A vitória de Lula para um quarto mandato provocou uma reação histórica nos mercados financeiros brasileiros. A Bolsa chegou a registrar queda de 20%, o dólar disparou, ultrapassando R$ 5,50, e os juros futuros subiram quase dois pontos percentuais.
Trata-se de um movimento de liquidação de ativos brasileiros de proporções raramente observadas, revelando que o mercado financeiro havia apostado fortemente em uma vitória de Flávio Bolsonaro. Na sexta-feira anterior à eleição, o dólar estava próximo de R$ 4,98.
A expectativa predominante era de que um governo mais à direita assumiria a Presidência, promovendo um ajuste fiscal mais intenso, reduzindo gastos públicos e moderando o crescimento das transferências sociais. A vitória de Lula, por uma margem superior a quatro milhões de votos, surpreendeu os investidores e provocou uma revisão abrupta das expectativas.
Mas é preciso separar o pânico financeiro dos fundamentos econômicos. Como dizia a famosa máxima atribuída ao Barão de Rothschild, é preciso comprar ao som dos canhões e vender ao som dos violinos.
Momentos de liquidação generalizada frequentemente criam oportunidades extraordinárias para investidores capazes de manter a tranquilidade. Quem vende desesperadamente pode acabar transferindo patrimônio para quem tem paciência e capacidade de comprar ativos a preços deprimidos.
A questão mais importante, entretanto, não é o comportamento dos mercados em um único dia, mas o desafio econômico que se coloca para o quarto governo Lula. Lula 4 não poderá repetir a estratégia de Lula 3
A principal diferença entre os dois governos está nas condições de funcionamento da economia brasileira. O terceiro mandato de Lula começou em um ambiente de elevada ociosidade, com desemprego ainda significativo e capacidade produtiva disponível.
Havia espaço para estimular a demanda agregada, ampliar transferências de renda, elevar o salário mínimo e incorporar milhões de brasileiros ao mercado de trabalho. Essa estratégia funcionou.
A economia cresceu aproximadamente 3% ao ano, milhões de empregos foram criados, os salários reais aumentaram e o desemprego recuou para níveis historicamente baixos. O problema é que o cenário agora é completamente diferente.
O Brasil chega ao quarto mandato de Lula com desemprego próximo de 5,2% a 5,3%, forte crescimento dos salários reais e dificuldades crescentes de contratação em diversos setores. Muitas empresas já operam próximas de sua capacidade produtiva, especialmente nas atividades intensivas em mão de obra.
Isso significa que o espaço para continuar crescendo simplesmente estimulando o consumo ficou muito menor. Em uma economia próxima do pleno emprego, transferências adicionais de renda e aumentos expressivos de gastos públicos podem produzir mais inflação do que crescimento.
É justamente esse o principal temor do mercado financeiro. Durante a campanha eleitoral, os candidatos fizeram promessas de ampliação de benefícios sociais, reajustes e novas despesas públicas.
Lula mencionou propostas como o Pé-de-Meia universitário, além de novos aumentos de programas de transferência de renda. O conjunto dessas medidas pode representar dezenas de bilhões de reais em despesas adicionais por ano.
O problema não é a importância social dessas políticas. O problema é que a economia brasileira já não dispõe da mesma capacidade ociosa para responder a novos estímulos de demanda com aumentos de produção.
Insistir na estratégia anterior pode acelerar a inflação, pressionar o câmbio e dificultar a redução das taxas de juros. O novo motor da economia precisa ser o investimento
O quarto governo Lula tem uma oportunidade histórica de mudar o motor do crescimento brasileiro. Nos últimos anos, o principal impulso econômico veio do consumo das famílias, sustentado pelo crescimento do emprego, dos salários, do crédito e das transferências de renda.
Agora, esse modelo precisa dar lugar a outro, baseado na ampliação da capacidade produtiva, no investimento e no aumento da produtividade. O Brasil precisa crescer pela oferta, não apenas pela demanda.
Isso significa investir em infraestrutura, máquinas, equipamentos, tecnologia, inovação, capacidade industrial e qualificação profissional. O objetivo deve ser permitir que a economia produza mais, com maior eficiência, sem que cada avanço do consumo se transforme em pressão inflacionária.
As bases para essa transformação já existem. A Nova Indústria Brasil (NIB) oferece uma estrutura de política industrial que pode orientar investimentos estratégicos.
O BNDES voltou a desempenhar papel relevante no financiamento do desenvolvimento. As empresas estatais também podem contribuir decisivamente para ampliar a capacidade produtiva nacional.
A Petrobras, por exemplo, está retomando investimentos na indústria naval e em fertilizantes. A recuperação da Ceitec representa outra iniciativa importante para reconstruir capacidades tecnológicas.
Há um conjunto de projetos industriais e de infraestrutura que pode ajudar o país a avançar para atividades de maior produtividade e complexidade econômica. O desafio agora é ampliar essas iniciativas e transformar o investimento produtivo no principal motor do crescimento.
Isso também exige uma relação construtiva com o setor privado. Não existe estratégia sustentável de desenvolvimento econômico sem mobilizar investimentos empresariais.
O Estado pode coordenar, financiar, reduzir riscos e orientar prioridades, mas precisa trazer as empresas para dentro desse processo. O câmbio pode se transformar no principal problema
A reação dos mercados também revela um segundo desafio importante: evitar que a desvalorização cambial comprometa o controle da inflação. Uma moeda que perde rapidamente valor em relação ao dólar provoca pressões sobre os preços domésticos.
Produtos importados ficam mais caros, insumos industriais aumentam de preço e alimentos comercializados internacionalmente passam a ter maior valorização em reais. Existe, portanto, uma conexão direta entre a taxa de câmbio e a inflação brasileira, embora a intensidade e a velocidade dessa transmissão variem entre os setores.
Uma desvalorização persistente pode dificultar enormemente o trabalho do Banco Central. Imagine um cenário em que o dólar avance para R$ 6 e o governo continue estimulando fortemente a demanda agregada.
A combinação de pressão cambial, mercado de trabalho aquecido e expansão fiscal poderia levar a inflação novamente para a região de 6% ao ano. Nesse ambiente, o Banco Central teria dificuldades para continuar reduzindo a Selic.
Mesmo que a autoridade monetária reduzisse artificialmente os juros de curto prazo, os juros longos poderiam continuar subindo diante do aumento das expectativas inflacionárias e dos prêmios de risco. Esse é um ponto fundamental.
Não adianta reduzir a Selic por decisão administrativa se o mercado passa a exigir juros de 15% ou 16% para financiar investimentos de longo prazo. O custo efetivo do capital continuaria elevado e a capacidade de investimento da economia permaneceria limitada.
Por isso, o quarto governo Lula terá de encontrar uma combinação delicada entre moderação da demanda, controle inflacionário, estabilidade cambial e estímulos ao investimento. Não é preciso concordar com o mercado, mas também não se pode ignorá-lo
Uma das maiores armadilhas para o novo governo seria transformar a relação com o mercado financeiro em uma guerra política. Isso não significa aceitar todas as recomendações dos investidores.
O mercado frequentemente erra suas previsões, exagera nas reações e interpreta a economia a partir de interesses próprios. Está longe de possuir qualquer monopólio sobre as melhores decisões de política econômica.
Mas também seria um erro ignorar sua capacidade de influenciar preços de ativos, juros e câmbio. Quando investidores percebem riscos elevados, procuram proteger seu patrimônio.
Uma pessoa com R$ 100 milhões, por exemplo, possui o equivalente a US$ 20 milhões quando o dólar está em R$ 5. Se a cotação vai para R$ 6, o mesmo patrimônio passa a valer aproximadamente US$ 16,7 milhões.
Esse movimento pode provocar uma corrida defensiva para ativos denominados em dólar. Não se trata necessariamente de um ataque especulativo coordenado, mas de decisões individuais de preservação patrimonial que, quando realizadas simultaneamente, intensificam a desvalorização cambial.
Por isso, uma política econômica que despreze completamente as expectativas financeiras pode acabar produzindo consequências negativas para a inflação, o investimento e o crescimento. O caminho não é submeter a política econômica ao mercado, mas construir credibilidade para executar uma estratégia de desenvolvimento.
O risco de uma kirchnerização da economia brasileira A experiência argentina oferece um alerta importante.
Ao longo dos governos kirchneristas, a combinação de conflitos políticos, desequilíbrios macroeconômicos, desvalorização cambial e inflação crescente contribuiu para deteriorar a estabilidade econômica do país. A Argentina chegou a registrar taxas de inflação superiores a 100% ao ano e uma desvalorização acumulada gigantesca de sua moeda.
O Brasil não está condenado a repetir essa trajetória. Muito pelo contrário.
Possui instituições monetárias mais sólidas, uma economia diversificada, reservas internacionais expressivas e instrumentos relevantes de política econômica. Mas uma estratégia de confronto permanente com os mercados, acompanhada de expansão excessiva da demanda e deterioração das expectativas inflacionárias, poderia criar dificuldades crescentes.
Seria um erro imaginar que o crescimento econômico pode ser produzido simplesmente pela redução forçada dos juros ou pela ampliação contínua das despesas de consumo. O desenvolvimento exige investimento, produtividade, transformação estrutural e capacidade de coordenação entre o setor público e o privado.
A frente ampla pode ser a chave política do novo governo O resultado eleitoral também sugere uma possibilidade importante para a composição política do quarto mandato de Lula.
A vitória não foi construída exclusivamente pelos eleitores tradicionais do Partido dos Trabalhadores. Ela contou com o apoio de setores de centro e de eleitores que, embora não sejam necessariamente lulistas, preferiram a candidatura de Lula à alternativa bolsonarista.
Essa característica abre espaço para a construção de um governo de frente ampla. A participação de Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Marina Silva e outros representantes de diferentes correntes políticas pode ajudar a ampliar a legitimidade do governo e sua capacidade de negociação.
O Congresso Nacional tende a ser mais conservador e apresentar maior presença do bolsonarismo. Entretanto, o Centrão não é necessariamente um bloco bolsonarista.
Existem diferenças importantes entre essas forças e possibilidades de negociação que podem ser exploradas. Uma articulação política ampla pode ser decisiva para viabilizar uma agenda econômica voltada ao investimento e à transformação produtiva.
Mais do que uma disputa entre esquerda e direita, o desafio brasileiro é construir uma coalizão capaz de sustentar um projeto nacional de desenvolvimento. A grande oportunidade de Lula 4
O quarto mandato de Lula poderá ser excelente para o Brasil, desde que compreenda que as condições econômicas mudaram. A estratégia que funcionou no terceiro mandato não pode ser simplesmente reproduzida.
Com desemprego elevado e capacidade ociosa, estimular o consumo pode produzir crescimento relativamente rápido. Com a economia próxima do pleno emprego, é necessário ampliar a oferta, elevar a produtividade e investir em novas capacidades produtivas.
A prioridade deve ser trocar o motor do crescimento brasileiro. Menos dependência de estímulos permanentes ao consumo e mais investimento produtivo.
Menos pressão inflacionária e mais capacidade industrial. Menos conflito estéril com os mercados financeiros e mais coordenação entre Estado, empresas e trabalhadores.
A Nova Indústria Brasil, o BNDES, as estatais e os instrumentos de política industrial oferecem uma base importante para essa transformação. O Brasil tem condições de crescer mais, produzir melhor e avançar para atividades de maior complexidade econômica.
Mas isso exigirá disciplina macroeconômica, capacidade política e uma estratégia consistente de desenvolvimento. O grande desafio de Lula 4 não será simplesmente estimular mais a economia brasileira.
Será transformar sua estrutura produtiva para que o país consiga crescer mais sem produzir mais inflação. É essa mudança, do consumo para o investimento e da expansão da demanda para o aumento da produtividade, que poderá definir o sucesso ou o fracasso do novo mandato.
Brasil 247