'Minha preocupação é com o que vem depois', afirma embaixador do Brasil em Teerã
Com explosões ainda ecoando em Teerã e as ruas esvaziadas por recomendação oficial, o embaixador do Brasil no Irã, André Veras, descreve um país sob bombardeio e diante de uma encruzilhada política. “Tivemos ataques fortíssimos há duas ou três horas, com muita fumaça e poeira”, relata. “As bombas assustam, claro, mas minha preocupação maior é o vácuo que isso vai deixar.”
Em entrevista ao GLOBO, o diplomata afirma que mais inquietante do que os ataques a estruturas do Estado é o que pode vir depois da morte do líder supremo: a incerteza sobre quem deterá o poder em um regime sustentado pela Guarda Revolucionária e por forças armadas que não dão sinais de dissolução.
Como o senhor descreve a situação neste momento em Teerã? Que tipo de alvos estão sendo atingidos?
A situação é a seguinte: ocorrem ataques direcionados a certos objetivos específicos. O presidente americano disse que atacaria a estrutura do Estado para “devolver o Estado ao iraniano”. Então estão atacando unidades do Exército, unidades da Guarda Revolucionária, estruturas do Estado iraniano.
Com a morte do líder supremo do Irã, o que pode acontecer no país, em sua opinião?
As bombas assustam, claro, mas minha preocupação maior é o vácuo que isso vai deixar. Já anunciaram que mataram o líder supremo e outras lideranças. A questão é o que acontece depois. Quando os americanos pararem de bombardear, o que vem? Eles decretaram uma semana de feriado a partir da morte do líder. A vida deve começar a voltar no domingo que vem. Mas disseram que vão continuar bombardeando. No primeiro momento, atacaram as estruturas de lançamento e defesa aérea, o que facilita agora. Minha preocupação é o que vem depois, como vão resolver essa questão central, que é retirar da Guarda Revolucionária o poder que ela tem no país.
A morte de Ali Khamenei pode significar o fim do regime da República Islâmica?
Olha, não sei se é o fim do regime. O fim do regime seria sair da República Islâmica para outra coisa. O regime não acaba simplesmente matando o líder supremo. Um dos pilares é a Guarda Revolucionária, os Pasdaran, uma espécie de milícia informal. Esse grupo detém o poder, até mais forte que Exército, Marinha e Aeronáutica, que existem basicamente para proteger o líder supremo e o regime. O Irã não tem histórico recente de oposição política organizada, porque essas forças foram sendo expurgadas ao longo do tempo.
Como está o clima nas ruas de Teerã neste momento? Há recomendações oficiais para que as pessoas fiquem em casa?
As ruas estão vazias. A polícia pediu que as pessoas ficassem em casa por causa dos ataques. Eu mesmo recebi uma recomendação no telefone para permanecer em casa. As pessoas estão preocupadas, claro. Tivemos ataques fortíssimos há duas ou três horas, com muita fumaça e poeira. As explosões são muito fortes. As pessoas não saem às ruas. Estão esperando para ver o que vai acontecer. A grande pergunta é: até quando vão os ataques e a quem será entregue o poder?
O senhor mencionou o risco de um vazio de poder. Que cenário o preocupa mais nesse contexto?
Nós sabemos que não existe vazio de poder. Mas mataram lideranças. Se acontecer como o presidente Trump diz — que os que estão armados vão depor as armas e terão tratamento digno — isso vale para alguns. Mas e os que não quiserem entregar as armas? E os mais ideológicos? Quem vai tirá-los? A gente lembra do Iraque, quando decidiram acabar com o partido Baath e impedir que seus integrantes trabalhassem para o Estado. Eram pessoas armadas. O resultado foi guerra civil. Foi um desastre. Eu vejo o risco de que estejam levando a sociedade iraniana a uma situação de possível guerra interna, de dissolução, algo que Israel deseja — um Irã enfraquecido na região.
Quantos brasileiros estão hoje no Irã?
Calculamos cerca de 200 brasileiros.
Qual é o perfil dessa comunidade e há brasileiros afetados diretamente pelos ataques?
A maioria são brasileiras ou filhos de brasileiras que foram para o Japão nos anos 1990 e se casaram com iranianos. Muitas são descendentes de japoneses. Depois vieram para o Irã. Têm filhos nascidos aqui. Os filhos homens, principalmente, não podem deixar o país. Então muitas mães dizem que não vão sair, porque os filhos não podem sair. São poucos os casos de assistência direta. Normalmente pedem para avisar familiares no Brasil que estão bem, porque as comunicações foram cortadas. Tem também atletas e treinadores. Um atleta de luta livre veio para treinar equipe aqui, e estamos ajudando para que possa sair. Há também alguns técnicos de futebol.
Há, neste momento, plano de evacuação para brasileiros que desejem deixar o país?
Num primeiro momento, quando começam as bombas, há sempre muitas solicitações. Mas depois as pessoas pensam nas consequências e nos impedimentos. Na guerra dos 12 dias, em junho passado, retiramos cinco ou seis pessoas, geralmente não residentes — empresários, atletas, visitantes. Agora não acredito que haja turistas, porque a situação já vinha escalando e o espaço aéreo está fechado. Não só o do Irã, mas também em países do Golfo. Se for necessário, seria levar até a fronteira para que possam embarcar de outro país.
O senhor vê risco de impacto imediato sobre o petróleo e o comércio internacional?
Quem acompanha sabe o potencial. Ontem houve fechamento do estreito (de Ormuz). Se um petroleiro afundar, ninguém mais passa. As empresas não vão permitir. Isso tem impacto imediato.
