Mês das mulheres: empreendedorismo feminino transforma trajetórias e cria redes de apoio em Niterói
À frente de empresas, projetos sociais ou iniciativas próprias, mulheres de Niterói têm transformado desafios em oportunidades e encontrado no empreendedorismo um caminho de autonomia e crescimento. No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, histórias de empreendedoras mostram como a iniciativa feminina tem ganhado espaço na cidade, muitas vezes impulsionada por redes de apoio e troca de experiências.
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Uma dessas trajetórias é a da jornalista Natália Meato Vinhas, fundadora da N! Comunicação. Após mais de uma década atuando no marketing de shopping centers, ela decidiu mudar de rumo depois do nascimento da segunda filha e apostar no próprio negócio.
— Quando minha filha nasceu, senti que era o momento de fazer uma mudança. Eu tinha um trabalho estável, com um salário bom e do qual eu gostava muito, mas também tinha vontade de construir algo meu, que refletisse a minha visão de marketing e de negócios. Foi uma decisão difícil, porque significava sair de uma zona de segurança, mas ao mesmo tempo muito motivadora — conta.
A empresa foi fundada em 2019 e começou de forma enxuta, com trabalho remoto e apoio de freelancers. Pouco tempo depois, a conquista de novos contratos levou à ampliação da estrutura e à formação de uma equipe própria. Hoje, a empresa reúne dezenas de profissionais e atende 47 clientes fixos, muitos deles em Niterói, em áreas como gastronomia, saúde, arquitetura e moda. A maior parte da equipe é formada por mulheres, incluindo antigas alunas da própria Natália, que deu aula em faculdade de Comunicação.
— Ver essa evolução é uma das coisas que mais me orgulham. Uma aluna que começou como estagiária hoje coordena uma equipe grande dentro da empresa. A gente acaba criando um ambiente de crescimento coletivo, onde muitas mulheres também conseguem desenvolver suas carreiras. Muitas empresas não têm um departamento estruturado de marketing. Então a gente acaba funcionando como esse time, ajudando a pensar o negócio, as metas e como transformar isso em ações de comunicação que tragam resultados de verdade — explica Natália, que no fim do ano passado lançou um novo modelo de serviço inspirado em clubes de assinatura, voltado principalmente para pequenos empreendedores e profissionais liberais.
O grupo Somos Empreendedoras conta com uma rede de 300 mulheres que empreendem em Niterói
Divulgação/Somos Empreendedoras
À frente do grupo Somos Empreendedoras, a empresária Helga Vianna, sócia-diretora da C. Chaves Comunicação e Eventos, acompanha de perto o crescimento do empreendedorismo feminino em Niterói. Há cinco anos na gestão da rede, ao lado de Luciana Poli, Leticia Torzecki e Elaine Sabino, ela viu o grupo quase dobrar de tamanho, passando de 145 para cerca de 300 mulheres, reunindo empresárias, executivas e empreendedoras de Niterói. Criado em 2016 a partir da iniciativa de quatro mulheres interessadas em trocar experiências profissionais, o coletivo se consolidou como uma rede de apoio e geração de negócios baseada em colaboração, networking e desenvolvimento profissional.
—Mais do que um grupo de negócios, o Somos Empreendedoras se tornou uma rede de apoio real. Muitas vezes empreender é solitário, e aqui as mulheres encontram suporte profissional e pessoal, inclusive em momentos difíceis. Ainda enfrentamos desafios em um ambiente empresarial muito masculino e com dificuldade de acesso a crédito, mas quando as mulheres se unem, compartilham experiências e se fortalecem, o crescimento acaba acontecendo de forma natural — afirma.
Após participar de encontros e grupos voltados ao empreendedorismo feminino na cidade, a economista Isabel Abreu também decidiu dar um novo rumo à própria carreira e investir em um negócio seu. Filha de empreendedores, ela cresceu acompanhando de perto a rotina da empresa da família, um provedor de internet na área de telecomunicações. Desde a adolescência, passou por diferentes funções dentro do negócio, do atendimento ao público às áreas administrativa e financeira, experiência que acabou moldando sua visão sobre gestão e planejamento. Hoje, ela atua como consultora financeira, ajudando principalmente mulheres a organizar as finanças e planejar a construção de patrimônio:
— Cresci dentro de um negócio familiar e acompanhei todas as fases da empresa, desde o começo até momentos de crescimento e também de incerteza. Isso me ensinou muito sobre resiliência e sobre o impacto que as decisões financeiras têm na vida de uma família. Quando decidi seguir meu próprio caminho, percebi que muitas mulheres são excelentes no que fazem, dominam seus negócios, mas se sentem perdidas quando o assunto é dinheiro. Hoje meu trabalho é justamente traduzir o mundo das finanças para a vida real, ajudando essas mulheres a organizar suas decisões e transformar renda em patrimônio, com mais clareza e tranquilidade. Participar desses encontros de empreendedorismo feminino me mostrou que a gente não precisa passar por esse processo sozinha. Quando mulheres compartilham experiências e desafios, fica mais fácil ganhar confiança para empreender e crescer.
Após participar de grupos de empreendedoras, a economista Isabel Abreu abriu seu negócio
Divulgação/Caio Corrêa
Impacto social
Outra história marcada pela força do empreendedorismo é a de Tatiane Trindade, fundadora da TT Mídia. Formada em Design Gráfico e Marketing, com MBA em ESG e Marketing Internacional, Tatiane atualmente cursa mestrado em Comunicação e atua como voluntária em projetos de capacitação ligados à Secretaria municipal da Mulher. Nascida e criada na comunidade do Chapéu Mangueira, no Rio, ela começou a trabalhar ainda muito jovem e encontrou no empreendedorismo uma forma de seguir estudando.
— Sempre trabalhei, desde muito nova. Aos 17 anos vendia bala e pirulito em festas e na praia para conseguir pagar meus estudos. Na época eu não entendia aquilo como empreendedorismo, achava que era apenas um bico. Só mais tarde percebi que já era uma forma de empreender. Hoje eu tenho minha empresa e também participo das iniciativas da secretaria ajudando outras mulheres a trilhar esse caminho. A comunicação pode mudar a realidade de muitas pessoas, principalmente quando chega às periferias — destaca.
Ex-aluna, Tatiane Trindade hoje dá aulas no Espaço Empreender Mulher, da prefeitura
Acervo pessoal
Durante a pandemia, após enfrentar um período difícil marcado por uma situação de violência, ela conheceu os serviços da Secretaria municipal da Mulher de Niterói e participou de cursos voltados ao empreendedorismo feminino. A experiência acabou mudando os rumos de sua vida profissional, e hoje ela atua como voluntária dando aulas de marketing e comunicação dentro do Espaço Empreender Mulher, equipamento da secretaria voltado para a capacitação. As atividades também acontecem no Centro Especializado de Atendimento à Mulher (Ceam), braço da pasta que atende vítimas de violência, e incluem ainda capacitação em informática básica, elaboração de currículos e cursos voltados à autonomia profissional, além de iniciativas destinadas a mulheres trans em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos.
— Foi ali que eu entendi a diferença entre fazer pequenos trabalhos e estruturar um negócio de verdade. Com esse apoio consegui abrir minha primeira empresa e reorganizar minha vida profissional. Pelo trabalho de formação e incentivo ao empreendedorismo feminino, recebi no ano passado uma moção de aplausos na Câmara de Niterói. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Mas o mais gratificante mesmo é ver minhas alunas brilhando, criando seus próprios negócios e ganhando autonomia — diz Tatiane.
Celebração à mesa
Na gastronomia, o empreendedorismo feminino também ganha espaço na cidade. A chef Mariana Rebouças é um dos exemplos. Ao lado da sócia Anna Beatriz Castro, ela comanda a marca Ragazza Di Pasta, especializada em massas artesanais feitas na própria casa. Após o sucesso da unidade original, no Centro, as duas acabam de inaugurar em Icaraí a Trattoria Ragazza Di Pasta Al Mare, nova casa da marca, com cardápio de frutos do mar.
— Minha vida profissional, do treinamento com a metodologia Alain Ducasse ao trabalho com o Chef Jérôme Dardillac e em hotéis de luxo, me ensinou que a base de uma grande culinária é o respeito ao ingrediente e à técnica — afirma a chef Mariana Rebouças.
As sócias Anna Beatriz Castro e Mariana Rebouças, que também é a chef do Raggaza di Pasta
Divulgação/Ovelha Negra Studio
Já no Olimpo, em Charitas, empreendedoras que fazem sucesso em suas áreas de atuação foram homenageadas, nesta segunda (9), na edição Destaques Business 2025 do Clube do Vinho Só Para Elas, amanhã. A noite teve como homenageadas Bruna Pinheiro (Italínea Resiliens), Karla Braga (Kfitness), Lívia Amaral (Delí Home), Simone Ronzani (Casa Auguri!) e Verônica Oliveira (Texto&Café).
— Essa também foi uma homenagem a todas que empreendem, superando dificuldades diárias. As homenageadas representam as mulheres que têm determinação para seguir em frente — diz a coordenadora do Clube Só Para Elas, a produtora Cacau Dias.
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