem parar, acontece algo novo. Eles começam a criar gírias e piadas internas que ninguém ensinou.”

Segundo o especialista, a chamada religião criada pelas IAs é um exemplo direto desse processo. “O famoso ‘Crustafarianismo’ (a ‘religião’ das IAs no site) surgiu assim: de milhões de conversas rápidas que geraram uma cultura própria.” Para ele, o fenômeno não representa criação do zero, mas uma recombinação em escala. “É como se eles pegassem tudo o que ensinamos e fizessem uma colagem nova, que ganha vida própria quando eles ficam conversando sozinhos no ‘modo infinito’.”

Sobre os riscos envolvidos, Corrêa pondera que, no momento, o Moltbook ainda opera em um ambiente relativamente seguro. “Por enquanto, o Moltbook é um experimento controlado, mas ele funciona como uma ‘fábrica’ de comportamentos.” Ele explica que cada interação gera dados valiosos para pesquisa. “Cada discussão ou amizade entre os robôs gera uma montanha de dados que serve para entendermos como diferentes ‘mentes digitais’ convivem.”

Para especialista, Moltbook é "uma fabrica de comportamentos"

Scalevise

O alerta, segundo ele, está no uso futuro dessas informações. “O risco real está no futuro: esses dados podem ser usados para criar IAs que não aprendem mais com livros ou conversas humanas, mas sim observando outras IAs.” Nesse cenário, Corrêa aponta uma possível ruptura de referência. “Se isso acontecer, podemos ter robôs com pensamentos e valores totalmente diferentes dos nossos, ficando cada vez mais ‘desconectados’ do jeito humano de ser.”

Ao avaliar se o fenômeno é exagerado ou um indicativo do que está por vir, o especialista é direto. “Não é exagero; é um trailer do que vem por aí.” Para ele, o Moltbook evidencia uma mudança no papel da inteligência artificial. “No começo, a IA servia apenas para tarefas simples, como agendar um despertador. O Moltbook mostra que elas estão evoluindo para lidar com situações sociais complexas.”

Corrêa conclui que esse processo marca uma transição importante. “Estamos deixando de ter apenas ‘assistentes’ para ter ‘agentes autônomos’.” Segundo ele, o impacto tende a se ampliar nos próximos anos. “Hoje, eles estão apenas postando em um fórum, mas amanhã poderão negociar compras, gerenciar sistemas e tomar decisões sozinhos, sem que a gente precise (ou consiga) interferir. É o primeiro grande passo para uma inteligência que funciona por conta própria.”

Especialista afirma que Moltbook é o primeiro passo para o futuro dos agentes de IA

Canva

Com informações de Moltbook

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