O antropólogo e escritor Michel Alcoforado faz sua estreia no teatro com “Coisa de rico: outras histórias”, baseado em seu livro sensação de 2025, “Coisa de rico”.
Mas ele assegura: não é ator.
O carioca de 39 anos buscou na forma da aula-espetáculo, popularizada por Ariano Suassuna a partir da década de 1970, uma referência para se encontrar no palco.
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Após passar por São Paulo com ingressos esgotados, a montagem abre sua temporada carioca hoje, às 20h, no Teatro Axia Casa Grande.
Com Batman Zavareze na direção artística, Alcoforado dramatiza histórias inéditas de “Coisa de rico” e aprofunda conceitos antropológicos já explorados no livro, que vendeu quase 200 mil exemplares.
— A ideia é se aproveitar dessa fronteira entre a aula e o espetáculo para fazer uma imersão profunda na antropologia — diz Alcoforado, colunista do GLOBO.
— Suassuna começava suas aulas-espetáculo dizendo: “Aqui vocês vão encontrar um personagem que é o Ariano Suassuna.” E eu brinco com a mesma coisa, o público vai encontrar um personagem para além daquele que ele já estava acostumado no livro.
Eu ficava repetindo para o Batman: “Não sou ator! Não sou ator!”
Fruto de anos de pesquisa, o livro “Coisa de rico” revela vidas secretas de endinheirados, fazendo um relato etnográfico sobre a elite do país.
Para escrevê-lo, Alcoforado se infiltrou na intimidade do 0,01% mais abastado da população, onde chegou a ficar conhecido como “antropólogo do luxo”.
Embora trabalhe com as experiências do autor ao escrevê-lo, a montagem não pretende ser apenas uma “aba” do livro.
No palco, o antropólogo apresenta aquilo que define como o “teatro da elite”, os produtos de luxo que comunicam status e funcionam como marcadores sociais.
Mas também reflete sobre as próprias transformações pessoais de Alcoforado ao longo da pesquisa, trazendo uma questão central: até onde é possível observar sem participar?
— Esse é um dos conceitos que a gente traz na peça, que é o de observação participante — explica o autor.
— É isso que faz a antropologia diferente de outras ciências.
O antropólogo convive com seus interlocutores de pesquisa, observando tão de perto que ele acaba participando.
Essa participação não quer dizer que você vira um duplo do outro, mas te coloca em um arranjo diferente para pesquisa.
E um dos pontos que mais têm chamado a atenção da plateia é que eu não trago só exemplos de rico.
Falo sobre minha própria experiência como classe média, com aquela vidinha básica.
Michel Alcoforado em cena
Divulgação/ PK Filmes
Monólito e surrealismo
Para Batman Zavareze, o desafio foi explorar o território híbrido entre aula e teatro sem cair na armadilha do didatismo excessivo, e evitando associações óbvias entre palavra e imagem.
O cenário inclui um monólito imponente, de LED de 6m de altura, com o qual o antropólogo interage, e uma profusão de páginas de papel que ele mantém nas mãos durante boa parte da apresentação.
Inspirado no cineasta surrealista Luis Buñuel, o artifício desconstrói a figura do “professor” e introduz instabilidade na narrativa.
— Quando Michel repetia que não era ator, eu fingia acreditar — diz Batman.
— Mas a minha batalha é que ele de certa maneira dialogasse com esse ritual das artes cênicas, sem que perdesse a essência dele.
A ideia é que eu o jogasse num lugar onde ele não navega e ele me trouxesse para um lugar em que eu poderia ficar sem chão.
Acho que essa combinação foi parte do jogo que a gente foi criando para desconstruir o intelectual, o professor, o palestrante, todos esses lugares dos quais Michel tem muito domínio, e fazê-lo entrar em outros sem que ele se perdesse.
A experiência ensinou a Alcoforado um respeito ainda maior pela profissão de ator.
— Quem for só esperando ver o livro “Coisa de rico” vai ser traído — diz o antropólogo.
— Quem for esperando um palestrante vai ser traído.
Quem for esperando um ator vai ser traído.
Porque a lógica minha, daquilo que eu acredito, é aquela frase do Tom Zé: “Eu estou te explicando para te confundir, eu estou te confundindo para esclarecer.”
Michel Alcoforado estreia no teatro com aula-espetáculo baseada no best-seller 'Coisa de rico'
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