O governo do presidente Javier Milei tratou como interferência estrangeira a visita do deputado federal André Janones (Rede-MG) à Argentina. Janones desembarcou em Buenos Aires na segunda-feira 2 para explicar a dirigentes peronistas as técnicas digitais que ajudaram a reeleger Luiz Inácio Lula da Silva em 2026, segundo a Veja.
A visita mexe com a eleição argentina de outubro de 2027 e expõe uma contradição no discurso do próprio Milei. Santiago Caputo, assessor político de Milei, é apontado pela revista Veja como articulador da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil rumo aos Estados Unidos, com passagem por Puerto Iguazú.
O coro contra o brasileiro Milei passou a segunda-feira republicando no X, antigo Twitter, mensagens que atacavam a visita.
Uma delas dizia que “o peronismo está tão perdido que precisa pedir aos brasileiros que o ensinem a fazer uma campanha eleitoral”. O diretor do Banco de Investimento e Comércio Exterior da Argentina (Bice), Felipe Núñez, chamou os visitantes de “100% lobotomizados”.
O influenciador Daniel Parisini, conhecido como Gordo Dan, afirmou que “já faz 20 anos que os esquerdistas denunciam o entreguismo e a interferência estrangeira”. O chanceler Pablo Quirno escreveu que a visita era “mais cantada que Despacito”, numa referência ao hit do porto-riquenho Luis Fonsi.
A conta Escola Austríaca de Economia falou em “campanha suja” comandada por “mercenários” brasileiros, post também replicado pelo presidente. O hit de Luis Fonsi é de 2017.
A piada do chanceler sugere que a aproximação entre as esquerdas dos dois países é antiga e previsível. Milei e aliados repetem a palavra “interferência” para ligar o peronismo a interesses de fora.
A suspeita de operação clandestina em território argentino, no entanto, recai sobre o próprio gabinete presidencial. O que Janones foi ensinar
Janones ficou conhecido na campanha de 2026 pelo canal de WhatsApp batizado de “Exército do Lula”, onde distribuía “missões” para eleitores cumprirem no ambiente digital. A criação do canal está entre as ações mais eficazes da campanha de Lula.
O método foi copiado por setores peronistas e por forças de esquerda na França e na Espanha. Massa, Kirchner e a eleição de 2027
Antes de entrar na TV argentina, o deputado se reuniu com Sergio Massa e com Cristina Kirchner. Massa foi ministro da Economia, disputou a presidência contra Milei em 2023 e é um dos nomes cotados para a eleição de 2027.
Kirchner governou o país de 2007 a 2015 e hoje cumpre prisão domiciliar por corrupção. A presença dos dois transformou a viagem do deputado em gesto político de apoio à oposição peronista.
A Argentina vai às urnas em outubro de 2027, na primeira eleição presidencial depois da vitória de Milei em 2023. A viagem ocorre às vésperas da posse de Lula para o quarto mandato, em janeiro de 2027.
A aproximação reacendeu a acusação, repetida por Milei sem provas, de que Lula teria financiado a campanha de Massa em 2023. O argumento se apoia na presença de publicitários ligados ao PT na equipe do peronista, que também tinha profissionais de outros países.
No mesmo dia, Santiago Caputo publicou uma mensagem que não citava Janones pelo nome. “Não importa quantas ferramentas tecnológicas você tenha à disposição”, escreveu, antes de dizer que uma mensagem ruim não se salva com tecnologia.
Caputo é apontado pela revista Veja como um dos articuladores da fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, com passagem por Puerto Iguazú, na fronteira argentina. A operação teria sido montada às escondidas, contra decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
É a mesma acusação que Milei e seus aliados dirigem a Janones, só que invertida. O governo argentino grita interferência estrangeira enquanto seu principal assessor é apontado como articulador de uma saída clandestina para burlar a Justiça brasileira, em território argentino.
O economista Pablo Wende ironizou a acusação contra Lula. “De jeito nenhum um estadista desse porte vai interferir em uma eleição no exterior”, escreveu, em post também compartilhado por Milei.
Deputados de oposição no Congresso argentino protocolaram pedidos de informação sobre a visita e sobre o uso eleitoral da estrutura do governo. O episódio deve voltar ao noticiário nas próximas semanas, a menos de um ano da eleição de 2027.
O método do “Exército do Lula” entra na campanha argentina de 2027. O governo Milei ainda terá de explicar por que o rótulo de interferência vale para um deputado brasileiro e não para o assessor apontado na fuga de Flávio Bolsonaro.
Cafezinho