Mês das Mulheres: quais os desafios das idosas que são mães, avós, e ainda estudam e trabalham
No Brasil de 2026, cada vez mais mulheres acima dos 60 anos acumulam múltiplos papéis: são mães, avós, profissionais e, em muitos casos, estudantes. Neste mês de março, que é considerado o mês das mulheres, a realidade dessas brasileiras evidencia uma transformação social silenciosa, a da longevidade ativa, marcada por autonomia, mas também por sobrecarga e desafios estruturais.
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Entre a rotina doméstica, o cuidado com a família e a permanência no mercado de trabalho ou na sala de aula, essas mulheres enfrentam jornadas duplas ou triplas que impactam diretamente sua saúde física e emocional, e este debate vai além da idade e revela questões culturais profundas, como o etarismo e a expectativa histórica de que a mulher seja o eixo central de sustentação da família.
Para Cinthia Babler Martins, especialista em bem-estar corporativo e desenvolvimento humano, o principal desafio está na sobreposição de papéis. “Mulheres 60+ vivem uma multiplicidade de funções que exige energia física, clareza emocional e, principalmente, uma rede de apoio estruturada. Quando entendemos o ser humano como biopsicossocial, percebemos que essa sobrecarga atravessa diferentes dimensões da vida, inclusive uma gestão emocional invisível, tanto de si quanto da família”, explica.
Já a médica Roberta França, especialista em Longevidade Consciente e Saúde Mental, reforça que o acúmulo de papéis é um dos principais desafios enfrentados pelas idosas. “A maioria continua sendo referência na família, tanto na execução de tarefas quanto no suporte emocional. Muitas cuidam de filhos adultos, netos, parceiros e outros familiares, enquanto mantêm responsabilidades profissionais e acadêmicas”, afirma.
Roberta destaca que, mesmo aos 60, 70 ou 80 anos, persiste o sentimento de obrigação de dar conta de tudo. “Existe uma exaustão silenciosa. Muitas acreditam que suportar essa carga é sua obrigação e não procuram ajuda, e esquecem que também precisam dividir responsabilidades”, pontua.
Cinthia ressalta que o tempo destinado ao autocuidado costuma ser o primeiro a desaparecer diante das responsabilidades, e isso gera autocobrança elevada e angústia constante. “O ponto central não é a idade, mas a cultura! A sociedade ainda espera que a mulher, independentemente da fase da vida, seja a base que sustenta todos ao redor. O grande desafio é reconstruir a própria identidade nessa etapa”, pontua.
Ao analisar os impactos da dupla ou tripla jornada, Conthia utiliza o conceito das sete dimensões da saúde: física, mental, social, cognitiva, espiritual, financeira e profissional. “Fisicamente, são comuns o cansaço crônico, dores musculares e alterações no sono, no campo emocional, surgem sentimentos de invisibilidade, ansiedade, medo de perder relevância e autocrítica intensa. Não é a atividade que adoece, mas a ausência de rede de apoio e reconhecimento. Quando vivida de forma solitária, a tripla jornada leva à exaustão, e com propósito e suporte, pode se transformar em vitalidade”, afirma.
Roberta afirma que a rotina precisa incluir espaço para sonhos e projetos pessoais. “Sem propósito, a vida se torna apenas uma soma de deveres, e isso adoece. A aposentadoria é do trabalho formal, não da capacidade de produzir ou aprender. Não podemos enxergar o envelhecimento como há 30 ou 50 anos”, explica.
O preconceito etário também aparece como obstáculo. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam o etarismo como uma das formas mais naturalizadas de discriminação no mundo. Mulheres acima de 60 anos ainda enfrentam questionamentos sobre capacidade tecnológica, produtividade e o estereótipo de que já deveriam estar aposentadas. Ao mesmo tempo, cresce o movimento da longevidade ativa, impulsionado inclusive por abordagens como a medicina do estilo de vida.
No ambiente corporativo, políticas alinhadas ao conceito de trabalho digno e inclusão etária defendidos pela Organização Internacional do Trabalho são apontadas por Cinthia como fundamentais para transformar a realidade dessas profissionais. Para ela, apoio vai além de ajuda prática. Envolve validação, divisão real de responsabilidades domésticas e respeito aos projetos pessoais da mulher.
Roberta defende que o apoio precisa ser concreto, com divisão clara de tarefas, reconhecimento da necessidade de autocuidado e políticas públicas mais eficazes para mulheres com múltiplas jornadas. “A mudança começa dentro de casa. A organização familiar não pode estar totalmente vinculada a uma única mulher”, ressalta.
Apesar dos obstáculos, Roberta diz que o que motiva tantas mulheres a continuarem estudando e trabalhando após os 60 anos vai além da necessidade financeira. “Autonomia, propósito, pertencimento e a oportunidade de resgatar sonhos adiados são fatores determinantes. Elas não se identificam mais com o estereótipo da ‘vovozinha’ passiva, mas querem continuar vivendo com significado, aprendendo, produzindo e conquistando seu espaço”, conclui a especialista.
