Ministro da Defesa de Israel ameaça capturar território do Líbano; ataque israelense a área com deslocados mata 8 em Beirute
O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou nesta quinta-feira que o país pode capturar o território do Líbano caso o Hezbollah continue atacando o país. A declaração ocorre no mesmo dia em que um ataque israelense com drones matou oito pessoas e deixou outras 21 feridas no bairro central de Ramlet al-Baydaa, em Beirute, uma área da capital libanesa que até então era considerada segura. As bombas caíram no calçadão à beira-mar, onde pessoas deslocadas vinham dormindo ao relento após fugir de outras regiões bombardeadas.
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Na manhã desta quinta-feira, as marcas do ataque ainda eram visíveis na praia. A areia permanecia manchada de sangue onde os corpos haviam sido retirados horas antes, enquanto destroços de uma motocicleta se apoiavam contra dois carros destruídos pela explosão. As bombas abriram dois buracos profundos na calçada, e soldados libaneses examinavam o local com lanternas para verificar se ainda havia explosivos.
Um policial inspeciona um carro danificado no local de um ataque aéreo israelita na zona costeira de Ramlet al-Bayda, em Beirute, na madrugada de 12 de março de 2026
ANWAR AMRO / AFP
Segundo autoridades de saúde libanesas, o ataque pode ter sido provocado por um impacto direto em um carro estacionado na orla. De acordo com informações divulgadas pela BBC, relatos indicam que um segundo ataque ocorreu depois que pessoas se reuniram no local para prestar socorro às vítimas, o que teria provocado novos feridos.
Foi a terceira vez, em poucos dias, que Israel bombardeou o centro da capital libanesa, atingindo regiões que anteriormente não estavam entre os principais alvos da ofensiva.
— Foi aterrorizante. Ouvimos uma explosão e depois outra quase imediatamente. Não imaginávamos que atingiriam aqui. O que há aqui? Só o mar — disse Riyadh al-Lattah, um marceneiro de 57 anos que vive nos subúrbios ao sul de Beirute e estava acampado com a esposa e os cinco filhos do outro lado da rua do local do impacto.
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Al-Lattah é um dos muitos moradores que passaram a ocupar a orla da cidade depois que Israel ordenou, na semana passada, a evacuação dos subúrbios ao sul da capital. Sem ter para onde ir, ele montou duas barracas na praia, juntando-se a um crescente acampamento improvisado diante de um bairro normalmente de alto padrão.
Ele afirma, no entanto, que não esperava um ataque sem aviso prévio.
— Esta guerra está mais difícil. Pelo menos, da outra vez, eles avisavam. Diziam antes de atacar; agora são bombardeios aleatórios — relatou.
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Outro deslocado, Hussein al-Atrash, de 18 anos, afirmou que pretende deixar Beirute em breve, temendo novos ataques.
— Viemos para cá porque achávamos que estaríamos seguros. Onde quer que vamos, eles bombardeiam — contou o jovem, morador da região de Dahiya, reduto do Hezbollah no sul da capital.
Enquanto ele falava, militares libaneses começaram a afastar curiosos do local após identificarem uma bomba que não havia detonado em um dos buracos abertos na calçada.
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Escalada militar
O Exército israelense lançou uma onda de bombardeios contra Beirute e seus subúrbios ao sul entre a noite de quarta-feira e a madrugada de quinta-feira, no mais recente episódio de uma campanha militar que, segundo autoridades libanesas, já obrigou cerca de 800 mil pessoas a deixar suas casas no país.
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Segundo as forças israelenses, “uma ampla onda de ataques contra a infraestrutura terrorista do Hezbollah em todo o Líbano” foi realizada. As explosões ecoaram por diferentes regiões da capital durante a madrugada, espalhando pânico entre moradores enquanto colunas de fumaça se erguiam sobre a cidade.
As forças israelenses têm realizado incursões na região como parte do esforço declarado de ampliar uma zona de amortecimento sob controle militar. De acordo com o jornal israelense Haaretz, autoridades afirmam que Israel pretende continuar sua campanha militar no Líbano mesmo após o fim da guerra contra o Irã, com o objetivo de enfraquecer o movimento pró-iraniano. Uma fonte diplomática disse ao jornal que a estratégia é “desarmar o Hezbollah e destruí-lo”.
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Em meio à escalada, o Hezbollah realizou na quarta-feira, “de forma simultânea” com o Irã, sua maior ofensiva contra o território israelense desde o início desta guerra, em 28 de fevereiro, segundo o Exército de Israel.
— Na noite passada, o Hezbollah coordenou um ataque simultâneo com o Irã, lançando foguetes e drones contra cidades e localidades em todo Israel. Os números indicam cerca de 200 foguetes e cerca de 20 drones — declarou à imprensa o porta-voz israelense, tenente-coronel Nadav Shoshani. — Tudo isso foi combinado com mísseis balísticos lançados do Irã ao mesmo tempo.
O ataque foi descrito como a primeira ação conjunta do grupo armado e da República Islâmica contra Israel desde o início do conflito.
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De acordo com as forças israelenses, os sistemas de defesa aérea interceptaram a maior parte dos projéteis, e os ataques resultaram em apenas dois ou três impactos diretos e alguns civis levemente feridos.
Expansão de ações
Após a ofensiva do Hezbollah, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou nesta quinta-feira ter ordenado, juntamente com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que o Exército se prepare para expandir as operações militares no Líbano. Em comunicado, ele disse que a medida tem como objetivo restabelecer a segurança nas comunidades israelenses próximas à fronteira norte.
“Adverti o presidente do Líbano [Joseph Aoun] de que, se o governo libanês não souber controlar o território e impedir que o Hezbollah ameace as comunidades do norte e dispare contra Israel, tomaremos o território e faremos isso nós mesmos”, disse Katz em uma avaliação da situação, segundo o boletim de seu ministério.
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O Hezbollah se juntou a guerra em 2 de março, lançando projéteis contra Israel para se vingar, segundo afirmou, do assassinato dois dias antes de Ali Khamenei, líder supremo iraniano e principal aliado do partido-milícia libanês.
Segundo o ministro da Informação do Líbano, Paul Morcos, os ataques israelenses em diferentes regiões do país, incluindo o sul, a capital Beirute e áreas do leste, já deixaram pelo menos 687 pessoas mortas. Entre elas, estão 98 crianças e adolescentes.
(Com AFP e New York Times)
