Menos agências, mais distância: fechamento de unidades bancárias afeta acesso a serviços no Pará

 

Fonte:


A redução de 37% no número de agências bancárias no Brasil em uma década - indo para pouco mais de 14 mil - já impacta diretamente o acesso a serviços financeiros, especialmente em estados com grandes distâncias e limitações de infraestrutura, como o Pará. Dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), com base no Banco Central, mostram que, desde 2015, 638 municípios ficaram sem agência bancária, o que desassistiu 6,9 milhões de pessoas.


Em Belém, clientes relatam experiências distintas: enquanto alguns se adaptaram aos aplicativos, outros enfrentam dificuldades com filas, tecnologia e deslocamentos.


Agência bancária no centro comercial de Belém. (Foto: Thiago Gomes)


Atendimento presencial: entre filas e redução de funcionários


Para quem ainda depende das agências, a percepção é de mudança no atendimento. 


A aposentada Rosalina Mulatinho, ex-bancária, observa a diminuição de funcionários e relata dificuldades no dia a dia.


“Banco tem horário pra sair e não pra entrar. Então a gente tem aquela fila enorme pra entrar às 10h. Eu venho quase 11h porque a fila já andou. Percebi a diminuição dos funcionários. Tinha um banco no meu prédio, mas fechou”, conta.


Ela também aponta obstáculos na adaptação ao digital: “Eu tenho dificuldade em tudo pra mexer nos serviços digitais. Minha filha me ajuda. Até meu telefone agora deu problema e saiu tudo.”


Rosalina Mulatinho. (Foto: Thiago Gomes)


Digital divide: facilidade para uns, barreira para outros


A digitalização dos serviços bancários é vista como avanço por parte da população. A babá Paula Sarmento diz que prefere resolver tudo pelo celular.


Paula Sarmento. (Foto: Thiago Gomes)


“Eu achei melhor pelo aplicativo. É tudo mais fácil, mais rápido do que se deslocar pra resolver presencialmente”, afirma.


Por outro lado, o motorista Marcos Silva chama atenção para as dificuldades enfrentadas por pessoas mais velhas ou vindas do interior.


“Muitas pessoas do Marajó vêm pra Belém e encontram dificuldade. Às vezes não conseguem resolver no mesmo dia e têm que voltar, gastando mais. O atendimento piorou”, diz.


Ele destaca ainda o impacto geracional da digitalização: “Eu consegui acompanhar, mas minha mãe não tem Pix porque não consegue lidar com isso.”


Marcos Silva. (Foto: Thiago Gomes)


 


 


 


Febraban justifica movimento


A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirma que o fechamento de agências ao longo dos anos reflete a adaptação das instituições financeiras ao avanço dos canais digitais e a mudanças no comportamento do consumidor. Segundo a entidade, os bancos vêm reestruturando suas operações diante da preferência crescente por serviços eletrônicos, que oferecem mais conveniência.


“A utilização dos canais digitais vem ganhando espaço em detrimento dos canais físicos e presenciais”, destaca.


De acordo com a federação, esse movimento também redefine o papel das agências, que passam a se concentrar no atendimento consultivo e no fechamento de negócios, enquanto as transações do dia a dia migram para o ambiente digital. A entidade ressalta que praticamente todas as operações já podem ser feitas de forma eletrônica, ampliando a autonomia dos clientes.


A Febraban aponta ainda que, apesar da redução de estruturas físicas, o nível de emprego no setor tem se mantido estável, com mudança no perfil das vagas. Segundo a entidade, cresce a demanda por profissionais especializados, sobretudo em tecnologia e segurança digital.


“O avanço dos serviços digitais tem levado as instituições a contratar um grande volume de profissionais nessas áreas”, afirma.


A federação também destaca que o sistema bancário brasileiro mantém uma trajetória de investimentos contínuos em inovação, com adoção de ferramentas como internet banking, aplicativos móveis, biometria e autoatendimento. Para 2025, a estimativa é de cerca de R$ 48 bilhões destinados à tecnologia da informação.


“É o resultado de anos de investimentos consistentes para oferecer aos clientes soluções cada vez mais modernas”, conclui.


Distâncias maiores e exclusão financeira no interior


Segundo Everson Costa, supervisor técnico do Dieese Pará, a redução de agências intensifica desigualdades no estado, sobretudo fora da Região Metropolitana de Belém.


“A redução de agências bancárias no Brasil, que caiu de 22.786 unidades em 2015 para 14.253 em 2025, tem impactos diretos sobre os clientes no Pará, especialmente fora da Região Metropolitana de Belém”, explica.


Ele destaca que o fechamento foi puxado principalmente por bancos privados e que, em um estado com dimensões territoriais extensas, isso traz consequências significativas.


Em Belém, clientes relatam experiências distintas: enquanto alguns se adaptaram aos aplicativos, outros enfrentam dificuldades com filas, tecnologia e deslocamentos. (Foto: Thiago Gomes)


“Para um estado com grandes distâncias e limitações de infraestrutura, isso significa maior concentração dos serviços em poucos municípios, obrigando a população a percorrer longas distâncias para acessar atendimento presencial”, afirma.


De acordo com o técnico, o resultado é sentido no bolso e no tempo dos clientes.


“Há aumento de custos, perda de tempo, sobrecarga de correspondentes bancários e maior dificuldade de acesso a serviços como crédito e atendimento especializado, aprofundando a exclusão financeira nas regiões mais afastadas.”


Populações vulneráveis são as mais afetadas


Embora o Pará ainda não registre um número elevado de municípios totalmente sem atendimento bancário, a tendência de redução da rede física já impacta diretamente a população, segundo o Dieese.


“Na prática, isso significa que milhares de paraenses passaram a enfrentar maior dificuldade de acesso aos serviços bancários, seja pela distância até uma agência, seja pela substituição do atendimento presencial por canais digitais”, diz Everson Costa.


Ele ressalta que os efeitos são mais intensos entre grupos vulneráveis.


“Este cenário afeta principalmente populações de menor renda, moradores de áreas rurais e ribeirinhas e pessoas com menor acesso à internet, que ainda é uma questão grave e precária na nossa região”, pontua.


Como consequência, há uma piora na qualidade do atendimento e limitações no acesso a serviços essenciais.


“Isso resulta em maior dependência de correspondentes bancários e restrições no acesso ao crédito e a outros serviços financeiros essenciais”, conclui.


Problema de todos


Segundo avalia a presidente do Sindicato dos Bancários do Pará, Tatiana Oliveira. “Essa política afeta trabalhadores e também usuários, que passam a enfrentar agências superlotadas, demora no atendimento e maiores deslocamentos até uma unidade física”, afirma.


Ela destaca ainda que a digitalização, embora avance, não substitui plenamente o atendimento presencial e pode aumentar a exposição a fraudes, além de ampliar a exclusão bancária em regiões mais afastadas do Pará.


Para o movimento sindical, há uma contradição entre os resultados financeiros das instituições e a redução da estrutura física e de pessoal. Tatiana cita dados de um banco privado que registrou lucro líquido de R$ 24,7 bilhões em 2025, crescimento de 26%, mesmo com o fechamento de postos de trabalho.


“Em cinco anos, foram cerca de 7,5 mil vagas encerradas, sendo quase 2 mil apenas no último período, enquanto as receitas com tarifas cresceram. Isso mostra que os bancos seguem altamente lucrativos, mas transferem os impactos para trabalhadores e clientes”, critica.


Segundo ela, o processo também enfraquece o caráter público do sistema financeiro, dificultando o acesso ao crédito e a políticas públicas.


A redução das equipes nas agências tem intensificado a sobrecarga de trabalho e agravado problemas de saúde entre os bancários que permanecem em atividade.


“Com menos funcionários e mais clientes por unidade, aumenta a pressão por metas, o acúmulo de funções e o ritmo de trabalho, criando ambientes cada vez mais estressantes”, diz.


Tatiana ressalta que a categoria já figura entre as que mais registram afastamentos por transtornos mentais no país.


Equilíbrio relativo no Pará não elimina desafios para trabalhadores


Segundo a vice-presidente do Sindicato dos Bancários do Pará, Vera Paoloni, o impacto da redução da rede física é parcialmente compensado pela atuação de instituições públicas.


“A redução de agências bancárias, que é uma realidade na maior parte do país, tem impacto mínimo no Pará, devido à abertura de agências do Banpará em todos os municípios, bem como à chegada de novas agências da Caixa Econômica Federal. Então, tem um relativo equilíbrio”, afirma.


Ela ressalta, no entanto, que a diminuição das agências tradicionais não significa redução da atividade financeira no estado.


“Enquanto há redução de agências bancárias, há um crescimento do ramo financeiro, financeiras e outros agentes de crédito”, completa.


Mesmo com esse equilíbrio, Paoloni alerta para outro problema crescente: a sobrecarga dos trabalhadores do setor. “Há necessidade de mais bancários e bancárias em muitos locais de trabalho e essa é a luta de 2026 e dos próximos períodos, pois gera um impacto nas condições de saúde mental dos trabalhadores e trabalhadoras”, destaca.