O ministro dos Transportes da Espanha, Óscar Puente, confirmou nesta quarta-feira que a colisão entre dois trens de alta velocidade que deixou ao menos 64 mortos na província de Toledo foi precedida por uma falha no sistema de sinalização e por uma ordem “inexplicável” da central de controle da Adif, a empresa pública que administra a infraestrutura ferroviária.
Segundo ele, a decisão de retomar a circulação não deveria ter sido tomada, e, mesmo que fosse, o trem teria de avançar com no máximo 40 km/h, e não em velocidade normal. O responsável pela ordem está sob investigação.
Contexto: colisão entre trens de alta velocidade na Espanha deixa ao menos 64 mortos; circulação ferroviária foi interrompida Quer morar fora do Brasil? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países
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Como podem imaginar, este é um dos momentos mais difíceis que alguém pode enfrentar — afirmou Puente em entrevista coletiva. De acordo com fontes do governo ouvidas pelo jornal El País, o controlador da Adif ordenou ao trem da Renfe que retomasse a marcha mesmo vendo na tela uma composição da Iryo parada 25 quilômetros à frente, na mesma via, e não deu nenhuma instrução para que ele parasse durante o percurso.
Segundo o jornal, o controlador, que teve todas as ordens gravadas em áudio e por escrito, está acompanhado por um advogado e por um psicólogo no centro de comando. O acidente ocorreu às 8h54 (4h54 em Brasília) na linha que liga Madri à Andaluzia, entre as estações de Los Yébenes e Urda.
O trem da estatal Renfe, que saiu da capital rumo a Sevilha com 397 passageiros, atingiu por trás a composição da empresa privada Iryo, que levava 147 pessoas. Com o impacto, vagões descarrilaram e tombaram em um aterro.
Tragédia em Toledo se soma a histórico de acidentes envolvendo trens na Espanha AFP
Como ocorreu a colisão De acordo com a reconstituição do El País, o LZB, sistema de segurança que controla a alta velocidade espanhola, falhou por motivos ainda não esclarecidos e parou automaticamente cerca de seis trens na região, três em cada sentido.
Oito minutos depois, a central de controle passou ao modo manual e ordenou que todos retomassem a viagem. O trem da Iryo, porém, não conseguiu arrancar e ficou parado na via.
Imagens aéreas mostram resgate de vítimas após colisão de trens na Espanha Na tela, o controlador podia ver a composição da Iryo à frente do trem da Renfe, mas, segundo as fontes ouvidas pelo jornal, não deu nenhuma instrução para que ele parasse durante todo o percurso de 25 quilômetros até o local da batida.
Sem o LZB, o maquinista não tem nenhum sistema que o avise da presença de outro trem e depende apenas das orientações da central de Atocha, em Madri. O segundo erro, considerado ainda mais grave pelos investigadores, foi a ordem para seguir em velocidade normal.
Com o sistema fora do ar, o protocolo determina a marcha “à vista”, bem mais lenta, que teria dado ao maquinista tempo para frear. Os outros quatro trens seguiram sem problemas porque tinham a via livre.
Naquele trecho, os trens podem chegar a 200 km/h, mas ainda não se sabe a que velocidade ocorreu o choque. Veja também: Boca de urna oscila e coalizão de Netanyahu passa ligeiramente à frente em eleição com votação recorde em Israel
Ao El País, Iñaki, de 60 anos, disse ter rolado pelo chão e, quando o trem parou, percebeu que estava de cabeça para baixo. — Estávamos parados e, de repente, sentimos um impacto muito forte — disse o homem, que viajava no vagão 2 da Iryo.
O colombiano Jorge Guales, de 53 anos, que estava no vagão 7 da mesma composição, contou que o trem havia parado alguns minutos antes de sentir um “impacto” e um “estrondo” “fortíssimo”. Pior acidente desde janeiro
O presidente de Castilla-La Mancha, Emiliano García-Page, informou que 80 pessoas ficaram feridas, 55 delas atendidas em hospitais da região. A tragédia já supera em mortes o acidente de 18 de janeiro nos arredores de Adamuz, em Córdoba, que matou 46 pessoas e reabriu o debate nacional sobre a manutenção da rede e a segurança dos passageiros.
Com 4 mil quilômetros de vias, a malha espanhola de alta velocidade é a segunda maior do mundo, atrás da chinesa, e um dos orgulhos do país. Em janeiro, dois trens de alta velocidade colidiram perto de Adamuz, na Espanha, matando pelo menos 40 pessoas
Jorge Guerrero / AFP O governo regional ativou o plano de emergência da província, e o Ministério do Interior enviou a Unidade Militar de Emergências para reforçar o socorro.
A Adif suspendeu a circulação na linha entre Madri e a Andaluzia, e a Renfe interrompeu as operações entre Madri, Ciudad Real e o sul do país. “Consternado com o grave acidente ferroviário em Toledo”, escreveu o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que cancelou seus compromissos de governo e de campanha para as eleições gerais de 29 de novembro.
O líder do Partido Popular (PP), Alberto Núñez Feijóo, disse estar “muito preocupado com o novo acidente”. O rei Felipe VI afirmou à TV espanhola que “a primeira coisa é lamentar essa terrível desgraça”.
Com AFP
O Globo