Quebra-cabeças de Lula: desafio de reacomodar auxiliares importantes Ricardo Stuckert/Divulgação
Após a vitória nas urnas no domingo (25), o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva começa a articular a formação de seu próximo governo. Na reformulação da Esplanada, Lula terá o desafio de acomodar aliados que não foram eleitos e ficarão sem cargos, mas que tiveram uma atuação considerada importante na atual gestão, além de contemplar lideranças que foram estratégicas na reta final da campanha.
Em paralelo, diante de um Congresso ainda mais conservador, o presidente precisará negociar e trazer partidos de centro capazes de garantir sua governabilidade no Parlamento. O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad é considerado uma peça-chave nesse xadrez político.
Até então apontado como favorito para suceder a Lula em 2030, o ex-prefeito de São Paulo perdeu força entre aliados após sofrer mais uma derrota neste ano - a quarta seguida - ao disputar o governo de São Paulo. Inicialmente, ele era cotado para assumir a Casa Civil em um novo mandato petista.
A expectativa é que Haddad permaneça no governo, sobretudo por ter ficado sem mandato. Nesse cenário, a ocupação de um ministério é vista como uma forma de manter o ex-prefeito em evidência e preservar seu espaço no debate político.
Dentre as opções levantadas, além da Casa Civil, estão a do Ministério da Justiça. Em contrapartida, o senador Camilo Santana, atual líder do PT no Senado, passou a ser cotado também para a Casa Civil.
Ex-ministro da Educação, o parlamentar intensificou sua participação na campanha do segundo turno de Lula e assumiu papel de destaque na coordenação política para a reeleição do chefe do Executivo. Mesmo com mandato no Senado até 2031 pelo Ceará, Camilo é considerado um dos quadros mais fortes do partido atualmente, e com cacife para a Casa Civil.
Sua trajetória à frente do Ministério da Educação, marcada por iniciativas como o Pé-de-Meia, tornou-se um dos principais trunfos da gestão Lula 3. O senador também é bem avaliado por suas duas passagens pelo governo do Ceará e pelo trabalho feito pela reeleição do governador Elmano de Freitas (PT) neste ano.
Outra liderança que ganhou protagonismo na campanha do segundo turno foi o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), que também teve atuação destacada na mobilização em favor do presidente. Fonteles é visto por interlocutores como um quadro técnico competente e com trânsito na área econômica, embora reconheçam que uma eventual ida para o governo federal esbarraria na dificuldade de deixar o comando do Estado.
O mercado reagiu mal à reeleição de Lula e a montagem da nova equipe econômica do governo está sob os holofotes. Na segunda-feira (26), o presidente se reuniu com os atuais ministros da Fazenda, Dario Durigan, e do Planejamento, Bruno Moretti.
Uma das prioridades será concluir a votação do Orçamento de 2027 no Congresso ainda este ano. Camilo Santana, líder do PT no Senado, passou a ser cotado para a Casa Civil
Na comunicação, um dos principais protagonistas do segundo turno das eleições foi o deputado André Janones (Rede-MG). Já considerado uma figura importante na campanha de 2022, ele lançou o canal “Exército do Lula”, que ultrapassou 10 milhões de inscritos e se consolidou como uma das principais ferramentas de mobilização durante a reta final da disputa.
Nos discursos após a vitória, o presidente atribuiu parte do resultado à atuação do parlamentar. Como reconhecimento, Janones pode integrar o próximo governo em uma área ligada à comunicação.
Além dos aliados que se destacaram na campanha, Lula terá de decidir o destino de integrantes da atual gestão que não conseguiram se eleger. Na avaliação de auxiliares do presidente, o trabalho desempenhado por esses auxiliares ao longo do mandato pode cacifá-los a estar no Executivo.
A distribuição de cargos do novo governo, porém, também precisa levar em conta as negociações políticas e a necessidade de ampliar a base de apoio no Congresso, que terá, a partir de 2027, um perfil mais conservador. Atualmente, o governo conta com 38 ministérios, mas pode sofrer mudanças.
A previsão é que a reorganização comece já em dezembro. Entre os nomes que saíram derrotados das urnas em São Paulo estão Simone Tebet (PSB), Marina Silva (Rede) e Márcio França (PSB), todos com passagem pela Esplanada.
Tebet comandou o Ministério do Planejamento por mais de três anos, enquanto Marina esteve à frente do Meio Ambiente pelo mesmo período. França, por sua vez, chefiou o Ministério de Portos e Aeroportos por menos de um ano e, em seguida, assumiu a pasta do Empreendedorismo.
Outra aliada que ficará sem mandato a partir de 2027 é Gleisi Hoffmann. A deputada federal inicialmente pretendia disputar a reeleição, mas desistiu da candidatura a pedido de Lula para concorrer ao Senado pelo Paraná.
Contudo, foi derrotada. Durante o atual governo, Gleisi comandou por pouco mais de um ano a Secretaria de Relações Institucionais (SRI), responsável pela articulação política com o Congresso.
Ela foi substituída pelo deputado José Guimarães (PT-CE), então líder do governo na Câmara, que também desistiu de disputar o Senado pelo Ceará após um pedido do presidente. Sem mandato a partir do próximo ano, Guimarães espera ser realocado em algum posto no Executivo.
Há ainda uma opção em estudo: que ele volte para o Ceará para ocupar algum cargo no Executivo estadual e se cacifar ao Senado em 2030. No Senado, outro nome que aparece entre os possíveis integrantes do novo governo é o de Randolfe Rodrigues (PT-AP), que não conseguiu se reeleger e poderá ser contemplado com uma pasta.
Ele ocupa a liderança do governo no Congresso desde 2023. Já o vice-presidente Geraldo Alckmin também deverá ter seu papel redefinido.
Além da vice-presidência, ele comandou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). Entre as possibilidades discutidas para o próximo mandato está o fortalecimento de sua atuação como interlocutor do governo junto ao mercado, o que pode levá-lo para a Fazenda.
No PSB, o presidente do partido, João Campos, saiu da Prefeitura do Recife para concorrer ao governo de Pernambuco, mas não conseguiu se eleger. Sem mandato, aliados de Lula discutem a possibilidade de o ex-prefeito ser o novo ministro da Ciência e Tecnologia.
Os citados foram procurados, mas não retornaram.
Valor