'Milagre', surdez temporária, pet desorientado: moradores relatam choque após explosão no Jaguaré

 

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O mecânico Edmilson Marques, 60, estava deitado em casa quando, por volta das 16h, ouviu o estrondo causado pela explosão na Rua Doutor Benedito de Moraes Leme, no Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo. Da varanda da residência, localizada na rua acima do epicentro, ele viu os imóveis desabarem e tentou ajudar vizinhos presos nos escombros.

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— Quando tudo veio abaixo, aquela TV ali ainda estava ligada, e eu fiquei preocupado porque eu sei que os gêmeos, duas crianças, moravam ali — contou, apontando para um aparelho parcialmente soterrado. — Eu gritei e gritei, mesmo sem ouvir nada, tentando achar as crianças, mas graças a Deus elas estavam na escola.

Segundo ele, o impacto foi tão forte que ficou temporariamente surdo até perto das 22h. Da varanda, chegou a jogar uma escada para tentar ajudar um vizinho, mas o resgate só foi concluído após a chegada do Corpo de Bombeiros.

Edmilson recusou a ida para hospitais e também não quis passar a noite em um hotel pago pelo poder público, preferindo ficar na casa de uma irmã. Sem previsão para retornar ao imóvel, afirma que pretende usar o auxílio emergencial prometido para comprar alimentos.

— Eles disseram para ninguém mexer em nada. Algumas pessoas já receberam o auxílio que prometeram, como a vizinha do lado e a de cima, mas por enquanto não caiu nada na minha conta.

A dona de pet shop Edina Rosendo, 40, também escapou por pouco de ser ferida. Ela estava na cozinha de casa, a menos de 60 metros do ponto da explosão, mas saiu do cômodo instantes antes de a janela estourar.

— Na hora você nem entende o que está acontecendo. Foi um milagre eu ter saído da cozinha bem naquela hora. Mesmo assim, fiquei tirando um monte de caco de vidro da cabeça depois. A sorte foi que não machucou.

O filho dela também estava na escola no momento da explosão. O cachorro da família ficou desorientado, mas não sofreu ferimentos. Na cozinha, móveis ficaram depredados e a janela de metal foi totalmente dobrada pela força da explosão.

Tanto ela quanto Edimilson disseram que após a explosão, uma labareda de fogo ficou acesa no lugar por onde escapou o gás.

Protestos e cheiro de gás

Alguns moradores receberam com hostilidade as equipes da Defesa Civil, da Sabesp e da Comgás que acompanhavam os trabalhos de vistoria na região nesta terça-feira. Reunidos próximos ao local da explosão, cobraram rapidez na análise estrutural dos imóveis para conseguir retirar documentos e pertences pessoais.

A ausência de prazos para conclusão dos laudos também aumentou a tensão entre os moradores, que ainda não sabem quem será responsável pela reconstrução das casas destruídas e nem quando elas vão ficar prontas. De acordo com um representante da Comgás, cada caso será avaliado de maneira individual.

Segundo relatos de moradores, o cheiro de gás já era percebido por volta do meio-dia desta segunda-feira. O tenente Maxwell Souza, da Defesa Civil, afirmou que a informação será considerada no inquérito sobre o caso, mas disse que, neste momento, a prioridade das equipes é a assistência às famílias e a avaliação das estruturas atingidas.

Bruno Dalcomo e Samanta Souza, representantes da Comgás e da Sabesp no local, evitaram comentar possíveis causas da explosão. Ambos afirmaram apenas que as empresas atuavam em conjunto no atendimento da ocorrência e reforçaram que o auxílio de R$ 2.000 seria aumentado para R$ 5.000. De acordo com Samanta, 194 pessoas foram cadastradas e estavam elegíveis a receber a quantia de maneira imediata.

O acidente destruiu ao menos dez casas e afetou outras 35 residências. Um prédio vizinho, com 320 apartamentos, teve janelas destruídas pela força da explosão.

Ao menos 160 pessoas ficaram desalojadas, e 73 famílias já foram cadastradas pelas equipes da prefeitura e do governo estadual. Destas, 61 passaram a noite em um hotel custeado pela Sabesp, em Osasco.

A explosão aconteceu na tarde desta segunda-feira (12), durante uma obra de remanejamento de tubulação realizada pela Sabesp. Segundo a companhia, funcionários trabalhavam em uma rede de água quando houve o “atingimento de uma rede de gás”. A empresa informou que acionou a Comgás e interrompeu imediatamente a obra.

“Durante a mobilização da equipe técnica para realização do reparo, ocorreu a explosão. As causas da ocorrência estão sendo apuradas pelas empresas e pelas autoridades competentes”, afirmou a Sabesp, em nota. A companhia acrescentou que sua prioridade é “prestar todo o apoio necessário às vítimas, moradores, comerciantes e demais pessoas impactadas”.

A Comgás informou ter recebido um chamado de vazamento no local por volta das 15h, provocado por uma “obra de terceiros”, e afirmou que enviou equipes para eliminar o vazamento. “A concessionária esclarece que não realizava manutenção no local”, disse a empresa.

Além da morte do vigilante Alex Sandro Fernandes Nunes, 49, outras três pessoas ficaram feridas. Osmar Braz Henrique, 55, sofreu uma fratura no cóccix e foi internado no Hospital Universitário da USP, com alta ainda nesta terça-feira. Já Fernando Silva da Cunha, 33, funcionário da Sabesp, foi transferido para o Hospital das Clínicas, onde deve passar por cirurgia. Francisco Silva está entubado, em leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), no Hospital Regional de Osasco, e esta com quadro estável, segundo as autoridades.

De acordo com a Defesa Civil, a família de Alex Sandro pediu que o corpo fosse levado para Minas Gerais, onde será enterrado. O translado deve ser custeado pelas empresas envolvidas.