Memórias musicais e o valor da curadoria: Gaía Passarelli lança ‘Deslumbre’
A música é uma chave que abre as portas para memórias e sentimentos em pessoas de todas as idades. No Estúdio CBN desta sexta-feira (24), Tatiana Vasconcellos e Fernando Andrade receberam as escritora, repórter e curadora de conteúdo, Gaía Passarelli, ex-DJ da MTV, que une todas as suas facetas em seu novo livro ‘Deslumbre’, uma ode às suas memórias musicais.
A obra surgiu a partir de um convite da editora Terreno Estranho, por meio de um colega da época da MTV, que buscava por histórias de sua época como jornalista musical:
"Ele me procurou querendo saber se eu tinha histórias legais ou engraçadas do meu período como jornalista musical que eu pudesse contar, que rendessem um livro interessante. Eu tenho histórias legais, mas talvez não o suficiente para fazer um livro só sobre isso; então, acabou virando um livro de memórias, um olhar para diferentes fases em que a música esteve muito presente na minha vida".
O livro acabou se tornando “um olhar para diferentes fases”. A autora decidiu dividir a narrativa entre quatro momentos: a pré-adolescência e a adolescência, na virada dos anos 1980 para os anos 1990; meados dos anos 1990, quando São Paulo é tomado por um cenário muito forte de música eletrônica; o período de 2010, quando Gaía foi trabalhar na MTV; e por fim quando a autora, já adulta, foi visitar a casa e estúdio de John Peel, para relembrar o período quando também atuou como repórter de viagem.
A resistência ao algoritmo
A entrevistada trouxe uma defesa forte da curadoria. No cenário atual, onde o acesso à música parece infinito, Gaía levantou uma questão que já ecoava nos corredores da MTV em 2010: para que serve um curador quando temos tudo a um clique no YouTube ou Spotify?
"É preciso ter filtro, é muita coisa, um universo virtualmente infinito de opções" , refletiu. Para a jornalista, enquanto as plataformas tendem a nos manter em zonas de conforto, o olhar de um curador funciona como um "ponto de partida" para o desconhecido.
Essa mediação da curadoria, atualmente, vem por novos meios, como as newsletters sobre o universo da música. A própria autora se diz entusiasta desse formato e escreve a Tá Todo Mundo Tentando, que já está no ar há cinco anos.
O risco de abdicar dessa mediação, segundo ela, é o empobrecimento da descoberta. Sem o filtro crítico, o ouvinte corre o risco de ficar "preso apenas ao que o algoritmo entrega" .
