Milton Hatoum sobre livro que retrata tragédia de Brumadinho: ‘A dor nunca acaba, mas pode ser ressignificada’

 

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No livro “Brumadinho: Espaços e tempo da memória”, arquitetura, fotografia e literatura se unem a fim de evocar a imagem. Com texto do escritor Milton Hatoum, o mais recente integrante imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), a obra leva os três fazeres artísticos a outro ponto em comum: a memória. Neste caso, especialmente à das vítimas do rompimento da Mina Córrego do Feijão, ocorrido em 2019 na cidade de Brumadinho, em Minas Gerais.

Em entrevista ao Estúdio CBN nesta quarta-feira (6), Hatoum falou sobre como as três artes se unem para retratarem o Memorial Brumadinho, criado justamente para a preservação de tais histórias.

“Um álbum de fotos nos conduz a lembranças do passado. A literatura fala do passado porque basicamente se inspira nele para reverberar no presente. E a arquitetura, embora seja uma obra do presente, no caso do memorial, se refere ao passado das pessoas que perderam suas vidas, à dor, ao luto”, diz.

Capa do livro 'Brumadinho: Espaços e tempo da memória'

Divulgação

Além do texto do autor imortal, o livro conta também com imagens do fotógrafo Leonardo Finotti. Enquanto isso, a construção do memorial em si é de responsabilidade do arquiteto Gustavo Penna.

O Memorial Brumadinho foi inaugurado em janeiro de 2025, na própria cidade, e é tido como uma conquista coletiva das famílias das 272 vítimas fatais do rompimento da barragem. Milton conta que esteve no espaço antes e depois de sua inauguração, e descreve a sensação de adentrá-lo:

“A arquitetura, quando é, de fato, muito trabalhada, nos emociona. Quando eu entrei no memorial, eu fiquei muito emocionado. Todos deveriam conhecê-lo, se tiverem a oportunidade. Vão sentir algo solene logo na entrada, que te leva à memória da tragédia. (...) (A arquitetura do Gustavo Penna) é carregada de elementos simbólicos importantíssimos. Muitos dizem que é poética, então eu fui atrás dessa poesia”, divide.

Memória e futuro

Aos 73 anos, Hatoum é um autor conhecido por trabalhar a memória em suas obras. Em seu discurso de posse na ABL, Milton reforçou a importância de suas vivências infantis e de suas lembranças para escrever suas histórias. Agora, a partir da tragédia ambiental de Brumadinho, ele demonstra na obra como a destruição física de lugares pode impactar na construção da memória coletiva – e da dificuldade, sobretudo, de criar-se futuros a partir de tais lembranças.

“O que mais me amargura quando volto à minha cidade, Manaus (Amazonas), é saber que alguns espaços da minha infância já nem existem mais ou que não vão existir para próximas gerações. Não é nostalgia ou saudade, são espaços de memória individual e coletiva”, fala.

Memorial de Brumadinho

Reprodução/Pedro Mascaro/Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Minas Gerais

No livro “Dois Irmãos”, de 2000 – um de seus trabalhos mais famosos, diga-se –, Hatoum coloca a cidade de Manaus como uma personagem, cuja história é contada a partir da decadência e do sentimento de angústia do pai dos irmãos. Na obra, o drama familiar vem acompanhado do drama da cidade, de sua destruição pela especulação imobiliária.

A partir da memória, portanto, Hatoum acredita que possa haver uma reconstrução de uma base para outras histórias, para que tal sabedoria crie novas vivências e fabule novos futuros:

“Sabemos que, para as pessoas que perderam seus parentes ou amigos, a dor nunca vai acabar. Mas ela pode ser ressignificada e, talvez, mitigada. Ela não é uma dor em vão. É isso que o projeto mostra. No fim do meu texto, eu escrevi que ‘a consciência da tragédia de 25 de janeiro de 2019 não deve, nem pode, ser repetida, porque ela é uma forma eficaz de aprendizagem’. Nesse sentido, o memorial cumpre também um elevado papel formador e pedagógico, porque, além de sua beleza estética, ele também é e será sempre um espaço civilizador”, completa.