O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça passou a mobilizar publicamente sua identidade evangélica em um momento de crise da Corte e de maior disputa política em torno do voto religioso. A avaliação é do teólogo e pastor Ronilso Pacheco, convidado do programa Fim de Expediente nesta sexta-feira (18). Segundo Pacheco, a exposição da identidade religiosa por Mendonça tem uma dimensão que vai além da fé pessoal. “Performar ser evangélico se tornou importante como uma forma de comunicação social, no sentido de se comunicar com a sociedade”, afirmou. O teólogo ressalta que a relação de Mendonça com a religião não é apenas estratégica. Pastor presbiteriano, o ministro já exercia atividade religiosa antes de chegar ao STF. Para Pacheco, porém, o contexto político fez com que essa identidade passasse a ter uma função adicional. Pacheco citou como exemplo um vídeo divulgado recentemente por Mendonça em que o ministro pede orações ao segmento evangélico. Para o teólogo, a escolha de publicar a mensagem e permitir que ela alcançasse um público amplo diferencia a iniciativa de um pedido feito apenas no ambiente privado da igreja. “Ele faz isso como um vídeo, ele publica, viraliza. Ele cria quase como uma linha protetora, uma convocação para o segmento evangélico que vai fazer uma leitura meio espiritualizada desse combate”, afirmou. “Então, eu acho que isso é estratégico também, não é só genuinamente religioso", conclui.
O que é o 'voto evangélico'? Ao longo da entrevista, Ronilso Pacheco também questionou a ideia de tratar os evangélicos como um grupo político homogêneo. Para ele, há diferenças importantes entre denominações, lideranças e os próprios fiéis, que podem ter interesses e posições distintas. “O que é o voto evangélico afinal? Porque ninguém vota única e exclusivamente só porque é evangélico”, afirmou. Segundo o teólogo, decisões eleitorais também são influenciadas por interesses pessoais, relações comunitárias e questões locais. Teólogo Ronilso Pacheco Divulgação Pacheco citou uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), instituição da qual é diretor, para destacar a diversidade do segmento. De acordo com ele, o levantamento ouviu mais de 15 mil pessoas e mostra, entre outros pontos, resistência ao uso de templos para campanhas políticas e à indicação de candidatos por pastores. “Olhar para a diversidade desse grupo é um dos grandes aprendizados que o Brasil ainda tem nesse sentido”, afirmou. Pacheco também destacou que a relação entre religião e política não é um fenômeno novo no Brasil, mas ganhou novas características com a ascensão de Jair Bolsonaro e o fortalecimento de movimentos conservadores religiosos. Para ele, o debate atual exige compreender não apenas o tamanho do segmento evangélico, mas sua diversidade interna e as diferentes formas como religião e política se relacionam.
CBN