Meu Jogo: 'Quando a Copa do Mundo se aproxima, é impossível não passar um filme na cabeça' diz Cafu, capitão do penta

 

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Estar em Harvard (participou em março do Brazil Conference) tem um peso enorme para mim, por tudo que a universidade representa academicamente. Sempre acreditei que o esporte é uma das principais ferramentas de inclusão social. Então, vejo muito valor nessa junção entre inteligência e sabedoria, que, para mim, são coisas bem diferentes. Talvez essa tenha sido uma das maiores lições que o futebol me deu: aprender a diferenciar quem é inteligente de quem é sábio.

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Quando a Copa do Mundo se aproxima, é impossível não passar um filme na cabeça. Vivi isso por muitos anos da minha vida. Eu amo a seleção brasileira e sofro como qualquer torcedor. A minha imagem, assim como a de todos que vieram antes de mim, precisa ficar marcada. Uma conquista como a Copa é difícil demais. Mas o meu legado sempre foi mais do que títulos. Sempre procurei olhar para todos com gratidão, humildade, mostrando que, apesar de tantas conquistas, eu não sou melhor do que ninguém.

Cafu, capitão do pentacampeonato mundial da seleção brasileira em 2002

Antonio Scorza/AFP

Sinto saudade das resenhas dos bastidores, da convivência com os amigos. Nada me revolta. Sempre fui ensinado a ser responsável pelas minhas atitudes, e carrego isso até hoje. Não fui criado com regalias, então aprendi desde cedo que nem sempre minhas vontades seriam prioridade. Isso facilita muito a convivência com os outros.

'Minha família é o meu pilar'

Eu carrego dentro de mim o Cafu menino, que sempre soube onde queria chegar. Lembro do cheiro da comida da minha mãe, mesmo quando não tínhamos fartura, dos meus irmãos ao redor da mesa, das nossas travessuras. Minha família é o meu pilar. Meus pais são as pessoas mais importantes da minha vida, e a eles eu devo todo o meu amor e gratidão.

Cafu comemora com Ronaldinho Gaúcho na goleada da seleção brasileira sobre a China na Copa do Mundo de 2002

Greg Wood/AFP

O futebol — ou melhor, o meu amor pelo futebol — mudou a minha vida, a da minha família e a de milhares de pessoas que consigo ajudar por meio dos meus projetos sociais no Jardim Irene (bairro na periferia de São Paulo), onde cresci. Me trouxe reconhecimento, dignidade e muita alegria. Eu viveria tudo novamente. E o que não aconteceu como eu planejei, aconteceu como tinha que ser. A gente não controla tudo na vida, e entender isso facilita muito. Não carrego frustrações, só alegrias. Mas sei que, para chegar longe, é preciso equilíbrio, inteligência emocional. O futebol exige muito foco para lidar com pressão da torcida, da imprensa e da vida pessoal. Sem equilíbrio, é difícil superar as barreiras.

Um líder respeitado

Nunca pensei em uma característica única para ser capitão. Sempre acreditei que o líder precisa dar exemplo: ter disciplina, respeitar o grupo, saber fazer a ponte entre jogadores, comissão e imprensa. Nunca quis ser um líder temido, sempre busquei ser respeitado. Hoje, vejo isso em jogadores como Marquinhos, Danilo e Casemiro.

Festa brasileira após Cafu levantar a taça da Copa do Mundo de 2002

Antonio Scorza/AFP

Tenho uma admiração enorme pelo Ancelotti. Não estamos sempre próximos, mas sempre que posso faço questão de dar um abraço nele. Foi meu treinador por cinco anos (no Milan, da Itália), aprendi muito. É um homem íntegro, de personalidade e caráter. O Brasil tem muito a ganhar com ele. Se eu tiver que resumir minhas referências: como técnico, Telê Santana. Meu ídolo sempre foi meu pai, seu Célio. Como capitão, o Dunga. O maior jogador que vi atuar foi o Pelé. E, pensando na seleção, se estiver 100% fisicamente, é claro que o Neymar não pode ficar fora da Copa".

*Em depoimento ao repórter Diogo Dantas