Mercado de biocombustíveis deve dobrar nos Estados Unidos até o fim da década, apesar de Trump

 

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A despeito do discurso favorável às fontes fósseis do presidente Donald Trump, a indústria de biocombustíveis nos Estados Unidos vive momento de expansão acelerada. Mais do que um movimento “apesar” do governo, o avanço ocorre em paralelo a políticas públicas, incentivos econômicos e mudanças na dinâmica do mercado de energia.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA finalizou, em março, novas metas para o programa de combustíveis renováveis, o Renewable Fuel Standard (RFS), estabelecendo os maiores volumes de mistura da história, com metas próximas de 91 bilhões de litros este ano e 93 bilhões de litros em 2027. A medida deve impulsionar a produção de biodiesel e diesel renovável em mais de 60% em relação a 2025, além de ampliar a demanda por milho e soja, base da indústria.

Donnell Rehagen, CEO da Clean Fuels Alliance America, avalia que a mudança segue o rápido avanço dos investimentos em infraestrutura e a capacidade produtiva do setor:

— Nos últimos cinco anos, vimos um crescimento muito expressivo na produção de diesel renovável nos EUA. Em 2020, havia cerca de 1 bilhão de galões (3,8 bilhões de litros) de capacidade. No ano passado, ultrapassamos os 5 bilhões (quase 19 bilhões de litros).

Para o executivo, o novo ciclo de metas do programa americano reconhece essa transformação:

— É fundamental para a indústria que o governo federal, por meio do RFS, reconheça essa capacidade instalada e a disponibilidade de matérias-primas, ajustando os volumes às condições reais do mercado.

Trump discursou em usina de etanol durante a campanha presidencial

Daniel Acker/Bloomberg

O mercado americano de biocombustíveis deve mais do que dobrar até o fim da década, passando de US$ 31,9 bilhões (R$ 159,5 bilhões) em 2023 para US$ 68 bilhões (R$ 340 bilhões) em 2030. A Grand View Research estima crescimento anual médio de 11,8% no período.

— O mercado de etanol está robusto. Temos níveis recordes de demanda, seja no mercado doméstico, seja nas exportações — destaca Geoff Cooper, presidente da Renewable Fuels Association.

O avanço também se estende ao biogás, considerado uma das frentes mais promissoras da transição energética. No último ano, cerca de 70 novos projetos entraram em operação, com investimentos de US$ 2 bilhões (R$ 10 bilhões), elevando para quase 2.600 o número de instalações no país. Produzido a partir de resíduos agrícolas, aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto, o combustível pode ser convertido em gás natural renovável e injetado na infraestrutura já existente.

Johannes Escudero, CEO da Coalition for Renewable Natural Gas, opina que o crescimento está ligado ao ambiente regulatório e ao aumento da demanda por combustíveis de baixo carbono. Escudero vê “uma correlação clara” entre políticas públicas e o número de projetos em operação. Mas, apesar do avanço, o biogás ainda enfrenta vários desafios econômicos, em função do alto custo produtivo e de assimetrias no mercado energético.

— Nos EUA, a produção de petróleo ainda é subsidiada pelo governo federal, enquanto o gás natural renovável não conta com esse mesmo tipo de apoio — pontua Escudero.

Contradição: será mesmo?

A aparente contradição entre o discurso político e o crescimento do setor é enxergada de outra forma pelos agentes da indústria.

— Essas políticas são frequentemente vistas como pró-combustíveis fósseis, mas talvez seja mais correto descrevê-las como pró-combustíveis líquidos — diz Cooper, da Renewable Fuels Association. — Os biocombustíveis são um componente muito importante desse mercado.

Unidade de processamento de soja, incluindo uma fábrica de óleo de soja e uma planta de biodiesel, em Greenwood, Mississippi

Rory Doyle/Bloomberg

Na prática, a expansão tem sido impulsionada por uma combinação de regulação e competitividade econômica. O RFS funciona como base do setor, criando um piso de demanda, enquanto incentivos como crédito tributário estimulam a produção de combustíveis de baixo carbono.

— O mercado olha para o RFS como fonte de previsibilidade e estabilidade — resume Geoff Cooper, acrescentando que a mudança recente na política energética também ajuda a explicar o panorama atual. — No governo Biden, a estratégia esteve concentrada na eletrificação do transporte, com incentivos direcionados à adoção de veículos elétricos, mas agora vemos um ambiente mais equilibrado, em que diferentes tecnologias podem competir.

Segurança energética

Rehagen, da Clean Fuels Alliance America, opina que há uma convergência de políticas públicas, com foco em segurança energética, economia rural e redução de emissões, que favorecem o etanol. Além disso, iniciativas estaduais ampliam esse efeito. A Califórnia responde por mais da metade do consumo de biodiesel e diesel renovável do país, impulsionada por metas próprias de descarbonização.

O custo também ajuda a explicar o avanço. O litro da gasolina E15, com 15% de adição de etanol, costuma ser até US$ 0,11 mais barato que o da convencional.

— Para o consumidor americano, o fator mais importante é o preço — salienta Cooper.

Patrick De Haan, analista da GasBuddy, aponta, entretanto, que a E15 não é um fator decisivo nas oscilações do mercado. Ele pondera que as políticas públicas podem ter efeitos distintos no cenário:

— Dependendo do tipo de mandato e do custo das matérias-primas, os biocombustíveis podem encarecer o combustível em alguns mercados.

*Especial para O GLOBO