Milton Cunha relembra sexo com amigas da faculdade: 'Fazíamos até na escada'
Milton Cunha ainda era criança e morava em Belém quando encasquetou de usar uma tanga. “Minha mãe costumava nos levar a uma feira para comprar roupas, e eu, escondido, encontrei um modelo amarelo, altíssimo, cavadíssimo, só com um fiozinho do lado”, recorda-se. “Fomos a um sítio onde havia um igarapé e, quando tirei a bermuda, o mundo parou. Voltamos todos em silêncio para casa, e meu pai picotou tudo com a tesoura, dizendo: ‘Estou fazendo isso para não picotar você’. Eu me lembro de pensar: ‘Bicha, aguenta. Tu vais usar todas as tangas do mundo’.”
Música: Marina Sena fala sobre críticas diretas à carreira e ao relacionamento
Stand-up comedy: Fernando Pedrosa fala sobre humor sem ofensas
Xamã fala sobre vilões: 'Meu desafio agora é fazer um papel sem esses estigmas'
Suportou o tranco até os 19 anos, quando foi-se embora pra “Pasárgada”, onde virou muito mais do que amigo do rei. Aos 63, este ilustre morador de Copacabana, bairro da cidade onde escolheu desfilar o próprio enredo, reina soberano durante a maior festa popular do Brasil — e nos outros dias do ano. Desde que começou a atuar na transmissão dos desfiles das escolas de samba pela TV Globo, em 2013, Milton virou uma das figuras mais queridas do mainstream, com seus bordões “mesopotâmicos”. Sucesso medido pela quantidade de palestras e eventos dos quais participa. “Durmo no avião, no ônibus. Mas sempre quis isso. Até soltar jiboia no Jardim Botânico em campanha pela natureza eu encaro.”
Energia de quem não veio ao mundo a passeio. Formado em Psicologia, Milton trabalhou “de sol a sol” para viver exatamente como planejou. Foi porteiro de boate, produtor de moda, apresentou concursos de miss, atuou como carnavalesco e estudou muito — são três pós-doutorados no currículo, em áreas como História da Arte e Narrativas do Carnaval. Só respirou aliviado aos 30, quando comprou uma quitinete. “Era jovem e lindo, mas não queria saber de sexo e drogas. Minha obsessão era ter um teto”, conta. “Já com casa e carro, disse: ‘Ok, agora é hora do amor’.”
Se faltou o cadinho dos pais, mortos sem que houvesse uma reaproximação, Milton descobriu diferentes formas de afeto desde que chegou ao Rio, entre amizades e casamentos. O mais recente deles é o corretor de imóveis Vitor Moraes, com quem namora há cerca de um ano. “Deixei o amor chegar. Mesmo com a falta desse sentimento lá atrás, tinha consciência de que havia um mundo onde as pessoas me amariam”, diz. Na entrevista a seguir, ele revisita a própria história e analisa os rumos do carnaval.
O GLOBO - Qual é a sua primeira memória carnavalesca?
MILTON CUNHA - Na década de 1960, menininho, ia aos bailes. Os adultos naquele “roda-roda” de salão, se agarrando e se beijando, e eu pensando: “como é sensual esse país do carnaval”. Depois, vi o Salgueiro, com Joãosinho Trinta, pela TV, ainda em preto e branco. Quando cheguei ao Rio, em 1982, era o ano de “Bum, Bum Paticumbum”, da Rosa Magalhães e da Lícia Lacerda. Em 1984, ao ver a inauguração do Sambódromo, pensei: ‘Quero desfilar nesse palco!’.
Já disse ter vivido uma infância marcada pela violência, mas há essa ideia de que o carnaval “alivia” as dores. Foi assim com você?
Eu me intrigo demais com a frase “o carnaval é ópio do povo”. Um espírito sofrido não pode passar por esse portal de confete e serpentina sem que tenha, antes, resolvido a dor. Se não, isso vai segurá-lo e você não vai viver. Acredito mais em: “Você apanhou, foi ruim, mas acabou. Divirta-se, mesmo cheio de cicatrizes”.
E quando entendeu que o mundo seria violento?
Quando senti a solidão: o pai não gostava de mim, assim como a mãe, o vizinho e a diretora do colégio. Era uma unanimidade do desamor. Os meus pais diziam: ‘Se você for de outro jeito, se for homem, falar como homem, vamos amar você’. Ao mesmo tempo, os amigos do meu pai que eram exemplo de hombridade, na verdade, esfregavam as pernas na minha coxa por baixo da mesa. Essa solidão me fez perceber o grande teatro social e me lançar na luta sabendo que só podia contar comigo mesmo. Passei a infância querendo dizer “eu te amo”, mas não havia a quem.
Mas isso não parece ter feito de você uma pessoa com dificuldade para se relacionar.
Fui casado por 15 anos com o Eduardo, estou agora há mais de um com o Vitor. Também fui casado com o Túlio, com o Fernandes. Tive casamentos grandes. Descobri que a chave é deixar o amor, o bem, as pessoas bacanas chegarem perto.
O que a memória dos seus pais representa hoje?
O que mais tinha pavor era de ser como eles, de virar o “normal”. Faleceram nessa prisão, numa estrutura que não os levou a experimentar a felicidade. Então, me organizei para um futuro feliz.
Como é a relação com os seus três irmãos?
O Marcelo, que também é gay, eu trouxe para cá, depois de ser esmigalhado pela louca da mãe. É o meu melhor amigo, meu amado. Os outros dois estão em Belém cuidando das coisas da “tradicional família brasileira”. São pessoas desconhecidas que nunca decifrei. Fico olhando toda essa caretice e acho uma coisa de outro planeta. Adoro gente que tem tesão em homem, mulher, árvore, elefante, girafa... Pessoas que estilhaçam o paradigma.
Já transou com mulheres?
Na faculdade de Psicologia, as garotas eram “prafrentex”. Diziam: “Vamos transar?”. Respondia: “Sou veado, gosto de homem, mas vamos”. Transei com várias. Éramos tão doidos que fazíamos até na escada. Mas não era a minha.
E como tem sido viver um novo relacionamento?
Quando amadurecemos, percebemos que o mais importante é uma pessoa ao lado, curtindo. Então, estou escolhendo meus companheiros pelo bem que me fazem e não pelo sexo, que tem seu momento, é claro. Depois dos 60, você já gozou de todos os jeitos. E também estou depois do “Cabo da Boa Esperança”. Mas é com o Vitor que quero envelhecer e continuar rindo.
De todo modo, você parece estar no auge.
Estou indo para 64 daqui a um mês, mas sobrou muito do menino dentro de mim. Esse frescor me acompanha.
Ainda assim, existe algo que o assusta?
Uma legislação que seja tirânica em relação ao meu desejo. Se o ICE pode me bater e me jogar numa lata de lixo, isso me assusta muito. Morro de medo dessa alegoria de poder.
E há um avanço do conservadorismo no mundo. Qual o papel do carnaval nesse contexto?
É um momento muito importante de crítica social. As escolas estão com os enredos cada vez mais antenados, sobretudo com os verdadeiros criadores desse legado, que são os pretos periféricos, sendo homenageados. Também há muitos enredos valorizando a força feminina, o matriarcado.
Ao mesmo tempo, há apenas uma carnavalesca nos dois principais grupos de agremiações do rio.
Isso é um problemaço. Mas o mundo das escolas é um microcosmo do mundo real. Todos os problemas estão lá: o machismo, os presidentes brancos e heterossexuais. Há poucas presidentas, assim como presidentes negros e nenhum assumidamente LGBTQIAPN+. Hoje, temos seis enredistas negras. No meu tempo, não havia nenhuma. Minha esperança é que elas se tornem carnavalescas em algum momento.
Acha hipócrita quando questionam a influência da contravenção no carnaval?
Para falar sobre isso, precisamos voltar a 1968, durante a ditadura militar. As comunidades estavam jogadas à própria sorte, mas bombando no carnaval. Você não tem o braço do Estado ali, mas tem o bicheiro enriquecendo e querendo ajudar. O problema, portanto, é do Estado, que não estava lá. Acho sintomático o caos do carnaval ter provocado o caos da amizade entre a contravenção e o poder.
E como tem acompanhado as mudanças trazidas pelas novas gerações à Sapucaí?
Tem uma meninada com vontade de escutar. Vejo que há uma boa vontade em compreender os enigmas dessa esfinge. São muito criticados e elogiados, mas pegam os pontos e vão resolvendo.
Há quem diga que está mais elitista. Concorda?
O abismo entre as plateias e os desfilantes é gigantesco. Os supercamarotes são um problema. Acho que a solução é dar metade dos convites aos sambistas. Nos ensaios técnicos, a mistura é total. Estão lá as vedetes, as putas, os veados e eles, os senhores. Acho que vão ter que levar esse modelo de mistura para os desfiles. Vai ser mais quente em vez de ter só gente tirando selfie.
