Miopia passa a ser vista como uma doença, e não apenas um distúrbio da visão; entenda o que isso implica
A miopia é um distúrbio da visão que afeta cerca de 30% da população mundial. E essa proporção não para de aumentar. Tanto que se estima que, até 2050, ela chegará a 50%.
Muito recentemente, a Academia Nacional de Ciências, importante instituição pública dos Estados Unidos, passou a classificar a miopia não mais como um simples problema de visão, mas sim como uma doença. Essa mudança de paradigma considera o potencial da alta miopia de causar alterações patológicas importantes.
Como optometrista, essa nova classificação me chama diretamente a atenção, pois ela muda o modelo de acompanhamento dos pacientes que têm miopia.
Mas o que isso implica para as agências de saúde pública e para os nossos governos?
Quando a miopia rima com patologias
A relação entre miopia e patologias já havia levado a Organização Mundial da Saúde (OMS) a definir a miopia, em 2019, como um importante fator de risco para a chamada cegueira evitável. Essa decisão se baseou nos trabalhos de Flitcroft, um oftalmologista irlandês, e em um consenso de especialistas internacionais.
O oftalmologista aponta que toda pessoa míope está em risco de desenvolver patologias oculares, e que esse risco aumenta proporcionalmente ao grau da miopia.
É preciso entender que um olho míope é um olho que se alonga e se estica além do seu comprimento médio de 24 mm. Essa característica representa uma ameaça para sua estrutura, incluindo a retina. Sob o efeito desse alongamento, a retina e a estrutura ocular podem sofrer rupturas e rasgos.
O glaucoma e a catarata também podem surgir mais rapidamente, e sua associação com a alta miopia torna o tratamento muito mais complexo.
A principal patologia que pode levar à cegueira em pessoas míopes é a maculopatia miópica (MM), que pode se desenvolver especialmente quando o comprimento axial do olho ultrapassa 26 mm.
Essa condição se caracteriza por fissuras na mácula, parte central da retina responsável pela visão mais precisa e que contém nossas melhores células (fotorreceptores). Essas fissuras reduzem a acuidade visual de forma irreversível. A cegueira legal pode ocorrer quando vasos sanguíneos e hemorragias complicam o quadro, de forma semelhante à degeneração macular úmida.
A miopia como questão de saúde pública
Felizmente, existem meios ópticos (óculos ou lentes de contato específicas, com perfis ópticos que provocam desfoco na periferia) e farmacológicos (atropina em baixa dose) eficazes para retardar a progressão da miopia.
De fato, é possível retardar ou modular o alongamento e o estiramento da retina e, assim, reduzir o risco de MM e de comprometimento visual incapacitante. É daí que vem o termo “cegueira evitável”, usado pela OMS.
Cada grau de miopia evitado (dioptria poupada) reduz o risco de MM em 40%, o que representa uma iniciativa extremamente poderosa e sem igual em termos de saúde pública.
De fato, estima-se que o custo global relacionado aos cuidados diretos e indiretos da miopia, especialmente a perda de produtividade, tenha atingido 244 bilhões de dólares americanos em 2015. Corrigir adequadamente e controlar melhor a evolução da miopia reduz, na mesma medida, esse peso financeiro.
A doença da miopia, portanto, é oficialmente reconhecida, e os meios para controlar sua evolução também. Os impactos econômicos diretos e indiretos também já foram estimados e representam um importante custo social.
As razões pelas quais todos os atores devem, desde já, combater o surgimento da miopia e sua progressão tornam-se evidentes.
Os atores se mobilizam
Assim, o Conselho Mundial de Optometria afirma que o controle da miopia deve ser considerado um padrão de prática. Já a Sociedade Mundial de Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo reconhece o valor do controle da miopia e os méritos dos meios de controle, ao mesmo tempo, em que incentiva os oftalmologistas a utilizá-los.
O Canadá acaba de adotar uma lei sobre a estratégia nacional de cuidados oculares. Ela determina que o governo canadense, em colaboração com as províncias e outros atores, deve “apoiar a prevenção e o tratamento das doenças oculares, bem como a reabilitação visual, a fim de melhorar as perspectivas de saúde dos canadenses”.
A luta contra a miopia deveria naturalmente fazer parte dessa nova perspectiva. Além disso, os governos deveriam, desde já, explorar caminhos que permitam estabelecer, com os profissionais de saúde, acordos para cobrir o custo dos exames visuais infantis (o que ainda não acontece em todas as províncias).
Parte do custo dos equipamentos necessários, como óculos e lentes de contato com design específico antimiopia e medicamentos (atropina), também deveria ser coberta. Nesse sentido, o programa quebequense “Ver melhor para ter sucesso” é um passo na direção certa.
De fato, embora sejam mais caros do que lentes padrão para correção da miopia, esses equipamentos permitem retardar eficazmente a progressão da condição e, assim, evitar suas consequências prejudiciais. Mas, infelizmente, ainda permanecem fora do alcance de um número importante de famílias.
As crianças de meios menos favorecidos acabam, assim, em desvantagem. E suas perspectivas de educação e trabalho são reduzidas em comparação às crianças de famílias mais abastadas, que podem receber tratamento adequado. Em outras palavras, sua qualidade de vida é diminuída.
A doença da miopia passa, então, a ser uma questão de saúde pública e um vetor de desigualdade social. Os tomadores de decisão deveriam tomar boa nota disso e agir em consequência.
* Langis Michaud é professor titular na Universidade de Montreal, no Canadá
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
