Menino de cinco anos detido pelo ICE nos EUA \'tem pesadelos e acorda chorando\', diz pai

 

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Liam Conejo Ramos, o menino de cinco anos detido por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) em 20 de janeiro, retornou para casa em 1º de fevereiro, mas ainda enfrenta sequelas do período que passou detido. Em entrevista ao portal de notícias Telemundo, o pai de Liam, Adrián Conejo Arias, contou que sua família está com muito medo e que seu filho tem sofrido com pesadelos à noite.

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— Toda essa provação tem sido muito difícil para nós. Meu filho Liam ainda está assustado, apavorado com tudo o que aconteceu. Todos na família estão muito assustados com tudo o que ainda estamos passando — relatou Conejo.

O pai afirmou que a família está "escondida" e tem medo de sair à rua e "isso acontecer de novo", se referindo à detenção. Segundo ele, Liam "não é o mesmo" desde o dia em que foram detidos pelos agentes federais e "não está nada bem". Conejo relatou que o menino tem tido febre, tosse e está com os olhos vermelhos.

— À noite, ele acorda várias vezes chorando e implorando... Ele tem pesadelos. Ele acorda e me chama: "Papai, papai", e eu tenho que ir.

Para Adrián, os sintomas do menino refletem um "trauma psicológico" já que, segundo ele, Liam tem medo que os agentes apareçam na nova casa onde estão escondidos e os detenham novamente. Conejo disse ainda que seu filho mais velho e sua esposa, Erika Ramos, que está grávida, também enfrentam a mesma preocupação.

— [Ela] precisou ir ao hospital porque teve um sangramento. Este confinamento não tem sido nada fácil — ressaltou.

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'Usado como isca'

Durante a entrevista ao Telemundo, a mãe de Liam reforçou a versão de que seu filho teria sido usado como "isca" pelos agentes federais. Segundo vizinhos e autoridades escolares relataram na época da detenção, os oficiais de imigração teriam pedido que o menino batesse à porta de casa para que a mãe atendesse. O Departamento de Segurança Interna rejeitou essa versão, classificando-a como uma “mentira absurda”. De acordo com o órgão, o pai teria fugido a pé, deixando o menino dentro de um veículo ligado na entrada da residência.

— Às 14h20, meu marido, Adrián, voltava da escola depois de buscar nosso filho. Quando estacionaram o carro em frente de casa, agentes do ICE se aproximaram e detiveram meu marido. Eles o prenderam e o algemaram — contou Erika. — Os agentes me viram. Tiraram o Liam do carro. Levaram-no até a porta da frente para que eu abrisse.

Ela relatou ter ouvido as batidas e a voz de seu filho pedindo para que ela abrisse a porta, enquanto seu marido gritava para que ela não abrisse. Na entrevista, Erika disse que decidiu não abrir porque "tinha medo de que me prendessem também e deixassem meu outro filho sozinho".

Segundo a mãe do menino, a família entrou legalmente nos Estados Unidos em 2024 "pelo programa de agendamento CBP One", um aplicativo da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) usado por migrantes para agendar entrevistas de asilo.

Mais de 900 mil pessoas conseguiram entrar no país por este meio desde janeiro de 2023. Geralmente, elas tinham permissão para permanecer nos Estados Unidos por dois anos, com autorização para trabalhar. Mas, em abril de 2025, o governo Trump revogou o status legal dos imigrantes que entraram no país pelo CBP One.

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Comoção mundial

Detidos durante uma uma operação de imigração em Minneapolis, pai e filho foram libertados no começo do mês por uma ordem judicial. Adrián e Liam passaram 12 dias em um centro de detenção para famílias migrantes no Texas, a 1,8 mil quilômetros de Minneapolis.

Desde a reabertura da unidade no ano passado, famílias detidas relatam condições precárias, como presença de vermes na comida, disputa por água potável e atendimento médico deficiente. Em dezembro, um relatório apresentado pelo ICE reconheceu que cerca de 400 crianças foram mantidas sob custódia por período superior ao limite recomendado de 20 dias.

O juiz federal Fred Biery, nomeado pelo ex-presidente Bill Clinton, que determinou a libertação de Adrián e Liam afirmou, em sua decisão, que “o caso tem sua gênese na perseguição mal concebida e implementada de forma incompetente, pelo governo, de cotas diárias de deportação, aparentemente mesmo que isso exija traumatizar crianças”.

O órgão federal de imigração está no centro de polêmicas pela ampla margem de atuação em suas operações desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, especialmente após a morte de dois manifestantes por agentes federais em janeiro, também em Minneapolis.

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A foto do menino de cinco anos no momento de sua detenção, na qual aparece assustado, usando um gorro azul com orelhas de coelho e uma mochila, enquanto é segurado por um agente vestido de preto, comoveu o mundo. As imagens provocaram reações de organizações e apoiadores de direitos civis, além de um protesto em frente ao centro de detenção familiar e a visita de dois deputados democratas do Texas.

A abordagem ocorreu no momento em que Liam e Adrián chegavam à própria residência após a saída escolar. Na época, o advogado da família, Marc Prokosch, declarou que tanto o pai quanto o filho entraram legalmente nos Estados Unidos e possuem um processo de asilo em andamento. Segundo ele, não existe qualquer ordem de deportação contra os dois.

— A família fez tudo o que era exigido pelas regras. Não vieram ilegalmente. Não são criminosos — afirmou o advogado.