Memória afetiva e pão dormido: a receita que nenhum restaurante faz igual
Ela adora restaurantes diferentes, cardápios não necessariamente sofisticados, mas bem pensados, bem elaborados. Conhece os chefs pelo nome, lê as críticas de gastronomia, presta atenção na louça, na música, na iluminação, nos talheres. É aquela amiga a quem todo mundo recorre quando quer uma boa recomendação, porque ela já correu meio mundo para refinar o paladar — de bistrô em Paris a boteco no Méier. Mas hoje ela não quer nada disso. Hoje acordou com saudade de uma comida que nenhum chef conseguiria reproduzir.
Quem a vê agora, entrando com segurança no restaurante da moda, não imagina o quanto ela penou para chegar aqui. Lutou por cada conquista, por cada couvert, por cada carimbo no passaporte que muita gente acha que “caiu do céu”. Quando pequena, por exemplo, comida em casa não faltava, mas também não sobrava. Eram muitos irmãos, muitas bocas, contas milimétricas no fim do mês. O que havia era dignidade, improviso, a sabedoria dos pratos simples e criativos.
Um episódio, em especial, nunca saiu da memória. Numa manhã, estava atrasada para a escola, o uniforme meio amassado, a mochila pesada. Sentou-se à mesa, deu duas mordidas no pão com manteiga e deixou o resto. A mãe ralhou: pão não se joga fora. Ela respondeu que estava com pressa, que não estava com fome. A mãe respirou fundo, pegou o pão e deu um beijo nele. Então disse que não se joga pão fora porque isso um dia pode se voltar contra a gente. Pão é sagrado.
Foi um beijo sentido, um beijo de olhos fechados, como se estivesse se despedindo de um parente. Naquele gesto havia mais do que repreensão. Havia medo da falta, respeito pelo trabalho, memória de outros tempos ainda mais duros. Ela nunca esqueceu aquele beijo e, a partir de então, percebeu que em casa não existia “resto”. Todo pedaço de pão encontrava um destino. Virava torrada, rabanada, polpetta, pudim. E, quando já estava seco demais para qualquer romance com o leite, virava farinha.
Ah, a famosa farinha de empanar. O avô, artista de soluções, havia inventado uma geringonça que nem merecia o nome de máquina: um treco de metal, uma lâmina cansada, uma manivela. As mulheres da casa se reuniam em volta e ficavam girando, girando, até o pão duro se desmanchar em farelo fino. Do outro lado, caía uma neve dourada com a qual o frango de domingo ganhava crosta, a carne de segunda virava bifinho de festa, e a sardinha barata se transformava em filé “à milanesa” com sotaque de quintal.
Nem sempre havia carne. Em alguns momentos mais apertados, a mãe moía o pão dormido, empapuçava a farinha no ovo e misturava tudo numa massa grossa, temperada com sal, cheiro-verde picadinho e boa vontade. Com duas colheres, moldava pequenos montes que iam direto para o óleo quente. Eram croquetes de nada — de pão, ovo e fé — que chegavam à mesa como se fossem iguarias de restaurante francês. As crianças disputavam o último, lambiam os dedos, pediam mais.
Anos depois, já adulta, começou uma viagem. Descobriu o brioche perfeito em Paris, o pão sírio mais macio de Omã, a focaccia que parecia nuvem na Ligúria. Percebeu que poderia medir o humor de uma cidade pela qualidade do pão. Adotou o hábito de provar todos, mesmo quando o couvert custava mais do que pagava de feira inteira na infância. Seus amigos brincam: “Você não resiste a um pão.” Como contar que, para ela, cada cesta que chegava à mesa era uma espécie de altar, um lembrete silencioso de que aquilo um dia já foi milagre?
Hoje ela só queria comer aquele croquetinho com gosto de dedo, de papuça, de vitória na sobrevivência. Mas falta a geringonça. Falta a falta. E falta, principalmente, a mãe.
