Mensagens divulgadas pela PF revelam estratégia da mulher de Macário e diretor da Alerj para 'mascarar' nomeação

 

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Conversas divulgadas pela Polícia Federal entre Flávia Judice, esposa do desembargador Macário Judice Neto, e o diretor-geral da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Marcos Brito, mostram que os dois articularam uma versão “evasiva” para a imprensa sobre a nomeação de Flávia para o cargo comissionado de Assistente III na Casa Legislativa. O objetivo seria ocultar que a nomeação teria sido fruto de uma suposta rede de troca de favores entre o magistrado e o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. As informações constam em relatório que indiciou Bacellar por vazamento de informações à facção criminosa Comando Vermelho.

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Segundo o relatório, o caso ganhou repercussão após a coluna de Lauro Jardim, no GLOBO, revelar que Flávia ocupava um cargo em comissão na Alerj enquanto o marido atuava como relator do processo que envolve o ex-deputado Thiego Raimundo dos Santos, conhecido como TH Jóias, preso por ligação direta com o Comando Vermelho.

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Documentos anexados ao relatório mostram que Flávia foi nomeada por Bacellar em abril de 2023, inicialmente para a Subdiretoria-Geral de Finanças, mas redistribuída pouco depois para a Diretoria-Geral, setor ligado diretamente à Presidência.

Nomeação de Flávia Judice, esposa do desembargador Macário Júdice Neto, para o cargo comissionado de Assistente III

Reprodução / PF

A redistribuição de Flávia Judice, esposa do desembargador Macário Júdice Neto, para a Diretoria-Geral, setor ligado diretamente à Presidência

Reprodução / PF

Em 18 de novembro de 2025,poucos dias após a publicação da reportagem, Marcos Brito tranquilizou Flávia sobre sua nova nomeação que ainda não havia sido descoberta: “Essa até onde sabemos passou despercebida”. No dia seguinte, diante da demanda da assessoria de comunicação da Alerj, o diretor-geral orientou Flávia sobre como responder à imprensa e encaminhou o texto de uma nota oficial.

“Nota: A ex-servidora citada nunca esteve lotada no gabinete da Presidência da Alerj nem em gabinete parlamentar. Cabe registrar que a ex-servidora integrou a equipe da Diretoria-Geral da Alerj, vinculada exclusivamente ao diretor-geral, tendo solicitado, espontaneamente, sua exoneração, em 2/11/2025, não havendo qualquer possibilidade de conflito de interesse. Portanto, considerando a ausência de lastro de sustentabilidade na informação ora retificada, verifica-se total prejudicialidade nas ilações perquiridas, cabendo registrar que a Presidência da Alerj tem profundo respeito pelo Poder Judiciário e seus membros, não cabendo qualquer constrangimento ou censura à tramitação do processo judicial, sustentado nos princípios da ampla defesa e do contraditório”, escreveu Brito.

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Em outra mensagem, o diretor-geral orientou Flávia de forma direta: “Fácil de responder: você nunca trabalhou no Gabinete de RB [Rodrigo Bacellar] e nem na Presidência; indicação do DG [Diretor-Geral] para atuar na DG, na equipe pessoal do DG”. Ainda sugeriu que Flávia afirmasse ter pedido exoneração do cargo após o início do processo envolvendo a atuação do desembargador, “para não haver qualquer tipo de questionamento durante a tramitação”.

A estratégia, segundo a PF, buscava criar um “lastro de sustentabilidade” para a versão apresentada. Para os investigadores, a alegação de que a exoneração teria ocorrido de forma “espontânea” e “a pedido”, para evitar conflitos de interesse, servia apenas para “sombrear” o vínculo real.

Ainda de acordo com o relatório, o tom das mensagens chama a atenção pela “subserviência” do diretor-geral da Alerj em relação ao casal. Em uma das conversas, Marcos Brito se refere ao desembargador Macário como “nosso chefe” ao pedir que Flávia validasse o texto da nota: “Minha querida, veja se nosso chefe acha bom desse jeito”.

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Minutos depois, Flávia respondeu, após supostamente consultar o marido: “Está ótimo”.

Procurada pelo GLOBO, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) ainda não se pronunciou sobre o assunto.

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