Microsoft mostra novo chip quântico feito com ajuda de IA, mas não supera desconfiança de cientistas

Microsoft mostra novo chip quântico feito com ajuda de IA, mas não supera desconfiança de cientistas

Fonte: Bandeira



A Microsoft revelou nesta terça (2) a segunda geração de seu chip quântico em um tentativa de superar os questionamentos da comunidade científica que surgiram no trabalho anterior. Com o Majorana 2, a gigante afirma ter melhorado a estabilidade do processador com ajuda de inteligência artificial (IA), mas muitas das dúvidas em torno da pesquisa permanecem.

Quando lançou o Majorana 1, no ano passado, a Microsoft chamou a atenção ao afirmar que havia criado qubits a partir de uma quasipartícula chamada férmions de majorana. Em tese, essas partículas mantêm o chip estável ao apresentar propriedades topológicas, um termo emprestado da matemática que indica materiais que se deformam, mas que mantém suas propriedades. Assim, a companhia aposta em qubits topológicos para proteger o estado quântico do processador.

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Na computação quântica, as informações são armazenadas e processadas por qubits, ou bits quânticos. Ao contrário da computação clássica de PCs e smartphones, cujo bit pode ser processado por 0 ou por 1, o qubit expressa o 0 e o 1 ao mesmo tempo por um fenômeno chamado superposição. Porém, os qubits são muito instáveis e a grande corrida da área é desenvolver dispositivos livres de erros — entre os grandes nomes, a Microsoft é a única a apostar em qubits topológicos.

No entanto, a companhia nunca conseguiu provar ter encontrado os férmions de majorana. O artigo científico publicado na revista Nature que deveria provar a existência da partícula trazia a seguinte mensagem dos editores: “A equipe editorial gostaria de ressaltar que os resultados deste manuscrito não representam evidência da presença de modos zero de majorana nos dispositivos relatados. O trabalho foi publicado para apresentar uma arquitetura de dispositivo que pode permitir experimentos de fusão usando futuros modos zero de majorana”.

Com o Majorana 2, a Microsoft diz ter ampliado o tempo do estado topológico dos qubits, indo de 12 milissegundos para até 20 segundos, melhorando em mais de mil vezes o período de estabilidade, que permite a realização das operações quânticas. A companhia disse que em alguns testes foi possível superar a marca de um minuto.

Segundo a Microsoft, isso foi possível ao trocar alguns dos materiais usados na construção do chip, que substituiu o alumínio por chumbo, além de usar uma combinação de arseneto de índio e antimoneto de arseneto de índio na região ativa semicondutora. Assim, a companhia afirmou que espera ter um computador quântico funcional, livre de erros, a partir de 2029 — é o mesmo ano em que a IBM imagina que terá em funcionamento o processador Starling, que prometer ter 200 qubits lógicos e ser capaz de solucionar mais de 100 milhões de operações quânticas.

A Microsoft disse que o avanço foi possível ao integrar inteligência artificial (IA) durante o processo de pesquisa por meio de uma nova plataforma científica, chamada Microsoft Discovery. Os algoritmos testavam combinações de materiais, diferentes voltagens e suas possíveis consequências para todo o projeto .

“O uso de IA agêntica para automatizar as medições foi um divisor de águas. Ela faz alguns cálculos e começa a perguntar: ‘Qual é o ponto mais baixo em que tudo ainda funciona de forma adequada?’. E consegue realizar todos esses ajustes de voltagem em paralelo, algo que um ser humano não consegue fazer. Pela forma como nossa mente funciona, tendemos a trabalhar de maneira mais linear’, afirmou Chetan Nayak, pesquisador da Microsoft no projeto.

Apesar disso, a dúvida sobre os qubits topológicos permanecem, como explica o GLOBO Ivan Oliveira, pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas:

— Já é a segunda versão de um chip quântico que eles lançam sem uma demonstração clara de implementação de algum protocolo. Até que isto seja feito (execução de chaves lógicas de 1 e 2 qubits, pequenos algoritmos, como emaranhamento, etc.), a comunidade vai continuar desconfiada. O férmion de Majorana sequer foi demonstrado experimentalmente além da dúvida, o que requer a reprodução dos experimentos por vários. Ou seja, há dúvidas mesmo sobre a existência desta partícula.

À revista Science, Sergey Frolov, professor da Universidade de Pittsburgh (EUA) que é crítico à Microsoft, afirmou: “O projeto Microsoft Quantum segue um padrão persistente de alegações pouco confiáveis, portanto as novas afirmações não são surpreendentes”.

A pressa pela corrida da computação quântica se explica sob a perspectiva econômica. Caso se tornem realidade, essas máquinas podem alterar profundamente diversos setores, como pesquisa de materiais, medicina, logística, energia e mercado financeiro. No fim de maio, o governo Trump anunciou que vai conceder subsídios de US$ 2 bilhões a nove empresas de computação quântica, incluindo participações acionárias do governo americano — a IBM vai receber metade do montante.

Segundo o banco de investimentos Jefferies, o mercado quântico pode se tornar uma oportunidade de US$ 198 bilhões em 2040. Já a consultoria McKinsey, estima que quatro setores (indústria química, ciência, finanças e mobilidade) podem ter um acréscimo de US$ 2 trilhões até 2035 como resultado dessas tecnologias.

— A Microsoft está colocando o pescoço na guilhotina. É difícil acreditar que uma empresa com a reputação dela estaria blefando. Se provar a existência do férmion de majorana , e ainda por cima usar esta partícula num chip quântico de verdade, provavelmente vai ganhar o Prêmio Nobel de Física. Ou seja, só existem dois caminhos para eles: a glória ou a ruína — afirma Oliveira.