'Memória de um assassino', com Patrick Dempsey: um suspense correto, mas cheio de truques

 

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Patrick Dempsey ainda é lembrado pelo neurocirurgião de “Grey’s anatomy”, mesmo tendo saído da trama médica em 2015, antes do fim. Agora, o ator está de volta às séries num papel que também promete deixar uma marca. Ele estrela “Memória de um assassino”, um thriller em dez episódios lançado pela HBO Max. A história prende, apesar do arsenal generoso de truques que alimentam o suspense. Não há grandes ambições: a dramaturgia é convencional. Até o título vem com um trocadilho infame (vou explicar mais adiante). Mas é boa distração para os fãs do gênero e conquistou ótimas audiências nos Estados Unidos. Tanto que foi renovada para a segunda temporada.

Dempsey interpreta Angelo Doyle.

Ele é viúvo e pai de uma professora. A filha, Maria (Odeya Rush), está grávida do marido, Jeff (Daniel David Stewart), um sujeito pouco afeito ao trabalho. Para a família, é um pacato vendedor de impressoras levando uma existência banal num subúrbio de Nova York. Na prática, entretanto, Angelo também atua como assassino de aluguel. Ele trabalha para Dutch (Michael Imperioli), dono de um restaurante. É ele quem encomenda as execuções e paga bem.

A vida dupla do personagem seria uma oportunidade para Dempsey testar sua versatilidade. Isso até acontece em certa medida, mas as atenções da direção e do roteiro se concentram mais nos adereços do que nas possíveis nuances do trabalho de ator. As identidades de Angelo são sublinhadas de maneira bem explicadinha. Chega a ser infantil. Quando precisa se transformar em matador, o pacato cidadão Angelo se dirige a uma espécie de “batcaverna”. Ele entra lá conduzindo uma caminhonete burguesa e sai, minutos depois, ao volante de um carrão esporte. O figurino muda para outro, muito mais elegante. O pai de família apagado e comum assume uma pose confiante. Sem ambiguidades ou sutilezas.

O risco da exposição da vida dupla existe. Todo cuidado é pouco para evitar botar Maria em perigo. Num determinado momento, claro, isso acontece.

O perigo se aprofunda porque nosso herói começa a sentir os primeiros sinais de Alzheimer precoce (essa é a explicação para o jogo de palavras do título). Passa a esquecer senhas e outras informações importantes. No caso dele, isso significa perigo de vida. É o mesmo mal de que sofre seu irmão mais velho. As visitas de Angelo ao hospital onde vive Michael (Richard Clarkin) servem de pretexto para ele ouvir longos esclarecimentos didáticos sobre a doença.

Patrick dempsey

Divulgação

“Memória de um assassino” tem uma premissa manjada — um anti-herói com valores familiares, mas sanguinário e sem chance de redenção moral. Porém, o roteiro fica na superfície e sequer explora bem seus próprios mecanismos. Dempsey é experiente, mas tem pouco espaço para mostrar isso. Já Imperioli, ator maravilhoso de “Sopranos” e de “The White Lotus”, se destaca num papel menor.