Meu visto para os Estados Unidos expirou, e perdi a vontade de renová-lo
Aos 15 anos, surgiu uma oportunidade de eu conhecer a Disney, e me preparei para explorar o mundo das montanhas-russas e jantares com o Mickey. Deu tudo errado. Dias antes de embarcar, a missão naufragou. Fui para a Bahia e nunca mais pensei no assunto. Só viria a conhecer os Estados Unidos já adulta, aos 31 anos, quando pisei pela primeira vez em Nova York.
Era novembro, fazia frio e na segunda noite já estava diante de Woody Allen, que tocava clarinete no Michael’s Pub enquanto fugia dos tabloides famintos pelos detalhes de seu divórcio com Mia Farrow. A música era boa, a comida intragável, e a Manhattan de seus filmes continuava confinada em meu imaginário. Peguei sarna no hotel. Eu tentava, mas os Estados Unidos não estavam sendo cinematográficos para mim.
Talvez eu precisasse percorrer a rota 66 de carro, polir a ponta de um taco de sinuca, dormir em um motel de estrada. Talvez devesse ir até Seatlle, berço do grunge, já que o Nirvana quase me fez esquecer os Beatles e os Stones. Talvez eu devesse trocar os restaurantes moderninhos do Soho por um cachorro-quente com Coca-Cola, mergulhar na poesia de Walt Whitman e na cultura beatnik (essa “viagem” deu mesmo para fazer, só que na sala do meu apartamento em Porto Alegre).
Cheguei a ir até a California, subi e desci as ladeiras de San Francisco, visitei a Universal Studios em Los Angeles e até um terremoto peguei por lá, de madrugada, com lustre do quarto balançando e tudo. Em Honolulu, me senti no “Show de Truman”, parecia que havia um diretor de cena por trás dos dias perfeitamente ensolarados e da música de Elvis Presley tocando em alto-falantes de rua. Subverti Miami: me dediquei aos grafites de Wynwood Walls e voltei para casa sem pagar excesso de bagagem, a arte substituiu o shopping. Estive mais três vezes em Nova York, e só me rendi a ela por completo na última vez, porque insistências costumam ser recompensadas.
Agora meu visto para os Estados Unidos expirou e perdi a vontade de renová-lo. Gostaria de seguir insistindo, pois ainda não conheço New Orleans e adoro jazz.
Tampouco conheço Chicago e seus bares com blues ao vivo. E planejo visitar uma grande amiga que vive em Greenville, em uma linda casa no meio de um bosque. Mas os Estados Unidos estão sob direção de um desatinado que instituiu a arrogância como carimbo de soberania. Com a China em seus calcanhares, está fazendo dos EUA um país rasteiro, delirante, que quanto mais esperneia, mais inferior se torna. God bless? Duvido. Mas, depois de encerrado esse vexame público, Deus, que a tudo perdoa, certamente voltará a abençoar a América. Até lá, continuarei a insistir em Londres e Paris. E sempre teremos a Bahia.
