Ministro na praia e bolas com propaganda política: Deslizes de Espriella em resposta ao terremoto geram críticas na Colômbia - QTU Questões do Universo

Ministro na praia e bolas com propaganda política: Deslizes de Espriella em resposta ao terremoto geram críticas na Colômbia

Fonte: Bandeira da fonte

Desde o primeiro dia de emergência humanitária provocada pelo terremoto de magnitude 7,4 que atingiu a Colômbia, o presidente Abelardo de la Espriella determinou que a comunicação do governo sobre a crise deveria passar por ele.
Foi ele quem anunciou o primeiro balanço de mortos e quem realizou entrevistas coletivas nas cidades mais afetadas, sempre buscando apresentar a imagem de um gabinete presente nas regiões atingidas, em vez de ministros dando ordens a partir de escritórios em Bogotá.
A estratégia, porém, foi afetada por episódios envolvendo integrantes de seu governo e pela própria atuação do presidente.

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A principal polêmica do governo veio do ministro da Habitação, o pastor cristão Jaime Beltrán, que apareceu no domingo descansando em uma praia de Santa Marta, no Caribe, enquanto milhões de pessoas dormiam ao relento após perderem suas casas.
O episódio ocorreu apenas uma semana depois do terremoto, que deixou 280 mortos, mais de 4 mil feridos e outras 143 pessoas desaparecidas, e provocou críticas de diferentes setores políticos.

Em estimativa preliminar apresentada na segunda-feira, o presidente apontou perdas econômicas equivalentes a US$ 9,6 bilhões.
O número ainda deve ser revisado à medida que o governo obtiver novas informações e avaliar os danos nas diferentes regiões atingidas.
Até agora, mais de 127 mil moradias foram danificadas, 26 mil destruídas e 197 edifícios desabaram.
Mais de 90% das moradias não possuem apólices de seguro, o que significa que as vítimas do terremoto aguardam a orientação que o ministro dará para a reconstrução.

Beltrán, ex-prefeito de Bucaramanga e uma das pessoas de maior confiança do presidente, entrou cedo na campanha de De la Espriella à Presidência.
Ao se defender das críticas pela viagem, o ministro afirmou que havia ido a Santa Marta por um curto período para visitar a família, acrescentando que não se pode esquecer que, “por trás do ministro, há um pai, um marido, um filho”.
A justificativa, porém, não encerrou as críticas.

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A senadora Carol Borda, do Salvación Nacional, partido que apoiou a candidatura de De la Espriella, criticou duramente o ministro.
Em publicação no X, ela afirmou que a ação do ministro mostra um “nível de desconexão doloroso”, ressaltando a “angústia de milhares de famílias” ao ter “suas casas destruídas e não saber onde vão dormir”.
No Centro Democrático, o maior partido de direita no Legislativo, o senador Andrés Forero afirmou que a permanência do ministro no cargo coloca o presidente na resolução de um problema com o qual “nada tem a ver” e submete o governo a um “desgaste prematuro e desnecessário”.
O senador Jota Pe Hernández, de direita e integrante do Partido Verde, também publicou a hashtag #Indolente acompanhada da imagem do ministro.
A Câmara dos Representantes fez um pedido para convocar Beltrán a uma moção de censura, na qual a maior bancada de esquerda pretende buscar a renúncia do funcionário.
A segunda maior bancada, do Centro Democrático, também demonstrou insatisfação com a atitude do ministro.
De la Espriella, porém, decidiu mantê-lo no cargo, anunciando que ele ficará à frente de um “plano milagroso” para a reconstrução e que as pessoas que perderam suas casas “não estão abandonadas”.

Bolas de futebol
Enquanto Beltrán estava na praia, De la Espriella viajou com a esposa e integrantes de seu gabinete para Buenaventura, uma das cidades mais afetadas pelo terremoto.
Mais de 10 mil moradias foram atingidas na região, onde mais de 400 pessoas ficaram feridas e 27 morreram.
A rede hospitalar local entrou em colapso, e o presidente anunciou a reabertura do navio-hospital Benkos Biohó e o envio de toneladas de ajuda médica.
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A visita, porém, também gerou uma polêmica.
Fora da entrevista coletiva, De la Espriella parou em uma rua de Buenaventura e jogou bolas de futebol para crianças vítimas do terremoto.
As bolas, no entanto, traziam o logotipo de seu movimento político, Defensores de la Patria.
Um ativista local registrou o momento, e as imagens provocaram críticas à distribuição de material associado ao movimento político do presidente entre vítimas da emergência.
O episódio foi comparado à atuação do presidente Donald Trump em Porto Rico, em 2017, durante seu primeiro mandato.
Na ocasião, Trump foi criticado pelas autoridades locais depois de jogar rolos de papel para pessoas afetadas pelo furacão Maria.
Ao El País, o colunista Jhon Jairo Caicedo afirmou que a distribuição das bolas não foi “um pecado”, mas representou um erro de comunicação porque deixou prevalecer no imaginário a ideia de que ele “foi a Buenaventura distribuir bolas”, deixando em segundo plano o restante da visita.
Já para Leonard Rentería, líder social de Buenaventura, porém, o principal problema não eram as bolas.
Dezenas de escolas foram afetadas pelo terremoto e as autoridades declararam “calamidade educacional”.
Seis escolas estão completamente destruídas.
O governo anunciou, por meio do ministro do Interior, que espera que empresas de telefonia doem planos de dados para as crianças e afirmou que pretende providenciar tablets para permitir que a educação virtual seja retomada o mais rápido possível.
A proposta, contudo, foi questionada pela ex-ministra da Cultura Paula Moreno, que dirige a fundação Manos Visibles e estava em Buenaventura durante a visita presidencial.
Sem mencionar diretamente o ministro Lara ou De la Espriella, Moreno defendeu que o governo tenha profissionais do Pacífico envolvidos no processo de reconstrução.

— Precisamos que no governo nacional haja um grupo de profissionais do Pacífico que possa acelerar esse processo [de reconstrução], porque estamos muito lentos para entender a realidade e conseguir apresentar soluções reais — disse, criticando, ainda, a possibilidade de aulas virtuais diante das condições da região.
— As aulas virtuais não funcionam porque o Pacífico não tem conectividade, e as crianças do Pacífico não têm como pagar pelos celulares.

A ex-ministra destacou que o mais importante, na sua avaliação, é retomar as aulas presenciais, especialmente em “ambientes protetores”, porque os jovens são particularmente vulneráveis ao recrutamento por grupos armados na região.
Ela ainda questionou os anúncios do governo de conceder subsídios a pessoas que moram de aluguel, afirmando que a ideia é “pouco viável” porque não há muitos espaços para alugar.
As críticas reforçaram a cobrança para que as medidas de resposta à emergência considerem as condições específicas do Pacífico colombiano, em vez de aplicar soluções que não correspondam à realidade local.
O terremoto é a primeira grande crise enfrentada por De la Espriella, que assumiu o cargo poucos dias antes e agora precisa supervisionar os esforços de assistência e reconstrução.
Na noite de segunda-feira, o presidente voltou a afirmar que todas as comunicações relevantes sobre a emergência seriam feitas por ele, acrescentando que seus ministros estão em todas as regiões e trabalham 24 horas por dia, sem descanso.
Os episódios envolvendo Beltrán e a distribuição das bolas, porém, expuseram dificuldades na tentativa do governo de transmitir uma imagem de presença e coordenação durante a crise.