'Meu ex-marido disse que meu futuro seria de solidão e matou nossos dois filhos", conta a delegada Amanda Souza
Nasci em Teófilo Otoni, Minas Gerais, numa família formada por mulheres e tenho 43 anos. Brincava que vivia na casa das sete mulheres: fui criada pela minha mãe, avó e três irmãs, sou a caçula de quatro meninas. Meu pai biológico sempre foi uma incógnita na minha vida. Dos 4 aos 12 anos, tive um padrasto, um homem bom. Ele, inclusive, me deu seu sobrenome, o que considero um lindo e generoso ato de amor.
Sempre quis sair da minha cidade, ir para o mundo, estudar, me formar. Ser uma mulher independente. Então, com 20 anos, depois de um noivado que não vingou, parti para a capital Belo Horizonte. Uma das minhas irmãs já morava lá, o que facilitou a mudança. Cheguei decidida a arrumar um emprego. Vale ressaltar que a relação com a minha mãe estava longe de ser um mar de rosas. Minha criação foi sempre na base do grito, marcada por muitos castigos físicos, ela me batia de chinelo, pau, o que tivesse na frente. Queria fugir daquilo, do ciclo de violência. Acho que quis virar delegada de polícia para poder proteger mulheres e crianças e evitar que elas passassem pelo abuso que atravessei por anos.
Em Belo Horizonte, logo quando cheguei, conheci meu ex-marido e pai dos meus filhos, o Paulo. Digo que era mesmo coisa de Deus. Eu o encontrei pela primeira vez num restaurante, numa parada que fiz durante o meu longo caminho para o trabalho. Coincidentemente, o ponto de um dos ônibus que pegava ficava na frente da casa em que ele morava.
Foi tudo rápido e intenso. Como passava horas no trânsito e a gente passou a ficar muito junto, por comodidade, fui morar com ele para facilitar o meu trajeto para a universidade, onde atuava no departamento de informática.
A delegada de polícia Amanda Souza
Divulgação
Paulo era dentista, realizava implantes dentários. Tinha 19 anos a mais que eu. Não foi amor à primeira vista. Encontrei nele uma figura paterna. Tinha mais conhecimento do que eu, achei que poderia me dar aquilo que precisava naquele momento: proteção, carinho, cuidado. Com o tempo, estabelecemos uma relação de respeito. Nossa convivência, para mim, era perfeita. Como bom psicopata que era, o primeiro passo que ele deu foi analisar todas as características de sua vítima. No caso, eu. Tratava-me como uma rainha. E estava ciente da minha ambição de ser alguém na vida.
Dentro do papel que representava, ele me deu força para estudar e entrar na faculdade. Por incrível que pareça, Paulo me conferiu todo suporte e incentivo para eu me formar em Direito. Na verdade, vivi 20 anos um relacionamento abusivo sem enxergar a gravidade da situação.
Amanda Souza entre os filhos, Marcelo e Letícia
Arquivo pessoal
A situação foi se agravando dia a dia. Paulo começou a se desmascarar e se mostrar como sempre foi: um homem ciumento e possessivo. Colocou um localizador no meu celular e passou a vigiar literalmente todos os meus passos. Quis o número de todo mundo ao meu redor em Belém. Sofri muita violência psicológica no período em que estava, literalmente, rolando na lama durante o treinamento para me tornar delegada.
Viemos morar numa cidade no Pará, chamada Cametá, perto de Limoeiro, município onde ia trabalhar. Eu, Paulo e nossos filhos. Ele falava que ia tirar a própria vida. Eu sentava, conversava, dizia que precisava de ajuda psiquiátrica. Parou de trabalhar e, apesar do meu esforço, entrou numa espiral obsessiva de ciúme e controle. Não aguentei mais e pedi a separação. Ele foi embora e fiquei com as crianças.
Um belo dia, ligou me pedindo perdão. Mas já tinha premeditado tudo. Voltou alegando que seria só por alguns meses, para dar suporte aos meninos, com 12 e 9 anos à época, enquanto eu trabalhava. Dois dias antes de ir embora para Minas, apresentou um comportamento estranho. Apareceu com uma roupa que nunca tinha usado, pediu receita de calmante para uma médica. No domingo, tranquei a porta do meu quarto de medo. Na segunda, fui trabalhar. Estava na delegacia quando ele me mandou uma mensagem: “Seu futuro será de tristeza e solidão”. Só que eu não abri. A tarde foi caindo e tive a nítida sensação de que algo aconteceria. Às 16h, ele me ligou: “Parabéns, você conseguiu, matei seus dois filhos”. Saí correndo para casa e, ao chegar, me deparei com aquela cena terrível, Paulo, Letícia e Marcelo alvejados. Ele deu um sonífero para Letícia, mas não para o Marcelo. Só penso no meu filho vendo o olhar louco do pai. Fiquei 35 dias monitorada, dentro de um quarto escuro. Fiz muita terapia e fui salva por Deus e pela minha fé.
Dois anos e meio se passaram, mas essa é uma ferida que nunca cicatriza. Paulo disse que meu destino seria a tristeza e a solidão. Mal sabia ele que estaria me dando munição para me manter de pé. Hoje uso meu testemunho para salvar vidas e alertar mulheres. Se o meu sangrar evitar que elas entrem nas estatísticas absurdas de feminicídio e de violência é porque algo valeu a pena.”
Um dos primeiros sinais, detecto hoje em retrospecto, foi quando, num determinado momento, falei que gostaria de ter filhos. Ele já era pai. Disse que topava, mas que não queria ter outro filho que fosse criado longe dele. Lembro-me de ter afirmado: ‘Vamos ter, mas separação está fora de cogitação’. E aí tivemos primeiro o Marcelo, em 2010; quatro anos depois, veio a minha menina, a Letícia. Depois de ter passado na OAB, desacelerei o meu lado profissional e me dediquei totalmente à maternidade. Quando Letícia completou 4 anos, achei que era a hora de voltar e prestar um concurso público. Meu sonho era ser delegada de polícia.
Foram algumas provas e tentativas. Até que, em 2022, consegui, finalmente, passar no concurso na função que tanto almejava. Fui classificada para o estado do Pará. Já nesse período, meu marido começou a soltar frases estranhas. Dizia que eu daria um pé na bunda dele assim que alcançasse meu objetivo profissional. O que poderia ser uma declaração de insegurança pontual virou rotina: passou a ser mais e mais incisivo nessa afirmação. Sou uma mulher justa, jamais faria isso. Mas Paulo cultivou essa certeza de maneira doentia.
Foi nesse clima pesado que parti para Belém, onde precisei fazer o curso de formação por três meses. Em Belo Horizonte, ele me controlava completamente, conhecia todos meus amigos, com quem eu me relacionava. Tinha acesso ao meu WhatsApp. Belém era um território desconhecido para nós dois. Atualmente, vejo que fui uma pipa na mão dele: Paulo me dava corda, mas estava sempre me controlando. Quando era conveniente, puxava ou soltava a linha. Ao se ver sem esse domínio, começou a surtar.
