Menos regras à mesa: por que uma nova relação com a comida pode ganhar força em 2027 - QTU Questões do Universo

Menos regras à mesa: por que uma nova relação com a comida pode ganhar força em 2027

Fonte: Bandeira da fonte

Em 2026, a alimentação ganhou cada vez mais funções nas redes sociais.
Proteína virou protagonista, fibras passaram a ser celebradas pelo efeito sobre o intestino e alimentos funcionais chegaram acompanhados de promessas relacionadas a sono, metabolismo, saciedade e composição corporal.
Para 2027, começa a aparecer um movimento em outra direção: a ideia de tirar um pouco do peso das escolhas à mesa e parar de transformar cada refeição em uma estratégia para alcançar algum objetivo específico.
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A mudança não significa abandonar uma alimentação equilibrada nem ignorar as necessidades nutricionais do organismo.
A discussão é outra: até que ponto é preciso atribuir uma função a tudo o que se come? Em meio a uma enxurrada de conteúdos sobre dieta, metabolismo, emagrecimento e performance, ganha espaço a possibilidade de olhar para a comida de uma maneira menos rígida e considerar também prazer, cultura, convivência e rotina.
"Existe um risco quando transformamos a alimentação em uma planilha permanente de nutrientes.
Proteína, fibras, vitaminas e minerais são importantes, mas o alimento não precisa justificar sua existência apenas por uma função metabólica.
Comer também envolve prazer, cultura, socialização e bem-estar", explica o médico Patrick Ferreira, presidente da Academia Brasileira de Clínica Médica e especialista em Nutrologia, Medicina Esportiva, Fisiologia do Exercício e Obesidade.
Quando cuidar da alimentação vira uma nova forma de restrição
A atenção à qualidade do que se coloca no prato pode ser positiva, mas a busca constante pelo controle pode ganhar outra dimensão quando cada escolha passa a ser acompanhada de culpa.
Um alimento deixa de ser apenas um alimento e passa a ser classificado como "bom", "ruim", "permitido" ou "proibido", de acordo com a função que supostamente terá no organismo.
Para a endocrinologista Maria Letícia Murba, o excesso de regras pode afastar a alimentação da vida real.
"Não podemos confundir alimentação saudável com uma rotina de restrições intermináveis.
O organismo precisa de nutrientes, mas também precisamos considerar o contexto, a rotina e a capacidade daquela pessoa de manter determinado padrão alimentar.
Uma estratégia que gera culpa e ansiedade dificilmente será sustentável no longo prazo", afirma.
Essa lógica também pode aparecer quando alguém passa a evitar determinado alimento não por uma necessidade relacionada à própria saúde, mas porque acredita que toda refeição precisa oferecer algum benefício adicional, seja aumentar a saciedade, acelerar o metabolismo ou contribuir para a composição corporal.
"Uma alimentação adequada não precisa ser perfeita.
O que determina saúde é o conjunto dos hábitos ao longo do tempo, e não uma refeição isolada.
Não faz sentido transformar um pedaço de bolo ou uma refeição fora da rotina em um fracasso", destaca Patrick.
Menos regras, mais atenção aos sinais do corpo
É nesse cenário que a chamada alimentação intuitiva ganhou espaço nas discussões sobre comportamento alimentar.
A proposta valoriza a percepção dos sinais de fome e saciedade e busca reduzir a dependência de regras rígidas.
Isso não significa comer sem critério, mas abrir espaço para que outros fatores, além das metas nutricionais, participem das escolhas.
Para Maria Letícia, uma abordagem individualizada faz ainda mais sentido diante da quantidade de recomendações que circulam nas redes como se fossem universais.
"Não existe uma única forma de alimentação que funcione da mesma maneira para todas as pessoas.
Idade, composição corporal, nível de atividade física, doenças associadas, medicamentos e objetivos precisam ser considerados.
O mais importante é construir uma estratégia que seja nutricionalmente adequada e possível de sustentar", pondera.
A discussão, portanto, não coloca prazer e qualidade nutricional em lados opostos.
O desafio está em encontrar uma relação que considere as necessidades de cada pessoa sem transformar a alimentação em uma sequência interminável de cálculos, compensações e restrições.
Patrick vê nessa mudança uma possibilidade de equilíbrio diante da cultura de controle que ganhou força nos últimos anos.
"Eu acredito que vamos caminhar para uma relação mais inteligente com a comida.
Não significa deixar de prestar atenção à qualidade nutricional, mas entender que saúde não é construída pela obsessão.
É possível comer bem, cuidar do peso e do metabolismo e, ao mesmo tempo, preservar prazer e liberdade alimentar", projeta.
Se 2026 foi marcado pela pergunta "quanto de proteína tem isso?", o debate que começa a aparecer para 2027 pode trazer outra: é preciso mesmo transformar tudo o que se come em uma estratégia?
Talvez a mudança esteja menos em encontrar um novo alimento com alguma função extraordinária e mais em ampliar a forma como se olha para a comida.
Afinal, uma refeição pode contribuir para a saúde, mas também pode ser simplesmente uma refeição, sem precisar carregar, a cada garfada, uma meta para cumprir.