Minas Gerais é o estado com maior número de cidades sob risco de desastres naturais, aponta novo relatório

 

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Nenhuma região do Brasil é mais afetada por desastres naturais causados pela chuva do que o Sudeste, com destaque para Minas Gerais o estado brasileiro com o maior número de cidades sob risco. O dado faz parte do Relatório Anual Estado do Clima no Brasil/2025, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), lançado nesta quarta.

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A tragédia desta semana em Juiz de Fora e Ubá está longe de ser fato isolado. Minas reúne os elementos para a equação do desastre: grande população em área de risco e relevo propício a deslizamentos e inundações. Quando o terceiro elemento, uma forte instabilidade climática acontece, o resultado é morte e devastação devido a deslizamentos, inundações e enxurradas.

Segundo o relatório do Cemaden, dos 853 municípios mineiros, 283 estão mais suscetíveis a deslizamentos, enxurradas e inundações, o que representa perigo para cerca de 1,4 milhão de pessoas.

O clima mudou, mas a forma como governos enfrentam o problema segue a mesma nos municípios brasileiros. Há mobilização depois que as tragédias ocorrem, mas pouco é feito para preveni-las. Exemplo disso é exatamente Minas Gerais: a verba do governo do estado para a prevenção de desastres naturais caiu 96% entre 2023 e 2025.

Os investimentos públicos despencaram, mas os eventos extremos aumentaram, salientam pesquisadores.

_ O que se vê não apenas em Minas, mas país afora, é que se age depois. O dinheiro só aparece com a tragédia. A prevenção é essencial. Salva vidas e custa muito menos do que tentar reparar os danos _ afirma o climatologista José Marengo, um dos autores do relatório e coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden.

Marengo, o climatologista do Brasil com maior número de citações internacionais em pesquisas, enfatiza ainda que a previsão e os alertas melhoraram, mas não adianta avisar, se as pessoas não sabem o que fazer nem têm para onde ir.

_ Alerta sozinho não basta. E no Brasil a vulnerabilidade, isto é, o número de pessoas expostas têm aumentado tanto quanto a ocorrência de extremos. É preciso haver, além da previsão, monitoramento e preparação _ afirma o climatologista.

Ao todo, 1.942 cidades do Brasil estão expostas a riscos associados a extremos de chuva. Somadas, as populações desses municípios chegam a 148,9 milhões de pessoas, sendo que, para 8,9 milhões (6%), há potencial de ocorrência de desastres naturais.

No Brasil, desastres climáticos causados por chuvas mais do que triplicaram nas últimas décadas. O relatório ressalta que as mudanças climáticas estão intensificando tanto eventos de chuva extremos quanto períodos de seca.

_ Realmente choveu demais em Juiz de Fora. A cidade é um caldeirão que concentra calor e umidade, ingredientes das chuvas torrenciais. Mas isso não é novidade. Esses eventos, porém, estão mais frequentes, assim como cresce o número de pessoas em áreas de risco. O impacto das chuvas desta semana foi imenso justamente devido à aglomeração urbana _ acrescenta Marengo.

O relatório diz que o ano de 2025, sem El Niño, não foi tão severo quanto 2024, ano do mais extenso desastre por chuvas no Brasil, quando o Rio Grande do Sul ficou com a maior parte de seu território inundado.

Ainda assim, em 2025 ocorreram numerosos eventos de chuvas extremas, com enchentes, alagamentos e deslizamentos em grandes centros como São Paulo, Belo Horizonte, Recife, cidades da Zona da Mata de Minas Gerais e do Sul do país, gerando mortes, desabrigados e grandes prejuízos.

Os danos materiais chegaram a R$ 2,9 bilhões e os prejuízos econômicos, a aproximadamente R$ 3,9 bilhões, concentrados sobretudo nas regiões Sudeste e Sul.

A chuva não foi o único tipo de extremo a atingir o Brasil em profusão em 2025. Secas, ventos devastadores e ondas de calor também causaram sofrimento, transtornos e prejuízos. “Todos fortalecidos por padrões climáticos extremos associados ao aquecimento global e à variabilidade natural do clima”, diz o relatório.

A média dos últimos três anos (2023-2024-2025) registrou temperaturas mais de 1,5C acima dos níveis pré-industriais.

A chuva chama a atenção, mas seca imperou no Brasil. Grande parte do país entrou em estiagem ainda no início de 2025, com forte impacto em queimadas, pressão sobre a saúde pública, energia e agricultura.

E, “após uma leve melhora, a irregularidade da estação chuvosa de 2025/2026 intensificou novamente a seca hidrológica em diversas bacias”, aponta o relatório do Cemaden.

Em relação ao impacto no setor elétrico, as bacias do Rio Paraná, do São Francisco e do Tocantins-Araguaia foram as mais afetadas. E o Sistema Cantareira atingiu os níveis mais baixos já observados desde a crise de 2014-2015 (19-20% em janeiro 2026), reflexo do clima e de retiradas de água 24% e 30% acima da média nos anos de 2024 e 2025, segundo a análise.

E, a despeito do fevereiro chuvoso em boa parte do Sudeste, os reservatórios não devem se recuperar, alertam Marengo e o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador de Operações do Cemaden e também coautor do relatório.

Além do grande déficit hídrico, um dos motivos é que as chuvas torrenciais concentradas escoam mais depressa do que a necessidade de absorção pelo lençol freático. Além disso, não tem chovido o suficiente nas cabeceiras das bacias.

Outro extremo presente durante todo o ano de 2025 foi o calor. O ano passado teve sete ondas de calor severo, três a menos que 2024, marcado pelo El Niño, ainda assim, mais do que a média anterior aos anos 2000.

A análise do Cemaden também destaca desastres causados pelo vento, que tem se intensificado no Brasil. O relatório cita a intensa sequência de tornados e ciclones extratropicais que afetou o Sul entre novembro e dezembro de 2025. Destaca o tornado de novembro no Paraná, com ventos estimados entre 333 e 418 km/h. E também os ciclones extratropicais que provocaram rajadas de vento intensas entre o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro.

“Esses eventos evidenciam a necessidade de sistemas de alerta mais robustos, bem como de ações de adaptação e de resiliência climática em todos os níveis de governo”, conclui o relatório.