Melinda Gates e MacKenzie Scott: como duas fortunas pós-divórcio mudam agendas globais

 

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Lembra-se daquele filme “O clube das desquitadas”, com Bette Midler, Diane Keaton e Goldie Hawn? Aquele em que três mulheres se unem para se vingar de maridos milionários infiéis? No final, Ivana Trump, ícone das ex-mulheres dos anos 1990, faz uma aparição surpresa e entrega a moral da história com seu pragmatismo glamouroso: “Não fique com raiva, fique com tudo”. “Tudo”, no caso, era a fortuna do ex. Pronto, vingança consumada.

Exatos 30 anos depois, surge um novo clube. Mais silencioso, mais sofisticado, mais poderoso. Um grupo de mulheres que não mira apenas o patrimônio, mas o impacto social e cultural de suas ações. Não é um conto de fadas feminista: elas continuam bilionárias, beneficiárias de um sistema desigual. Mas, dentro desse sistema, escolheram mover recursos na direção contrária à lógica da vingança miúda.

Melinda Gates é um exemplo. Filantropa, ex-diretora da Fundação Bill & Melinda Gates e ex-mulher de Bill Gates, cofundador da Microsoft, ela transformou um divórcio bilionário em plataforma cívica. Em entrevistas publicadas em podcasts na semana passada, falou de forma dura sobre Jeffrey Epstein, deixando claro que o envolvimento do ex-marido com o financista criminoso pesou em sua decisão de sair do casamento. Epstein, vale lembrar, foi o bilionário condenado por abuso e tráfico sexual de meninas e jovens mulheres, figura sombria que frequentava círculos de poder e morreu na prisão em 2019. Diversos documentos e trocas de e-mails com figurões foram vazados nos últimos dias e têm causado alvoroço mundial.

Melinda disse: “Nenhuma garota deveria jamais ser colocada na situação em que aquelas colocadas foram por Epstein e por tudo o que estava acontecendo com todas essas pessoas ao redor dele (...) Eu lembro de ter tido aquelas idades que aquelas meninas tinham. Eu lembro das minhas filhas tendo essas idades, certo? Então, para mim, é pessoalmente difícil (...) porque traz de volta memórias de tempos muito, muito dolorosos do meu casamento”. Ao fazer essas declarações, ela transformou seu desapontamento matrimonial em propósito cívico. O foco de seu discurso está na justiça para aquelas que sofreram, as vítimas. O outro lado: Bill Gates declarou que nunca se envolveu com nenhuma garota de Epstein.

MacKenzie Scott, escritora, filantropa e cofundadora da Amazon ao lado de Jeff Bezos, também seguiu outro roteiro. Longe do teatro social da revanche, ela escolheu a eficiência do silêncio. Na semana passada, Bezos e sua atual mulher, Lauren, desfilavam pelos desfiles de alta-costura de Paris, ela a bordo de um tailleur justíssimo, gola de pele e óculos escuros, uma visão caricatural que suava dinheiro. MacKenzie, por sua vez, decidiu não performar riqueza. Opera autoridade.

Desde o divórcio, tem doado bilhões de dólares, de forma ágil e direta, a organizações que trabalham com justiça racial, proteção ambiental, educação e infância. Há algo quase cinematográfico na ironia: enquanto Bezos se aproxima de Trump por razões políticas e comerciais, MacKenzie financia justamente as agendas que o presidente americano e seu grupo tentam enfraquecer. Em 2025, por exemplo, doou 7 bilhões de dólares. Entre os aportes, figuraram 45 milhões para manter uma linha de prevenção ao suicídio voltada a jovens LGBTQ+, em um momento de cortes federais nesse tipo de serviço.

Duas mulheres que transformaram mágoa privada e os bilhões a que tiveram acesso em uma agenda pública, útil e movida por decisões morais claras. Esse novo “clube das desquitadas” traz o conselho mais precioso. Não é sobre “ficar com tudo”. É sobre fazer algo com tudo. Vivam Melinda e MacKenzie.