Mistério no Mediterrâneo: navio russo naufragado em 2024 levava reatores nucleares para a Coreia do Norte, diz investigação

 

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Na antevéspera do Natal de 2024, alguns veículos de imprensa relataram que um navio russo, o Ursa Major, afundou perto da costa da Espanha, após uma explosão na sala de motores. Dois tripulantes morreram e outros 14 foram resgatados com segurança e levados ao porto de Cartagena, mas a embarcação teve como destino final o fundo do Mar Mediterrâneo. Muitos meses depois, investigações mostraram que a história não era exatamente a contada pelos manifestos de carga: a bordo estariam, na realidade, dois reatores nucleares para submarinos, destinados à Coreia do Norte.

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A primeira investigação sobre o Ursa Major foi publicada em dezembro passado, pelo jornal espanhol La Verdad. Segundo a publicação, o navio russo deixara o porto russo de São Petersburgo, às margens do Mar Báltico, e seguia em direção a Vladivostok, principal porta de entrada para a Rússia no Oceano Pacífico. Oficialmente, transportava 129 contêineres vazios de 40 pés (12 metros), cinco contêineres de 20 pés com tampas de escotilha sobressalentes, dois guindastes e duas braçadeiras para um quebra-gelo em construção.

No dia 21 de dezembro, afirma o La Verdad, o Ursa Major começou a se comportar de maneira errática, com trocas de rotas e reduções bruscas de velocidade. A embarcação, de acordo com serviços de inteligência ocidentais, fazia parte da chamada “frota fantasma” russa, usada para burlar sanções internacionais, e com frequência transportou armas para o governo sírio, à época comandado por Bashar al-Assad, durante a guerra civil no país.

No final da manhã do dia 23 de dezembro, a tripulação emitiu um sinal de socorro — “mayday” —, anunciando ao menos três explosões em sua sala de máquinas, que deixaram dois mortos.

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Se passaram mais de sete horas até que as equipes chegassem ao local, a cerca de 110 km da cidade espanhola de Cartagena, mas de acordo com a rede americana CNN, que publicou sua versão dos fatos nesta terça-feira, um navio de escolta russo, o Ivan Green, ordenou que permanecessem à distância. Por volta das 21h, sinalizadores foram lançados, e quatro explosões relatadas. Depois disso, o resgate dos tripulantes foi autorizado, e o Ursa Major — que anteriormente não dava sinais de que estava perto de afundar — naufragou por volta das 23h, afirmam as autoridades espanholas.

De acordo com a operadora do Ursa Major, a Oboronlogistics, em comunicado no dia 27 de dezembro de 2024, o navio foi alvo de um “ataque terrorista”, que provocou as explosões e deixou um buraco de 50 cm de diâmetro no casco. O convés do navio, continua o texto, “estava coberto de estilhaços”. Não há menção a possíveis autores do suposto ataque, tampouco sobre as explosões relatadas antes do naufrágio. Especialistas ouvidos pela CNN dizem que o dano é similar ao causado por um tipo de torpedo utilizado por poucos países (entre eles EUA, Rússia e Irã), enquanto outros suspeitam de uma carga explosiva instalada ali.

No depoimento às autoridades espanholas, o capitão do Ursa Major, Igor Anisimov, também deu declarações confusas sobre o que carregava a bordo, e não esclareceu por que uma carga sem grande importância exigia uma rota tão longa (15 mil km) e uma escolta militar.

Eventualmente ele cedeu, revelando que levava “componentes de dois reatores nucleares semelhantes aos usados ​​em submarinos”, uma alegação confirmada pela análise de fotos e vídeos do navio antes do naufrágio. O plano seria mudar a rota perto de Vladivostok, redirecionando o navio ao porto norte-coreano de Rason (a 300 km de distância), para afastar suspeitas. Os guindastes, diz a CNN, ajudariam a desembarcar os equipamentos.

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Uma semana depois da confissão, um barco russo acusado de participar de operações de sabotagem, o Yantar, ficou por cinco dias sobre o local do naufrágio, e quatro novas explosões foram detectadas pela Marinha espanhola no fundo do mar. Embora o capitão do Ursa Major tenha afirmado que os equipamentos não tinham material nuclear, uma aeronave dos EUA capaz de “farejar” traços de radioatividade, sobrevoou a área duas vezes em 2025, afirma a CNN. As “caixas pretas” dos navios, dizem especialistas, provavelmente já foram recuperadas.

— Atualmente, as caixas-pretas geralmente flutuam até a superfície com um localizador, para que possam ser encontradas em caso de acidente. Acho que alguém está com a caixa-preta. Mas não sabemos se foi a Espanha ou se os próprios russos a localizaram — disse Luís Antonio Rojas, parlamentar espanhol e ex-oficial da Marinha Mercante, à CNN.

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O incidente ocorreu meses depois de uma visita do presidente russo, Vladimir Putin, à Coreia do Norte, na qual assinou uma parceria econômica e militar entre os dois países, concretizada com o envio de armas e tropas para a guerra na Ucrânia e com a transferência de conhecimento e equipamentos estratégicos a Pyongyang.

Serviços de inteligência apontam que novos modelos de mísseis balísticos norte-coreanos já utilizam técnicas desenvolvidas na Rússia, e notam que bilhões de dólares foram enviados de Moscou para o regime desde o início do ano passado. No fim de 2025, quase um ano após o naufrágio, a Coreia do Norte revelou ao mundo seu primeiro submarino de propulsão nuclear, como parte de sua estratégia de defesa nacional. Na época, não foi feita qualquer menção oficial a digitais russas no projeto.

“Caso seja bem-sucedida, a assistência de Moscou ao programa de submarinos nucleares da Coreia do Norte poderá reduzir em vários anos o cronograma de implantação, introduzindo novos desafios para as operações de guerra antissubmarino dos EUA e seus aliados em um potencial cenário de dupla contingência envolvendo tanto a Península Coreana quanto o Estreito de Taiwan, embora não de forma drástica”, escreveu o pesquisador Anton Ponomarenko, em análise para o portal 38 North. .