A brincadeira, porém, não é exatamente nova. O nome faz referência a uma promessa bem-humorada do próprio Lula.
Durante a campanha de 2022, o então candidato afirmou que, no governo dele, todo mundo iria namorar. A declaração foi suficiente para inundar as redes sociais com pedidos pela criação de uma pasta dedicada ao fim da solteirice.
No Dia dos Namorados de 2023, o presidente voltou a brincar com o assunto e pediu desculpas por ainda não ter criado o ministério. As provocações inspiraram o matemático Lúcio Pires e a jornalista Martchela a criarem, em fevereiro daquele ano, uma página de memes no Instagram.
Três anos depois, a piada ganhou contornos mais concretos. “Eu fiquei de criar o ministério dos namorados e não criei”, diz @LulaOficial.
Com a vitória do petista e a intensa mobilização de eleitores nas redes, a ideia de aproximar solteiros em busca de um relacionamento saiu do campo das brincadeiras e virou uma rede de encontros. A iniciativa já conta com mais de 18 grupos espalhados pelo Brasil, cada um com mais de mil integrantes.
O organizador conta que se inspirou no Exército do Lula, canal de apoiadores do então candidato criado por André Janones (Rede-MG), reeleito deputado federal. A iniciativa reuniu mais de 10 milhões de assinantes antes da definição eleitoral.
“Eu estou roubando a ideia do Janones, fazendo desafios. A cada 10 mil pessoas que seguem o canal do Tinder do exército do Lula, a gente libera três grupos”, explica.
Capitais como Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo já contam com espaços próprios para os solteiros. A administradora Martchela, que chegou a ganhar o apelido de Ministra do Namoro nas redes sociais, vê a criação dos grupos como uma espécie de respiro depois de semanas de intensa dedicação à disputa eleitoral.
“Nessa eleição, a gente perdeu a libido, que foi toda para a política. Depois, a gente teve que voltar com a libido para o objeto de desejo um pelo outro, porque a gente perdeu na política, ficamos sem nada”, refletiu.
Países ao redor do mundo já adotam medidas oficiais para diminuir o número de pessoas sozinhas. Em 2021, o Japão instituiu um ministério dedicado a combater o isolamento e seus impactos na saúde mental.
Três anos antes, o Reino Unido lançou uma estratégia nacional contra a solidão, com campanhas e um fundo de £ 4 milhões (mais de R$ 24 milhões) para financiar iniciativas de conexão social. Por aqui, o projeto espontâneo também revela como a polarização política ultrapassou o debate público e chegou à vida afetiva.
“Hoje em dia, para você namorar uma pessoa é pré-requisito saber em quem votou na última eleição. Dependendo da resposta, tu já sai de perto”, opinou a professora gaúcha Luciana, de 52 anos, que entrou em um dos grupos.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Os bonés também marcam presença nas campanhas políticas brasileiras
Além da afinidade política, os participantes precisam seguir algumas regras para garantir a organização dos espaços. A entrada é permitida apenas para maiores de 18 anos e os administradores recomendam que os integrantes se apresentem com fotos e informações como nome, orientação sexual e objetivos.
As conversas também são permitidas em períodos específicos do dia, quando os responsáveis conseguem acompanhar as interações. Nesta sexta-feira (30/10), os organizadores chegaram a publicar orientações para evitar o contato com invasores.
Alguns participantes começam a colher os primeiros resultados. John, de 34 anos, mora em São Paulo e conseguiu marcar um encontro com uma integrante do grupo.
“Acabei conhecendo uma pessoa, aparentemente gente boa, a gente marcou um date para daqui duas semanas”, contou. A fisioterapeuta Layza, de Brasília, foi além e está com viagem marcada para o feriadão — que vai até a segunda-feira (2/11), data do Dia de Finados.
“Eu conheci uma pessoa extremamente interessante”, revelou. “A gente foi conversar e ele falou: ‘Vamos fazer o que no feriado?’.
Pensei que era um café ou um barzinho. Ele falou: ‘Vamos para a Chapada [dos Veadeiros]’.
Está tudo certo, já está tudo fechado.” O gaúcho William, de 34 anos, resume o sentimento que parece unir os integrantes da iniciativa: a vontade de deixar a solteirice para trás.
“Eu não aguento mais ser solteiro. Ser solteiro não é para mim.
Eu gosto de ser solteiro, mas prefiro um mozão”, brincou.
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