Mestre Ciça brilha em Niterói, mas é do Estácio: ‘Aqui se formam sambistas e batuqueiros’
No coração do Estácio, há 69 anos, nascia quem hoje assume um título curioso: o de “enredo vivo”. É assim que a mídia, os amigos e até os vizinhos têm se referido a Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça. Na Quarta-Feira de Cinzas, a Unidos do Viradouro conquistou o título do carnaval carioca homenageando justamente seu mestre de bateria. Apesar de a consagração ter vindo pela vermelha e branco de Niterói, Ciça faz questão de lembrar que sua história com o samba começou muito antes, no mesmo lugar onde mora até hoje.
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— De tudo que tinha batucada eu participava, desde criança. O Estácio sempre foi muito boêmio — conta ele, que atualmente mora na Rua Sampaio Ferraz.
A ligação com o carnaval, segundo ele, vem de casa. Filho de uma família já envolvida pela música, Ciça cresceu cercado pelo samba, influenciado pelos pais e, principalmente, pelo irmão mais velho, também músico. Foi ainda na infância que passou a frequentar blocos e escolas de samba, experiência que ele associa diretamente ao território onde se formou.
— Cresci num baluarte. Sempre tive referências de pessoas excepcionais que nasceram ou moraram aqui, como Luiz Melodia, Ismael Silva, Gonzaguinha — enumera.
Ala dos leões no desfile da Viradouro, em homenagem à escola Estácio de Sá, da qual Ciça foi mestre de bateria
Marcelo Theobald /Agência O Globo
Entre todas as influências, no entanto, uma se destaca de forma decisiva.
— A minha maior referência é o meu irmão. Foi ele quem me ensinou tudo, me levou para as rodas de samba, me ensinou a tocar — diz. — A gente brinca que ele cuida de mim e eu cuido dele.
O irmão a quem Ciça se refere é Carlos da Silva Pinto, o Beloba, hoje com 76 anos. A parceria entre os dois, construída ao longo de décadas, ajuda a explicar não só sua formação musical, mas também o vínculo afetivo que mantém com a música no Estácio.
Ao ampliar o olhar para além do bairro, Ciça aponta a Zona Norte como o grande celeiro do carnaval carioca.
— Na Zona Norte você tem Mangueira, Salgueiro, Vila Isabel, Portela. O samba daqui é muito forte, é uma região muito proveitosa em termos de escola de samba — afirma. — Aqui se formam sambistas, batuqueiros, compositores. É uma área muito nobre em termos de carnaval. Você dobra uma esquina e encontra um sambista.
Para ele, essa potência está diretamente ligada às comunidades que sustentam, há décadas, as bases culturais do samba.
— O samba tem suas raízes dentro das comunidades. Além das escolas, existem muitos blocos, muitos clubes. Tudo isso ajuda a formar o sambista — observa.
Quando volta a falar do Estácio, Ciça faz questão de situar o bairro no tempo, reconhecendo as transformações sem perder de vista a memória afetiva do lugar.
— O bairro era fantástico na década de 1970. Não que não seja hoje, mas os tempos são outros — pondera. — Com a chegada do metrô, muita coisa mudou, muita coisa se acabou. Era um bairro que tinha seis bancos; hoje não tem nenhum.
Ainda assim, ele enxerga sinais de retomada, sobretudo na movimentação do comércio e na presença de equipamentos públicos.
— O bairro está melhorando aos poucos. Hoje temos a clínica da família, escolas, o hospital da PM, a clínica da Polícia Civil. O comércio está ativo — afirma. — Agora está sendo construído o consulado americano, ao lado do metrô. Acho que isso tudo vai movimentar o bairro para melhor.
Mesmo otimista, Ciça avalia que o Estácio ainda carece de investimentos mais estruturais.
Mestre Ciça anda pelo bairro Estácio, em que nasceu e cresceu
Marcelo Theobald /Agência O Globo
— Precisa melhorar muito mais. Precisa de supermercado grande, de shopping. E público tem. Falta melhorar socialmente — diz.
Quando o assunto é a preservação da cultura do samba, o discurso ganha firmeza. Para Ciça, manter viva a memória musical do Estácio é um compromisso pessoal.
— Vou sempre lutar pela memória do samba no bairro onde eu moro — garante. — Aqui existe uma musicalidade incrível. Foi aqui que surgiu a primeira escola de samba do Rio, a Deixa Falar, em 1926. Acredito que seja possível reacender essa chama.
Sobre a escola que carrega o nome do bairro, Estácio de Sá, ele demonstra preocupação:
— Espero que ela permaneça.
Nesse contexto, o título conquistado pela Viradouro ganha um significado que vai além da avenida. Para Ciça, a vitória simboliza um passo importante na valorização da história do samba no Estácio.
— Acho que o título valorizou muito essa preservação. O enredo mostra a minha ligação com o bairro, onde também fui mestre de bateria — reflete. — Acho que posso me considerar uma referência, sim. Tenho uma pontinha de ajuda para o pessoal do samba.
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