Mil dias depois dos ataques de 7 de Outubro, israelenses homenageiam vítimas e exigem comissão de inquérito

Mil dias depois dos ataques de 7 de Outubro, israelenses homenageiam vítimas e exigem comissão de inquérito

Fonte: Bandeira



Mil dias depois do maior ataque sofrido desde a criação de Israel, quando o grupo palestino Hamas deixou 1,2 mil mortos, a quinta-feira foi marcada por homenagens às vítimas e por pedidos pela abertura de uma comissão de inquérito destinada a esclarecer as falhas que permitiram o massacre e, especialmente, atribuir responsabilidades.

Os ataques de 7 de outubro de 2023 desencadearam eventos ao redor do Oriente Médio, incluindo guerras em Gaza, Líbano e Irã, com impactos duradouros.

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No início da manhã, mesmo horário em que os milicianos do Hamas invadiram o território israelense vindos da Faixa de Gaza, centenas de pessoas se reuniram em 50 locais ao redor do país para as primeiras homenagens.

Em Tel Aviv, a principal concentração ocorreu na chamada Praça dos Reféns — ali, as famílias das 251 pessoas capturadas durante os ataques se reuniam regularmente para pedir ao governo seu retorno imediato.

Deles, 168 retornaram para casa com vida.

— Fiquei retido em Gaza por dois anos inteiros.

Estamos marcando mil dias, mas, para mim, foi uma eternidade.

Vivi mil vidas em mil dias — disse Rom Bravlaski, que ficou em poder da Jihad Islâmica por mais de dois anos, em um discurso no qual lembrou do trauma do cativeiro da “guerra pessoal” enfrentada na reabilitação.


Em paralelo às homenagens às vítimas e aos que sobreviveram, o tom era de revolta com o que muitos veem como a maior falha de segurança da História do país.

Um fracasso colocado na conta do premier, Benjamin Netanyahu.

— Aqueles que, durante anos, se venderam como “Sr.

Segurança” acabaram se revelando o “Sr.

Fracasso” disse Einav Zangauker, mãe da refém Matan Zangauker, que passou dois anos em Gaza.

— Estamos pagando o preço desse fracasso há mil dias.

Polícia israelense prende manifestante em via expressa de Tel Aviv

Jack GUEZ / AFP

Entre os cartazes, havia cobranças pela criação de uma comissão de inquérito para determinar onde o Estado falhou no dia 7 de outubro de 2023, quem foram os responsáveis por esse fracasso e como evitar que ações semelhantes ocorram no futuro.

Em fevereiro, o governo publicou um documento no qual Netanyahu tenta repassar a culpa para outros integrantes do aparato de segurança, mas sem criar a uma comissão de inquérito — na ocasião, rivais o acusaram de tentar esconder a verdade.

— O que mais pesa para mim é o fato de que, mesmo agora, 1.000 dias após o evento, ainda estamos no meio dele, e o que poderia ter sido feito para chegar a algum tipo de desfecho não foi feito — disse à AFP Dina Hertz, moradora de Jerusalém.

— Refiro-me a uma verdadeira comissão de inquérito, à real assunção de responsabilidade, a tirar conclusões concretas e a um verdadeiro sentimento de vergonha e dor por parte daqueles que estavam à frente do sistema em 7 de outubro.

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Houve protestos em outros pontos de Tel Aviv.

Na via expressa Ayalon, cenário recorrente de atos contra Netanyahu, manifestantes bloquearam as pistas e oito pessoas foram presas após confronto com as forças de segurança.

Do lado de fora do quartel-general das Forças Armadas, famílias de reféns acusaram o Estado de abandoná-las à própria sorte e de ignorar os próprios erros.

— Em vez de enfrentar a falha que levou ao desastre, o foco está em se eximir da responsabilidade por ele — disse à multidão em Tel Aviv Ofri Bibas-Levy, que perdeu três parentes nos ataques.

— A consciência de que o meu país, o país deles, que era responsável pela sua segurança, não priorizou trazer Shiri, Ariel e Kfir de volta com vida quando isso ainda era possível, jamais me abandonará.

Tendas montadas sobre as ruínas da Cidade de Gaza

Omar AL-QATTAA / AFP

Mais do que deixar à mostra a vulnerabilidade de Israel, os ataques provocaram turbulências de grande porte ao redor do Oriente Médio nestes últimos mil dias, com acusações de genocídio, mudanças estratégicas de forças e uma nova e permanente aura de instabilidade generalizada.

Na Faixa de Gaza, alvo primário da resposta israelense ao Hamas, os três anos e meio de guerra devastaram o território palestino, com 73 mil mortos, centenas de milhares de feridos e uma crise humanitária que persiste mesmo em meio a um cessar-fogo frágil e constantemente violado.


As acusações de genocídio foram corroboradas por especialistas da ONU, historiadores e até políticos israelenses, servindo como base a um processo na Corte Internacional de Justiça e causando abalos políticos em escala global.

Hoje, as tropas de Israel controlam 80% do território, e os planos de reconstrução seguem em aberto.


Os ataques e a Guerra serviram como estopim para novos enfrentamentos entre Israel e Hezbollah no Líbano, que atualmente tem 20% de seu território sob ocupação israelense, e prepararam o terreno para um confronto que se pronunciava há quase cinco décadas: em 2024, israelenses e iranianos trocaram os primeiros ataques aéreos, ampliados em 2025 e que se tornaram uma guerra total em fevereiro, agora com a participação americana.


Motoristas em via expressa de Teerã, em meio a bombardeios dos EUA e Israel

ATTA KENARE / AFP

Um conflito que levou ao inédito fechamento do Golfo Pérsico, que acabou com a imagem de estabilidade das monarquias árabes da região e que, embora sob cessar-fogo, parece pronto para ser reiniciado: segundo o analista Trita Parsi, a liderança do regime em Teerã — que segue no poder, mesmo depois dos bombardeios — dá como certa a retomada dos ataques de Israel em outubro, quando estão previstas as eleições no país, nas quais Netanyahu tentará se manter no poder.


Parsi lembra que o premier israelense é contra um acordo entre americanos e iranianos, e fará o possível para garantir que o plano fracasse.

Afinal, pesquisas revelam que seus potenciais eleitores também não aprovam o apaziguamento com Teerã.

“As motivações de Netanyahu são claras.

Além de seu desejo de longa data de utilizar a força americana para submeter o Irã à dominação israelense e alcançar um equilíbrio regional favorável a Israel, ele agora também tem razões políticas e pessoais contundentes para reiniciar a guerra”, conclui Parsi, em artigo publicado em seu Substack nesta quinta-feira.