‘Meninas primeiro’: faz sentido ensinar essa regra para crianças?

‘Meninas primeiro’: faz sentido ensinar essa regra para crianças?

 

Fonte: Bandeira



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Dúvida da semana 🤷‍♀️🤷

“Tenho gêmeos de 6 anos e, quando recebemos primas ou amigas em casa, costumo dizer ‘meninas primeiro’ na hora de servir ou escolher algo. Eles aceitam, mas perguntam por quê. E eu nunca sei exatamente como explicar. Meu receio é que essa lógica acabe produzindo o efeito contrário e gere irritação.”

A pergunta desta semana me pegou de jeito porque eu também não saberia exatamente o que responder. Ao mesmo tempo, traz uma dúvida legítima: como criar meninos gentis e respeitosos sem transformar isso numa regra automática que muitas vezes pode não fazer sentido?

Ouvimos três especialistas em infância e orientação parental. Elas lembram que, nessa idade, o exemplo dado pelos adultos costuma ensinar muito mais do que qualquer regra isolada.

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Palavra das especialistas 👩‍🏫👨‍🏫

Antônia Burke - Educadora e psicanalista

🧠 Acho importante tomar cuidado para que a ideia de “meninas primeiro” não pareça uma regra automática ou um valor moral ensinado sem contexto, porque uma criança de 6 anos percebe muito mais o funcionamento das relações do que os discursos abstratos.

💭 Ao mesmo tempo, eu entendo o impulso dessa mãe. Sabemos que existe, sim, uma desigualdade de gênero no cotidiano, e ela já aparece desde a primeira infância.

👧 Meninas costumam ser mais interrompidas, têm o corpo mais comentado, recebem mais cobranças relacionadas a comportamento e aprendem desde pequenas a agradar mais, ceder mais e ocupar menos espaço. Muitas de nós crescemos tentando não parecer “mandonas”, “difíceis” ou “exageradas”. Enquanto isso, meninos frequentemente recebem mais autorização para interromper, se impor, fazer barulho, correr riscos ou dominar determinados espaços.

🏠 Então faz sentido que pais que têm essa percepção de mundo tentem criar gestos de compensação dentro de casa. O problema é que a criança pode acabar entendendo (ou aceitando) apenas a regra, mas não conseguindo compreender o sentido por trás dela.

⚖️ Talvez o caminho não seja ensinar que “meninas vêm primeiro”, mas ensinar meninos a perceber desigualdades quando elas acontecem. Isso não significa abandonar a ideia de gentileza, cuidado ou atenção ao outro. Pelo contrário. Talvez seja até mais interessante ensinar essas qualidades como valores humanos amplos, e não apenas como um conjunto rígido de regras direcionadas às mulheres.

🗣️ E isso pode aparecer em experiências muito concretas:

“Percebeu que ela não conseguiu terminar de falar?”

“Você viu como riram mais dela do que ririam de um menino?”

“Você reparou que pedem mais ajuda doméstica para as meninas?”

👦 Crianças entendem muito melhor a ideia de justiça quando ela aparece numa situação real do que em discursos abstratos sobre homens e mulheres.

🤝 Elas entendem cuidado, equilíbrio, respeito. Entendem quando alguém está sendo diminuído, interrompido ou tratado de forma injusta. O problema é que, quando a explicação é apenas “porque ela é menina”, corre o risco de produzir exatamente o contrário do que os pais desejam: ressentimento, sensação de injustiça ou uma relação artificial com o cuidado.

🌍 A educação não acontece só no conteúdo da fala. Acontece, principalmente, na forma como as relações são organizadas, distribuídas e vividas dentro e fora de casa. E sempre precisamos lembrar, por mais angustiante que seja, que nenhum pai ou mãe educa sozinho. A criança cresce também educada pela escola, pela internet, pelos amigos, pelos vídeos que assiste, pelas piadas que escuta, pelos adultos que observa.

✨ Por isso, mais do que decorar regras, os meninos precisam construir convicções sólidas sobre respeito, justiça e desigualdade, para que consigam reconhecer quando alguém estiver tentando convencê-los de que silenciar, diminuir ou desrespeitar meninas é algo natural.

Leia também: Como criar meninos que entendam machismo, assédio e consentimento?

Fê Lopes - Psicóloga e psicanalista (@felopespsico)

💡 Que pergunta importante! E ela nos pede que façamos uma outra: por que atuar dessa forma?

🧩 Acredito que a tentativa seja, através das atividades cotidianas, transmitir aos meninos a necessidade de respeitá-las. Mas será que respeitar as meninas é sempre ceder a vez?

🧒 Aos 6 anos, as crianças ainda estão construindo noções muito concretas de justiça, de pertencimento e até das diferenças entre meninos e meninas. Então, a sua preocupação com o efeito dessa regra sobre seus filhos é muito pertinente, porque, se a regra surge sem contexto, ela pode ser sentida mais como exclusão do que como aprendizado de empatia pelas meninas.

💬 Mas eu entendo a intenção por trás desse gesto. Nós vivemos em uma sociedade em que meninas e mulheres historicamente foram interrompidas, diminuídas, tiveram menos espaço e, por vezes, são escanteadas. Faz sentido, e é absolutamente desejável, que muitas famílias queiram educar filhos homens para a gentileza, o cuidado e o respeito às mulheres. Mas talvez o caminho não precise passar por uma prioridade automática para meninas em todas as situações do cotidiano, e sim por um olhar para como a brincadeira com as meninas por perto enriquece.

⚖️ Se queremos educar para a equidade em coisas muito pequenas e muito consistentes, devemos ensinar aos meninos a não interromper meninas, a respeitar seus limites, a dividir espaços, a colaborar nos cuidados, a perceber e demonstrar emoções, a valorizar a presença delas nas brincadeiras, a entender que meninas podem ocupar qualquer lugar que desejarem, inclusive o protagonismo das brincadeiras.

👀 Agora, é importante dizer que, em se tratando de crianças, todo aprendizado acontece muito mais na imitação do que elas vivem dentro de casa e no entorno com os adultos que cuidam delas do que através de regras arbitrárias. As crianças observam muito mais do que escutam.

🏡 Se eles crescem vendo as mulheres sendo respeitadas pelos homens, não sobrecarregadas ou subalternizadas, dividindo as tarefas do cuidado da casa e dos filhos, aplaudidas, podendo falar e sendo ouvidas sobre os mais variados assuntos, tendo espaço para descansar, para decidir a trajetória das suas vidas e existir como sujeitos completos, isso ensina muito mais sobre igualdade e respeito do que qualquer regra sobre “meninas primeiro”.

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SOBRE GENTILEZA 👀

'Crianças de 6 anos conseguem entender explicações concretas sobre educação e cuidado'

Por Maya Eigenmann, neuropedagoga, autora best-seller, diretora da Escola da Educação Positiva (@maya_eigenmann)

Eu teria cuidado com a ideia de explicar essa preferência simplesmente pelo fato de serem meninas. Talvez faça mais sentido apresentar isso para a criança a partir da lógica da gentileza com quem está visitando a casa.

Quando recebemos visitas, é comum demonstrar que estamos felizes com a presença delas através de pequenos gestos de educação e acolhimento. Dar preferência para servir primeiro, por exemplo, pode ser explicado desse lugar: não porque são meninas, mas porque são visitas.

Ao mesmo tempo, é importante lembrar que muitas dessas normas pertencem muito mais ao universo adulto do que ao infantil. Isso não significa que elas não possam ser ensinadas, mas talvez seja injusto esperar que crianças pequenas entendam naturalmente o sentido delas ou gostem dessas regras.

Para uma criança de 6 anos, faz mais sentido compreender que existe um gesto de gentileza com quem está sendo recebido do que associar automaticamente essa prioridade ao fato de alguém ser menina. Porque, quando a justificativa fica apenas nesse lugar, isso pode acabar despertando irritação ou sensação de injustiça.

Por outro lado, crianças dessa idade conseguem entender muito bem explicações concretas e objetivas sobre convivência, educação e cuidado com o outro quando elas são apresentadas de forma clara e coerente.

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